Aida Batista

Amarração de amigos numa homenagem

Foi um poeta que nos deu a conhecer. Era teu cunhado e, em nome dele, começámos a conviver por via de encontros regulares de amigos e de outras causas que ambos abraçámos. Os momentos de convívio foram sempre oportunidades de alegria partilhada, fazendo com que a amizade e a admiração fossem crescendo como onda que a tua condição de ilhéu bem conhece. Nem uma nem outra tiveram como requisito a apresentação de um currículo prévio, porque a empatia, depois de instalada, não carece de passado nem faz perguntas. É argamassa virgem que une pessoas com interesses comuns. É-se amigo, e ponto!

Pouco a pouco, pontas soltas fizeram-me descobrir outras valências por trás do amigo: professor, diretor de museu, cronista, crítico literário, poeta e a que, mais tarde, acrescentei a arte de desenhar desvendada por uma amiga do grupo. Um poema aqui, outro acolá, um desenho, alguns textos, em que se inclui aquele com que participaste numa coletânea, onde, da tua “carta de marear tatuada na memória” me deste a conhecer a tua avó Glória.

Amarração de amigos - portugal-mileniostadium
“Nada adianta: a ilha foi vivendo comigo e o mar ali está em redor sempre”. Artur Goulart, Condição de Ilhéu. Créditos: DR.

Subitamente, caiu-nos a pandemia em cima, e os nossos encontros passaram a conversas semanais nos ecrãs dos computadores ou dos telemóveis que, semanalmente e ávidos de conversa, nos juntavam de Norte a Sul. Uma vez por outra, neste firmamento de diálogos cruzados, aparecia uma outra estrela – a tua neta. E assim foi passando o tempo, sem que alguma vez me tivesse interrogado a fundo acerca destas facetas da tua vida. Sobre os amigos pouco mais importa do que o prazer da fruição de instantâneos, que tu vivias com a humildade de quem caminha de pantufas, silenciosamente, sem alardes do valor que escondias, nem sinais de afirmação pessoal.

Há pouco tempo, soube que irias lançar um livro na Casa dos Açores de Lisboa e, de imediato, mostrei interesse em estar presente. Mãos invisíveis, deste e do outro lado do Atlântico, fizeram o evento ganhar outra forma e passar a homenagem, que tu achavas desnecessária como me confessaste ao telefone. Respondi-te que se a planeavam era por seres merecedor de tal honra. Fiz por estar presente, porque “presente”, além de adjetivo, substantiva também o tempo que se vive, aquele que não deve ser adiado nem postumamente celebrado.

Nessa noite, o amigo cortês e elegante no trato, que tomara de empréstimo a serenidade das planícies alentejanas, foi engrandecido pela retórica dos que o apresentaram: o historiador Victor Serrão, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que destacou o teu papel na preservação do património de arte sacra; o professor Fernando J. B. Martinho, aposentado da mesma faculdade, que, por interposta pessoa, analisou a tua obra poética; na qualidade de aluno e mentor da inicitiva, o Prof. Onésimo Teotónio Almeida, Catedrático da Brown University, recordou, com o humor que o carateriza, momentos vividos no seminário de Angra onde foste professor.

Assim fiquei a saber muito mais de ti, e a perceber melhor a tua grandeza, o teu espírito superior, próprio dos que vivem a sabedoria calada da ilha que lhes deu berço, mas rodeados de um mar de terra de ausências que servem de inspiração.

De seguida, a vez e a voz da tua mulher – a Isa, como ternamente lhe chamanos – no roteiro de uma viagem de amor pelas vossas mais importantes paragens, assinaladas com fotos que denunciavam os marcos do tempo. Tu, ilhéu de S. Jorge; ela, do Douro vinhateiro. Lado a lado, mar e rio, embalados num “cante” alentejano “braço no braço/ cadência no passo”,  sapatearam uma vida que a todos comoveu.

No final, tu agradeceste, de corpo inteiro, a amarração de amigos que soubeste abrigar na maré cheia da tua vida.

Aida Batista/MS

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