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Igreja Católica Romana administrou 7 escolas residenciais em Ontário

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No Canadá existiram cerca de 100 escolas residenciais a funcionar em alturas diferentes desde 1800 até 1996. Cerca de 17 dessas escolas residenciais estavam localizadas em Ontário e cinco religiões diferentes eram responsáveis pela sua administração: Católica Romana; Anglicana; Mennonite; Presbiterana e Igreja Unida (Evangélica). A Católica Romana foi responsável pela administração do maior número de escolas na província – sete: Fort Frances; Fort William; McIntosh; St Anne’s; St Mary’s; Spanish Boys’ School e Spanish Girl’s School. A Anglicana administrou seis escolas deste tipo: Bishop Horden Hall; Chapleau; Mohawk Institute; Peican Lake; Shingwauk e Wawanosh. Os Mennonite administraram a Cristal Lake e a Stirland Lake e os presbiteranos a Cecilia Jeffrey e a Igreja Unida o Mount Elgin.

Da lista das 17 escolas residenciais de Ontário uma das mais antigas do país e que está localizada mais próximo de Toronto era a de Mohawk que operou entre 1831 e 1970. O número de crianças indígenas matriculadas nesta escola de Brantford, Ont oscilava entre 90 a 200 alunos por ano e depois do seu encerramento acabou por ser transformada em Instituto de forma a ensinar às futuras gerações o que foram as escolas residenciais. Sobreviventes desta instituição relataram ter sofrido abuso físico e sexual e diziam que a comida que era servida estava muitas vezes estragada.

Na semana em que o Papa Francisco visitou o Canadá e pediu desculpa à comunidade indígena pelo papel da igreja católica romana na destruição da sua cultura e por anos de abusos e de “mentalidade colonial”, o Milénio Stadium ouviu a opinião da maior arquidiocese do Canadá – a Arquidiocese de Toronto. Abaixo publicamos a entrevista com o diretor interino de relações públicas e comunicações da Arquidiocese de Toronto, Mark Brosens. Curiosamente o arcebispo da Arquidiocese de Toronto, Thomas Collins, foi um dos cardeais que participou no conclave papal de 2013 que elegeu o Papa Francisco, aquele que viria a criar um novo capítulo na história do Canadá.

Milénio Stadium: O Papa já tinha pedido desculpa em Roma quando uma delegação de sobreviventes de escolas residenciais visitou o Vaticano na Primavera. Porque é tão importante pedir desculpa novamente em solo canadiano?
Mark Brosens: Na Igreja do Sagrado Coração, em Edmonton, o Papa Francisco partilhou que ficou comovido com as histórias dos delegados indígenas que se encontraram com ele em Roma e que contou a esses delegados: “qualquer processo de cura verdadeiramente eficaz requer ações concretas”. Vir ao Canadá e oferecer cura e reconciliação aos milhares de povos indígenas que participaram em eventos de visita papal até agora é, de facto, uma ação concreta. Apresentar um pedido de desculpas sobre esta terra torna o processo de reconciliação muito mais real para os muitos que não puderam viajar à Europa na Primavera passada para se encontrarem com o Santo Padre.

MS: O Papa Francisco disse que embarcou numa “peregrinação penitencial”. O que é que isto significa?
MB: Em Maskwacis, Alberta, o Santo Padre disse que veio à “terra natal… para vos contar pessoalmente a minha dor, para implorar o perdão, a cura e a reconciliação de Deus, para expressar a minha proximidade e para rezar convosco e por vós”. O Santo Padre viu a dor que alguns povos indígenas sentem hoje por causa do legado do sistema escolar residencial. E onde há dor desta história, recai sobre todos os canadianos – desde os padres até ao primeiro-ministro – a procura do perdão. Cristo conforta os que sofrem e o Santo Padre está a levar essa mensagem àqueles que precisam dela.

MS: O relatório de Verdade e Reconciliação da Escola Residencial Indígena de 2015 apelou aos grupos religiosos para renunciarem à Doutrina da Descoberta. As Igrejas Anglicana e Unida já o fizeram. Acredita que a Igreja Católica também deveria renunciar a esta doutrina?
MB: O processo de cura e reconciliação com os povos indígenas é um processo em que a Igreja tem estado empenhada há décadas e esta jornada vai continuar por muitos anos. Não há soluções rápidas para estas questões. Vai exigir uma investigação contínua e discussões sobre a verdade do nosso passado e sobre a melhor forma de avançarmos juntos. Estou feliz por ver que a Santa Sé se tornou tão ativa na reconciliação porque o futuro de questões como a Doutrina da Descoberta está nas suas mãos.

MS: Várias identidades católicas concordaram em esforçar-se para criar um fundo de cura e reconciliação de $25 milhões de dólares para antigos estudantes de escolas residenciais, ao abrigo do Acordo de Estabelecimento de Escola Residencial, mas numa fase inicial foram angariados apenas $4 milhões de dólares. No Outono passado, a igreja anunciou um novo plano para angariar $30 milhões de dólares em cinco anos para um Fundo de Reconciliação Indígena que pagaria por projectos de apoio à cura e reconciliação. Quanto é que já conseguiram juntar até agora e porque é que este dinheiro é tão importante?
MB: A Arquidiocese de Toronto vai realizar uma recolha especial em todas as nossas paróquias no fim de semana de 1/2 de outubro para apoiar o nosso compromisso de $6 milhões de dólares ao longo de cinco anos para o Fundo Nacional de Cura e Reconciliação no valor de 30 milhões de dólares. Gostaria de pedir aos católicos que apoiem esta coleta especial porque faz parte da missão cristã de amar o próximo. O clero católico tem uma profunda compreensão da grande necessidade de assistência que existe em muitas comunidades indígenas. Como parte do Acordo de Estabelecimento de Escolas Residenciais Indígenas, as entidades católicas concordaram em fornecer $25 milhões de dólares para construir, durante 10 anos, comunidades, aconselhar e apoiar atos voluntários. Esse compromisso foi excedido em cinco anos (para além dos $29 milhões de dólares que as entidades católicas pagaram em dinheiro). A necessidade é muito grande porque ainda há muito mais trabalho a fazer para ajudar os nossos irmãos e irmãs indígenas e eu pediria aos católicos que apoiassem este fundo de cura e reconciliação com a mesma generosidade que demonstram noutras coletas especiais.

MS: Os sobreviventes das escolas residenciais têm vindo a pedir justiça e reconciliação. Acha que depois deste pedido de desculpas vai ser mais fácil alcançar a tão desejada cura?
MB: Sempre que participo na celebração de uma missa com a comunidade indígena fico sempre impressionado com a sua profunda fé e compromisso com Cristo. A Missão dos Povos Nativos no extremo leste de Toronto tem sido um centro de culto para os nossos católicos indígenas urbanos durante décadas, tal como o são as igrejas que servem a comunidade indígena em todo este país. Durante a visita papal, os canadianos puderam ver a fé do povo indígena e foi uma visão inspiradora. Os católicos devem estar gratos pelo seu compromisso para com Deus e a Igreja.

MS: O que significa este assumir de erros para os 1,2 mil milhões de católicos canadianos?
MB: Todas as visitas papais trazem uma grande energia e uma fé renovada àqueles que as vivem. O Cardeal Collins partilhou comigo que todos os eventos das visitas papais a que assistiu foram experiências maravilhosas de boas-vindas. Ele diz que viu tantas pessoas sorridentes e felizes que seguravam cartazes a dizer “Nós amamos-te”. A Igreja, como com todas as pessoas, pode sempre aproximar-se de Cristo, e as visitas papais dão lições a todos aqueles que o ouvem sobre como ser mais parecido com Cristo.

Joana Leal/MS

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