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A história de um país com 154 anos

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Edifícios do Parlamento do Canadá na cidade de Otava. Crédito: Getty Images

Abaixo publicamos uma brevíssima síntese da história do Canadá, o país que celebra hoje 154 anos. Por limitações de espaço não fazemos referência às duas guerras mundiais, ao período entre as guerras e à invasão do Dia D de 1944.

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“Blackfoot women”com uma criança em 1886. Crédito: Ross, Alexander J., Calgary, Alberta

Pessoas aborígenes

Quando os europeus exploraram o Canadá, encontraram todas as regiões ocupadas por povos nativos a que chamaram índios, porque os primeiros exploradores pensavam que tinham chegado às Índias Orientais. Os povos nativos viviam da terra e do mar e as guerras entre eles eram comuns porque todos lutavam por terra, recursos e prestígio. A chegada dos colonos europeus mudou para sempre o modo de vida dos nativos e muitos foram os que morreram porque não tinham imunidade contra as doenças europeias. Ainda assim aborígenes e europeus criaram importantes relações económicas, religiosas e militares nos primeiros 200 anos de coexistência que lançaram as bases para o Canadá de hoje.

Os primeiros europeus

Os vikings da Islândia que colonizaram a Gronelândia há 1000 anos também chegaram a Labrador e à ilha da Nova Scotia. Os restos da sua povoação, l’Anse aux Meadows, são designados como Património Mundial. A exploração europeia começou a sério em 1497 com a expedição de John Cabot, que foi o primeiro a desenhar um mapa da costa oriental do Canadá.

Exploring a River, Naming Canada

Entre 1534 e 1542, Jacques Cartier fez três viagens através do Atlântico, reclamando as terras para o rei Francisco I de França. Cartier ouviu dois guias capturados a falar a palavra iroquoiana kanata, que significa “aldeia”. Na década de 1550, o nome do Canadá começou a aparecer nos mapas.

Royal New France

Em 1604, a primeira povoação europeia a norte da Florida foi estabelecida por dois exploradores franceses, primeiro na ilha de St. Croix (no atual Maine), depois em Port-Royal, na Acadia (atual Nova Scotia). Em 1608 construíram a fortaleza que é hoje a cidade do Quebec. Os First Nations lutaram um século com os franceses e em 1701 fizeram as pazes. Franceses e aborígenes colaboravam no comércio de peles de castor que tinham na altura uma grande procura na Europa. 

A luta por um continente, a província do Quebec

Em 1670, o Rei Carlos II de Inglaterra concedeu à Hudson’s Bay Company direitos comerciais exclusivos sobre a bacia hidrográfica que drenava para a Hudson Bay. Durante os 100 anos seguintes, a empresa competiu com comerciantes sediados em Montreal. Os homens que viajavam de canoa eram poderosos e formaram fortes alianças com os First Nations. As colónias inglesas ao longo da costa atlântica, datadas do início do século XVI, acabaram por se tornar mais ricas e mais populosas do que a New France. No século XVII, a França e a Grã-Bretanha lutaram pelo controlo da América do Norte e em 1759, os britânicos derrotaram os franceses na Batalha das Planícies de Abraão na cidade do Quebec e marcaram o fim do império da França na América. Após a guerra, a Grã-Bretanha renomeou a colónia de “Província do Québec”. O povo católico de língua francesa esforçou-se por preservar o seu modo de vida no Império Britânico de língua inglesa, governado pelo protestantismo.

A Tradition of Accomodation

Para governar melhor a maioria católica romana francesa, o Parlamento britânico aprovou a Lei do Quebec de 1774. Uma das bases constitucionais do Canadá, a Lei do Quebec acomodava os princípios das instituições britânicas à realidade da província. A lei permitiu a liberdade religiosa aos católicos e fez com que pudessem ocupar cargos públicos, uma prática que até então não era permitida na Grã-Bretanha. A Lei do Québec restaurou o direito civil francês e manteve em simultâneo o direito penal britânico.

United Empire Loyalists

Em 1776, as 13 colónias britânicas a sul do Québec declararam a independência e formaram os EUA. A América do Norte foi novamente dividida pela guerra. Mais de 40.000 pessoas leais à Coroa, chamadas “Loyalists”, fugiram da opressão da Revolução Americana para se estabelecerem na Nova Scotia e no Québec. Os Loyalists vieram de origens holandesas, alemãs, britânicas, escandinavas, aborígenes e outras e de origem presbiteriana, anglicana, baptista, metodista, judaica, quaker e católica. 

O início da democracia

As instituições democráticas desenvolveram-se de forma gradual e pacífica. A primeira assembleia representativa foi eleita em Halifax, Nova Scotia, em 1758. Seguiu-se a Prince Edward Island em 1773, New Brunswick, em 1785. O Ato Constitucional de 1791 dividiu a Província do Quebec em Alto Canadá (mais tarde Ontário), que era principalmente Loyalist, protestante e anglófona, e Baixo Canadá (mais tarde Quebec), fortemente católica e francófona. A Lei também concedeu aos Canadás, pela primeira vez, assembleias legislativas eleitas pelo povo. O nome Canadá também se tornou oficial nesta altura e passou a ser usado desde então. As colónias atlânticas e os dois Canadás eram conhecidos como América do Norte britânica.

Abolição da escravatura

A escravatura existiu em todo o mundo, desde a Ásia, África e Médio Oriente até às Américas. O primeiro movimento para abolir o comércio transatlântico de escravos surgiu no Parlamento britânico no final do século XVII. Em 1793, o Alto Canadá, liderado pelo tenente governador John Graves Simcoe, um oficial militar Loyalist, tornou-se a primeira província do Império a avançar para a abolição. Em 1807, o Parlamento britânico proibiu a compra e venda de escravos, e em 1833 aboliu a escravatura em todo o Império. Milhares de escravos fugiram dos EUA e instalaram-se no Canadá.

Uma economia em crescimento

As primeiras empresas no Canadá foram formadas durante os regimes francês e britânico e competiam pelo comércio de peles. A Hudson’s Bay Company tinha empregados franceses, britânicos e aborígenes e dominava o comércio na época. As primeiras instituições financeiras abriram no final do século XVIII e início do século XIX. A Bolsa de Valores de Montreal abriu em 1832. Durante séculos a economia do Canadá baseou-se principalmente na agricultura e na exportação de recursos naturais como peles, peixe e madeira que eram transportados por estradas, lagos, rios e canais.

A Guerra de 1812: A luta pelo Canadá

Após a derrota da frota de Napoleão Bonaparte na Batalha de Trafalgar (1805), a Marinha Real dominou as ondas. O Império Britânico, que incluía o Canadá, lutou para resistir à tentativa de Bonaparte de dominar a Europa. Isto levou ao ressentimento americano perante a interferência britânica na sua navegação. Acreditando que seria fácil conquistar o Canadá, os EUA lançaram uma invasão em junho de 1812, mas o tenente-coronel Charles de Salaberry e 460 soldados, na sua maioria canadianos franceses, fizeram recuar 4.000 invasores americanos em Châteauguay, a sul de Montreal. Em 1813, os americanos incendiaram a Casa do Governo e os Edifícios do Parlamento em York (agora Toronto). Como retaliação, em 1814, o Major-General Robert Ross liderou uma expedição da Nova Scotia que incendiou a Casa Branca e outros edifícios públicos em Washington, D.C. Em 1814, a tentativa americana de conquistar o Canadá tinha falhado. A atual fronteira entre o Canadá e os EUA é, em parte, o resultado da Guerra de 1812, que assegurou que o Canadá permaneceria independente dos EUA.

Rebeliões de 1837-38

Na década de 1830, os reformadores do Alto e do Baixo Canadá acreditavam que o progresso para uma democracia plena era demasiado lento. Alguns acreditavam que o Canadá deveria adotar os valores republicanos americanos ou mesmo tentar aderir aos EUA. Quando ocorreram rebeliões armadas em 1837-38 na área fora de Montreal e em Toronto, os rebeldes não tiveram apoio público suficiente para serem bem-sucedidos e foram derrotados por tropas britânicas e por voluntários canadianos. Lord Durham, um reformador inglês enviado para relatar as rebeliões, recomendou a fusão do Alto e do Baixo Canadá e a atribuição de um governo responsável. Durham disse também que a forma mais rápida para os canadianos alcançarem progresso era através da assimilação da cultura protestante de língua inglesa, o que não agradou aos franceses.

Governo Responsável

Em 1840, o Alto e o Baixo Canadá estavam unidos como a Província do Canadá. Reformadores como Sir Louis-Hippolyte La Fontaine e Robert Baldwin, em paralelo com Joseph Howe na Nova Scotia, trabalharam com governadores britânicos para um governo responsável. A primeira colónia britânica norte-americana a alcançar um governo plenamente responsável foi a Nova Scotia, em 1847-48. Em 1848-49, o governador do Canadá Unido, Lord Elgin, com o encorajamento de Londres, introduziu um governo responsável. Este é o sistema que temos hoje: se o governo perder um voto de confiança na assembleia, deve demitir-se. La Fontaine, um defensor da democracia e dos direitos da língua francesa, tornou-se o primeiro líder de um governo responsável nos Canadás.

Confederação

De 1864 a 1867, representantes da Nova Scotia, New Brunswick e da Província do Canadá, com apoio britânico, trabalharam em conjunto para estabelecer um novo país. Estes homens são conhecidos como os Pais da Confederação e foram eles que criaram os dois níveis de governo: federal e provincial. A antiga Província do Canadá foi dividida em duas novas províncias: Ontário e Quebec, que, juntamente com New Brunswick e Nova Scotia, formaram o novo país chamado Dominion of Canada. Cada província elegeria a sua própria legislatura e teria o controlo de áreas como a educação e a saúde. A lei foi aprovada pelo Parlamento britânico e a 1 de julho de 1867 nasceu oficialmente o Dominion of Canada, hoje oficialmente conhecido como o “Dia do Canadá”.

Desafio no Ocidente

Quando o Canadá assumiu a vasta região noroeste da Hudson’s Bay Company em 1869, os 12.000 Métis do Red River não foram consultados. Os Métis revoltaram-se e Otava enviou soldados. O Canadá estabeleceu então a província de Manitoba. Mais tarde, os direitos dos Métis e dos índios voltaram a ser ameaçados pela colonização ocidental e Saskatchewan fez uma nova rebelião em 1885. Depois da primeira revolta dos Métis, o primeiro-ministro Macdonald estabeleceu a Polícia Montada do Noroeste em 1873 para pacificar o Oeste e ajudar nas negociações com os índios. Hoje, a Real Polícia Montada Canadiana (RCMP ou “Mounties”) é a força policial nacional e um dos símbolos mais conhecidos do Canadá. 

Um caminho-de-ferro de mar a mar

A Colúmbia Britânica juntou-se ao Canadá em 1871 depois de Otava ter prometido construir um caminho de ferro para a costa ocidental. A 7 de novembro de 1885, um poderoso símbolo de unidade foi completado por Donald Smith, o diretor da Canadian Pacific Railway (CPR), que tinha nascido na Escócia. O projeto foi financiado por investidores britânicos e americanos e construído tanto por mão de obra europeia como chinesa. Posteriormente, os chineses foram sujeitos a discriminação, incluindo o Head Tax, uma taxa de entrada baseada na raça. Em 2006 o Governo do Canadá pediu desculpa por esta política discriminatória. 

Movendo-se para o Oeste

A economia do Canadá cresceu e tornou-se mais industrializada durante o boom económico dos anos 1890 e início dos anos 1900. Um milhão de britânicos e um milhão de americanos imigraram para o Canadá nesta altura. Wilfrid Laurier tornou-se o primeiro primeiro-ministro franco-canadiano desde a Confederação e encorajou a imigração para o Ocidente. A sua foto faz parte das notas de $5. O caminho de ferro tornou-se possível graças aos imigrantes, incluindo 170.000 ucranianos, 115.000 polacos e dezenas de milhares da Alemanha, França, Noruega e Suécia a estabelecerem-se no Ocidente antes de 1914 e a desenvolverem um setor agrícola próspero.

Mulheres conquistam direito ao voto

Na altura da Confederação, a votação limitava-se aos homens brancos adultos proprietários de propriedades. Isto era comum na maioria dos países democráticos da época. O esforço das mulheres para alcançar o direito de voto é conhecido como o movimento de mulheres por sufrágio. A sua fundadora no Canadá foi a Dra. Emily Stowe, a primeira mulher canadiana a exercer medicina no Canadá. Em 1916, Manitoba tornou-se a primeira província a conceder o direito de voto às mulheres.

Em 1917, graças à liderança de mulheres como a Dra. Stowe e outras sufragistas, o governo federal de Sir Robert Borden deu às mulheres o direito de voto nas eleições federais – primeiro às enfermeiras na frente de batalha, depois às mulheres que estavam relacionadas com homens em serviço ativo em tempo de guerra. Em 1918, foi concedido o direito de voto nas eleições federais à maioria das cidadãs canadianas com 21 anos ou mais. Em 1921 Agnes Macphail, uma agricultora e professora, tornou-se a primeira mulher deputada. Devido ao trabalho de Thérèse Casgrain e outros, o Quebec concedeu o direito de voto às mulheres em 1940.

Joana Leal/MS

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