Aida Batista

São lágrimas de Portugal

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Créditos: DR

Por muitos que fossem os assuntos que esta semana me aflorassem à mente, um deles era prioritário, não podendo deixar de ser tema desta edição – a perda de Jorge Sampaio.  Numa unanimidade sincera de testemunhos, representava a figura do homem decente, íntegro e de um irrepreensível comportamento ético.

Opaís viveu o passado fim de semana colado à televisão, assim que se soube da sua morte. Todos os canais, incluindo os generalistas (no alinhamento dos telejornais), passavam imagens de arquivo que percorriam toda a sua vida de cidadão interventivo, desde as lutas académicas, em jovem, até à Presidência da República.

Costuma ficar por aqui, no remanso das mordomias que o cargo lhes atribui, a vida de quem exerceu o mais alto cargo da nação, pese embora uma ou outra esporádica intervenção pública. Não foi o caso de Jorge Sampaio, que, atento ao mundo, se recusou a viver nesta bolha de conforto. Em 2006, foi o enviado especial do Secretário-Geral da ONU, para a luta conta a tuberculose, e, em 2007, Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações. No ano académico de 2013/2014, criou a Plataforma Global de assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios e, já hospitalizado, ainda escreveu um artigo a sugerir um programa idêntico para as jovens afegãs, as mais recentes vítimas da situação naquele país.

Em consonância com o protocolo, teve direito a funeral de estado, revestido da maior sobriedade a pedido da família. A cerimónia ficou marcada por três comoventes momentos: a canção “Ai Timor”, pelo Coro da Escola Portuguesa de Dili; os testemunhos intimistas dos fihos Vera e André; o poema “Uma pequenina luz”, de Jorge de Sena, dito por Maria do Céu Guerra, na sua emotiva e inconfundível voz, em que cada palavra se ajustava ao momento e ao homem de quem nos despedíamos.

Eu estava em Toronto, quando Jorge Sampaio fez a sua visita de Estado ao Canadá. Como homem de emoções, era sabido que chorava em público, sem disso se envergonhar. Por isso lhe dediquei uma crónica, a que dei o título “São Lágrimas de Portugal”. Dela, retiro este excerto:

“Para além destas diferenças, outra havia que, com frequência, martelava os meus ouvidos de criança: “um homem nunca chora”. Habituei-me a ouvi-la e a aceitá-la como mais um marco que estabelecia as diferenças entre os sexos. No fundo, sentia-me feliz por me ser dada a possibilidade de chorar e tinha pena dos meninos que o não podiam fazer, mesmo quando se aleijavam nas correrias e tropeções que os grandes espaços de África nos ofereciam. (…) Quantas vezes a saliva, amassada com poeira, limpou os arranhões da cara, dos braços e das pernas. (…) Quando as feridas eram mais profundas, das faces dos meninos rolavam lágrimas de dor, redondas como os círculos do mundo em que brincávamos. Logo, algum dizia: “um homem não chora, pá”!

Foram anos consecutivos a ouvir isto, como se chorar fosse uma vergonha, uma fraqueza (…). Quiseram banir o choro – apodando-o de coisa lamecha -, e atiraram-no para longe dos olhares públicos. Treinaram-nos a controlar emoções e a encurralá-las na garganta, que é o sítio onde mais queima e o sofrimento é maior. (…)

Tantos anos de pedagogia de contenção desfizeram-se em segundos e o mito ruiu porque, afinal, “os homens também choram”, quando numa lágrima se chora o universo de um povo. (…) No High Park, frente ao padrão, chorou o pioneiro e chorou o mais alto representante da nação, o Presidente Jorge Sampaio. Nós assistimos e chorámos também (…) para, como dizia o poeta, serem lágrimas de Portugal.”

Hoje, continuam a ser lágrimas de Portugal aquelas que, em sua homenagem, foram vertidas nos espaços da nossa diáspora que ele tanto soube acarinhar.

Aida Batista/MS

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