Aida Batista

O sopro de novos ventos

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“Ainda bem que o vento nos oferece resistência e o fim é infinito.” – Mário Dionísio, Complicações. Créditos: DR.

Aprendi a localizá-la num planisfério gasto da sala de aula, quando o Império Português ia ainda do Minho a Timor, por províncias ultramarinas repartido. A partir da curva descendente do continente africano, o ponteiro começava a deslizar e, ultrapassado o Bojador, continuava a viagem à bolina do meu punho de criança. Lá estava ela – a Guiné, uma pequena reentrância rendilhada de ilhas, antes de chegarmos à curvatura mais acentuada, onde se forma o Golfo com o mesmo nome.

Nos grupos corais a que pertenci, cantei-a várias vezes na sinédoque de um olhar: “Os teus olhos, negros negros, são gentios são gentios da Guiné”, imaginando os que tinham tido o privilégio de amar dois olhos negros brilhantes, “semelhantes aos luzeiros que o céu tem.”

Nas aulas de Geografia, retiraram-lhe a carga poética e fizeram-me decorar-lhe a área, o número de habitantes, o nome da capital, de acordo com as exigências do programa que impunha um conhecimento papagueado de todas as matérias que faziam soltar países, rios, afluentes, serras, estações e apeadeiros na ponta da língua.

Passaram já muitos anos, e amanhã estarei a viajar para uma outra Guiné – localizada no mesmo lugar do mapa, mas independente e senhora dos seus destinos. Irei dar aulas de português ao abrigo de um programa da Ser Mais Valia, Associação para a Cidadania e Desenvolvimento, com estatuto de utilidade pública, em parceria com o Instituto Camões. Esta será a minha primeira experiência de voluntariado fora do meu país.

Quando me candidatei a voluntária desta Organização Não Governamental, foi-me feita a pergunta se estaria disposta a prestar a minha colaboração no âmbito de programas a realizar nos países que fazem parte da CPLP. De imediato me disponibilizei, dentro da filosofia que sempre me mobilizou, por considerar ser importante partilhar com outros um capital de saberes acumulados ao longo da vida. Por isso, não hesitei quando, por telefone, me foi feita a proposta de ir até à Guiné cumprir uma missão de trinta dias.

Hoje, ao toque de um clique, temos ao nosso dispor toda a informação de que precisamos, seja qual for o tema da busca. Não nego que, por esta via, consultei, organizei e arquivei muitos dos dados de que precisava. A organização, por sua vez, já me facultou todas as diretrizes necessárias a um bom desempenho do trabalho que me foi confiado. Também falei com amigos que viveram a mesma experiência, e que são muito úteis na passagem de um testemunho feito de pequenos pormenores de natureza mais prática, mas igualmente importantes em quotidianos fora da nossa zona de conforto, como agora se diz.

Assim que respondi afirmativamente ao telefonema, senti-me recuar ao ano de 1989, em que igualmente dei o meu sim à proposta de me iniciar como Leitora de Português em Helsínquia. Não havia ainda o recurso à Internet, e embarquei com muitas brochuras e folhetos que recolhera na Embaixada da Finlândia, em Lisboa.

Trinta e três anos separam esses dois momentos, mas, ontem como hoje, carrego esta certeza: uma coisa é ter a informação (física ou digital), outra é vivê-la no terreno, seja ele europeu ou africano. E essa é a parte que me fascina – o desafio da descoberta do outro, da sua cultura, da sua forma de estar na vida, de olhar e entender o mundo, numa troca recíproca de sentimentos e emoções que brochura alguma contém. É preciso  descodificar a alma para além das imagens, dos textos, dos estereótipos firmados, tentando perceber a razão das diferenças, porque é nas diferenças que nos tornamos iguais. Iguais no propósito de, a cada passo, vencer o vento da mudança mesmo quando “o fim é o infinito.”

Aida Batista/MS

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