Aida Batista

O custo de não ser criança

A infância é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano. Jean Piaget

Os habituais leitores deste jornal sabem que a edição semanal sai à sexta-feira. Tenho, por isso, de enviar a minha colaboração semanal às terças. Esta terça-feira (1) coincide com a celebração do Dia da Criança. Seria oportuno que eu fizesse uma reflexão acerca da efeméride, mas não vou debruçar-me sobre a importância da Declaração dos Direitos da Criança, proclamada pela resolução nº 1386 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 20 de novembro de 1959; tão pouco das circunstâncias que estiveram na oficialização do dia, a partir de 1950. Qualquer destas informações està à distância de uma rápida busca no Google – a enciclopédia na ponta dos nossos dedos aberta ao gesto de um clique no teclado.

A minha infância está instalada na memória, de que só eu conheço o código de acesso, bem como os links direcionados para os diferentes tempos que a compõem. Neles não encontro álbuns tipificados, daqueles com registos do tamanho, do peso, da cor da pele, da textura do cabelo, da primeira roupa, das primeiras palavras, das primeiras gracinhas, dos primeiros passos, esquecidos num tempo sem idade. Também não tenho imagens a ilustrar nenhuma dessas fases, porque obedeciam ao ritual de uma ida ao fotógrafo, prática que não caberia no parco orçamento de início de vida de meus pais.

Se a  primeira infância, segundo os psicólogos, vai do nascimento aos 6 anos, e a segunda se carateriza pelo desenvolvimento da responsabilidade, depressa concluo que devo ter dado o salto imediato para a segunda e daí seguido para a idade adulta, porque só me lembro portadora de responsabilidades. Da primeira, a memória mais nítida que guardo é a da perda da minha irmã, que vi sair de casa aos ombros silenciosos de meu pai, adormecida para sempre numa caixa almofadada de cetim debruado a rendas. Na nossa proximidade de idades deve estar a explicação para não ter recordações de alguma vez ter brincado com bonecas. Sendo a mais velha de 12 irmãos, sempre me vi rodeada de bebés verdadeiros, com os quais pratiquei as “brincadeiras” diárias de ser mãe.

Aos 6 anos, a meta que estabelece o final da primeira infância, iniciei a minha escolaridade. Foi-me dada uma bicicleta, não como um brinquedo, mas como o transporte com que, quatro vezes por dia, percorria a distância entre o subúrbio (onde morava) e o colégio das Doroteias (no centro da cidade) onde fora matriculada. O colégio funcionava em regime de internato e de externato, tendo as alunas externas a possibilidade de fazerem a refeição do almoço, caso os pais, a par da mensalidade, mostrassem disponibilidade para a custear. Sendo já um enorme privilégio frequentar um colégio privado de excelência, essa possibilidade estava fora de questão. Por isso, ia sempre almoçar a casa. Não sei quantos quilómetros pedalava por dia, mas cedo tive consciência do quanto os meus pais se esforçavam para atingir a meta da minha esmerada educação.

Em Angola, o dia começava cedo, mas também a noite caía repentinamente, tornando o meu regresso a casa rente à hora de me ocupar com os “trabalhos de casa”, que meu pai acompanhava com o empenho de quem exigia o melhor aproveitamento da sua filha. Feitos estes, cabiam-me as tarefas de ajudar a minha mãe nas lides domésticas. Entre elas, cuidar de irmãos foi sempre uma constante. Não se estranhe, portanto, que eu afirme, com regularidade, que só me conheci mãe – primeiro e sempre dos meus irmãos, depois dos meus filhos – em vez das memórias de ter sido filha.

Se por força das circunstâncias, a infância me foi roubada, permaneceu intacta a criatividade com que aprendi a preencher os vazios da criança que não fui.

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