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Segurança no Trabalho – “Ainda se olha muito só para a ponta do iceberg”

Afeta a vida de famílias inteiras, provoca danos muitas vezes irreversíveis, causa dor, muita dor e sofrimento que perduram no tempo. A Segurança no Trabalho é hoje considerada por muitas empresas como verdadeiramente essencial, tanto na gestão dos recursos humanos, como até na vertente economico-financeira. Há uns anos o mundo desenvolvido, alertado para o número crescente de acidentes de trabalho, muitas vezes mortais, produziu legislação, regulamentos e obrigou à implementação de medidas de prevenção de acidentes. Os efeitos dessa ação são já visíveis em muitos países, com os números a decrescer, mas há ainda muito a fazer. Talvez o mais difícil ainda esteja por alcançar – mudar as mentalidades. Dos empregadores, mas também e até essencialmente, dos trabalhadores. É necessário que todos aprendam que o facilitismo pode matar.

Belmiro Vigário é Engenheiro e Técnico Responsável pela Segurança de uma multinacional. Com muitos anos de experiência e um profundo conhecimento de todas as problemáticas associadas a esta área, aceitou partilhar a sua opinião pessoal, respondendo a algumas questões do Milénio Stadium.

Milénio Stadium: No Canadá este mês de abril é dedicado à Segurança no Trabalho. Em Portugal a legislação e a fiscalização nesta área estão cada vez mais rigorosas. Será que podemos afirmar que estamos mais alertados para a necessidade de garantirmos mais segurança no desempenho das nossas atividades profissionais?
Belmiro Vigário: Sem dúvida! Acho que a comunidade em geral está mais atenta e menos tolerante com falhas graves de segurança. Há imensos casos públicos recentes em Portugal que demonstram que, tanto os órgãos de comunicação social, como a população, estão bem mais exigentes em matéria de segurança. Eu comecei a minha carreira na área da segurança em 1990 quando pouco se falava de Segurança em Portugal. Os instrumentos legais desenhados na União Europeia e implementados no nosso país catalisaram essa evolução porque providenciaram a base legal que forçou a sociedade a crescer em matéria de segurança. A diferença para os dias de hoje está bem visível. As autoridades nacionais, comunitárias e os profissionais de segurança estão de parabéns!

M.S.: Este conceito de “Segurança no Trabalho” é muito vasto. Como poderemos defini-lo de uma forma sucinta e objetiva?
B.V.: Mais do que um conjunto prescrito de leis que obrigam a que determinadas condições sejam garantidas para um posto ou local de trabalho, a Segurança é na sua essência o ato de estar atento, fazendo uma leitura contínua sobre os perigos, o risco que apresentam e agir em antecipação de forma a prevenir que um determinado perigo acabe por exercer um efeito. Portanto, um ciclo contínuo de medição (através da observação ou com o auxílio de tecnologias) e ação a tempo (como diz o ditado “mais vale previr do que remediar”). A tolerância ao risco é o ponto fundamental em Segurança. As pessoas avessas ao risco tendem a agir mais cedo e a terem um comportamento mais preventivo. As pessoas que não valorizam o risco tendem a ser surpreendidas e a remediar o problema quando já estão em perigo, muitas vezes tarde demais para prevenir um impacto.

M.S.: Como profissional e responsável pela segurança numa multinacional, qual é a sua constante preocupação?
B.V.: Em primeiro lugar que a Direção da empresa e os seus líderes mostrem que a Segurança está realmente em primeiro lugar e acima de todas as decisões, demonstrando isso mesmo nos seus atos pessoais – dando o exemplo. Em segundo, no ambiente profissional opera-se sob um sistema de gestão. Ter um sistema bem desenhado por um profissional qualificado em segurança e talhado às necessidades específicas da empresa, é fundamental. Finalmente, por ser o elemento que efetivamente faz a “segurança”, as pessoas. Pessoas com uma boa base e cultura de segurança, capazes dessa tal leitura contínua sobre o risco e de agir para efetivar a prevenção.

M.S.: A evolução tecnológica tem permitido associar ao conhecimento que já existia, mais recursos para evitar os acidentes. Mas poderá também, de certo modo, contribuir para um certo relaxamento do trabalhador? Ao confiar, em demasia, nos sistemas de alerta e informação instalados?
B.V.: Não se pode negar essa possibilidade porque ela é obvia, mas mesmo assim o valor da tecnologia é indiscutível. Os carros atualmente podem vir equipados com sistemas de antecipação de colisão, aviso e travagem de emergência. Pode dizer-se que este equipamento (que visa a segurança) irá tornar o condutor mais relaxado? Depende da pessoa, mas uma coisa é certa, quer por distração quer por motivo alheio ao condutor, quando existe a possibilidade de colisão esta tecnologia complementa o condutor ao alertá-lo que a colisão está iminente e, se este não atua, a tecnologia toma conta e aciona o sistema de travagem. Num ambiente empresarial, o tal sistema de gestão bem desenhado e bem utilizado prevê executa ações para minimizar esse risco de relaxamento.

M.S.: Que mais se deveria fazer, na sua opinião, no sentido da educação e ação preventiva de acidentes de trabalho?
B.V.: Acho que ainda se olha muito só para a ponta do “iceberg”. Por exemplo, nas notícias de sinistralidade rodoviária, as autoridades informam sobre indicadores tais como mortes, feridos graves e feridos ligeiros. Mas quantos acidentes poderiam ter dado origem a feridos ou mortos e não deram por mera casualidade? O problema da sinistralidade na rodovia ou nos locais de trabalho é bem maior que os indicadores que são conhecidos. É preciso trabalhar a base porque trabalhar só “de cima para baixo” não chega!

Madalena Balça

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