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“Quanto mais conheço as pessoas, mais confio nos animais”

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Créditos: DR

A questão levantada pelo Papa Francisco sobre o relacionamento entre humanos e animais de estimação, pode ser olhada e analisada de várias perspetivas, mas a vertente psicológica não poderia ficar esquecida nesta edição. Um animal de estimação é isso mesmo – um ser que se estima, que se acarinha, mas é também para o seu cuidador uma verdadeira fonte de amor, e ternura. Há pois, neste relacionamento, uma permanente troca, um dar e receber constante. É muito frequente ouvirmos que o amor de um animal ao seu “dono” é incondicional e para sempre. Já entre seres humanos as desilusões, as traições e os conflitos, que se acumulam ao longo de uma vida, trazem a  sensação de que o “para sempre” terá sempre que ser acompanhado de um “talvez”. E talvez por isso mesmo, sejam cada vez em maior número os que encaram os seus animais como elementos da sua família, personificando-os.

Esta questão da importância dos animais de estimação na vida dos humanos, que ganhou relevância com as declarações polémicas de Sua Santidade, não é nova e tem já ocupado muito espaço de discussão e análise pública. Inclusivamente, são já muitos os países que passaram a reconhecer legalmente os animais como seres vivos e não como objetos. Recentemente, em Espanha foi mesmo dado um passo ainda mais à frente com uma mudança legal que passa a obrigar a que se garanta o bem-estar de um animal de estimação quando os casais se divorciarem ou se separarem. Esta nova determinação legal vem, por exemplo, garantir a possibilidade de os casais obterem custódia partilhada dos seus animais, que passam assim a ser, realmente, como elementos da família e não como objetos ou bens materiais que pertencem a A ou B.

Tiago Souza, psicoterapeuta registado no College of Registered Psychotherapists of Ontario , aceitou ajudar-nos a perceber o que pode representar um animal de estimação na vida de alguém e o que pode justificar uma certa transformação do conceito de família nos dias de hoje.

Milénio Stadium: Quando um casal por opção não quer ter filhos, um animal de estimação pode substituir um filho?

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Tiago Souza, Psicoterapeuta. Créditos: DR.

Tiago Souza: Animais de estimação tem um papel cada vez mais presente entre as famílias. No entanto, a vivência de parentesco não é comparável a experiência ter se ter um animal de estimação. Não há a substituição propriamente dita, mas o que há é uma forma alternativa de se expressar afeto, carinho e companheirismo, o que pode ser confundido como a relação com um filho, por exemplo. Mas sem dúvida são diferentes.

MS: O que poderá justificar a integração de um animal no seio familiar, de tal modo que passa a ser tratado como se fosse mais um ser humano?

TS: Existem várias razões. Mas podemos apontar a carência afetiva e a desconfiança com outros humanos como fatores importantes nesse processo. Nós somos seres emocionais, e muitas vezes direcionamos nossos afetos para animais, assim como outros objetos. Mas cada vez mais a sociedade limita nossas interações, fazendo com que procuremos outra forma de usarmos nossa necessidade emocional. É uma projeção de nossas necessidades.

MS: Acha que por vezes pode acontecer que as pessoas que tenham sofrido desilusões e tenham uma vida com relações menos bem sucedidas procurem num animal a fidelidade e o amor sem cobrança?

TS: Sem dúvida. Frustrações amorosas, traumas e dores advindas de relações mal-sucedidas definitivamente contribuem para que muitas pessoas se dediquem a animais de estimação. Muitas usam o velho jargão “quanto mais conheço as pessoas, mais confio nos animais”. Isso reflete dores, mas também mostra que não desistimos de amar e nos relacionar, apenas buscando formas mais seguras de fazê-lo.

MS: Que vantagens tem um animal de estimação para o bem-estar psicológico de uma família, concretamente, nas famílias que têm crianças?

TS: Todos nós podemos usar os animais de estimação como instrumentos de promoção de cuidados, no aprendizado de dedicar-mo-nos a outros seres vivos, e mesmo na cura de feridas emocionais. A domesticação de animais vem da antiguidade, e a presença de outros seres viventes entre nós é a lembrança de que somos parte de algo maior que nós mesmos. A relação com animais pode ser altamente benéfica para o exercício do amar. Muitos cães são usados em terapia, para despertar emoções em pessoas traumatizadas, e no cultivo de afetos mais saudáveis.

MS: Este tipo de relação mais próxima e familiar entre seres humanos e animais de estimação pode ser associada a sociedades mais ocidentais ou até de países desenvolvidos?

TS: Eu vejo isso como maneiras diferentes das sociedades e culturas lidarem com os animais. Em algumas culturas na Índia, alguns animais são considerados a representação de divindades, enquanto nas sociedades ocidentais há uma evolução da relação funcional – animais auxiliaram as primeiras civilizações no cultivo de alimentos e transporte. Hoje em dia, apenas adornamos essas relações com nossas características culturais, mas o afeto e necessidade de nos relacionarmos é uma questão humana universal. É uma relação que está aqui para ficar, e evoluir.

Catarina Balça/MS

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