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“O aumento do custo de vida afeta diretamente a utilização dos bancos alimentares”

Talia Bronstein

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Créditos: DR

Pode ser duro, mas não há como contornar a realidade – no Canadá há quem passe fome. E se muitos preferem olhar para esta evidência e encontrar explicações que funcionam também como o apontar de dedo para os que passam por sérias dificuldades, atribuindo-lhes a responsabilidade para a situação em que se encontram – “é gente que não quer trabalhar”; “querem emprego, não querem trabalho”; “querem é viver à custa dos outros” e tantas outras expressões do género – a verdade é que as razões para alguém “cair” nesta situação, são várias e muito mais profundas do que se pode imaginar. Para muitos poderá ser reflexo de algum problema mental que os impede de agarrar a vida e trabalhar, para outros, no entanto, nunca lhes faltou a força nem a vontade de arregaçar as mangas, mas a vida trocou-lhes as voltas e enredou-os numa teia de dívidas e compromissos que se tornaram incomportáveis.

A par de mudanças importantes na situação laboral de muitas famílias que, graças à pandemia, ou perderam o trabalho ou sofreram reduções significativas no rendimento mensal, acresce que os preços dos bens essenciais aumentaram de forma significativa. O dia-a-dia começou a ficar insuportável, mesmo para quem até há pouco tinha um nível de vida tranquilo. A comida começou a faltar em cima da mesa e a necessidade teve que suplantar a vergonha de pedir. É neste contexto que, em grande medida, se justifica o aumento exponencial de beneficiários do trabalho humanitário desenvolvido pelos Food Bank.

Talia Bronstein, vice-presidente, responsável pelo departamento de Investigação e Advocacia do Daily Bread Food Bank, dá-nos uma ideia muito clara do que se está a passar bem perto de nós, muitas vezes de forma escondida ou envergonhada. Nos últimos seis meses os Daily Bread Foods estão a dar a mão a mais 67% de indivíduos do que os que ajudavam antes da pandemia. Não são apenas números, são pessoas. Como nós. Seria bom não esquecermos que quem aponta um dedo, fica com quatro a apontar para o próprio, ou seja, ninguém está completamente livre de um dia poder vir a precisar do mesmo tipo de ajuda. Com esta consciência talvez seja mais fácil percebermos a necessidade de ajudarmos os Food Bank a ajudar.

Milénio Stadium: É do conhecimento público que os Food Bank, neste tempo de pandemia, têm tido algumas dificuldades em dar resposta a todas as solicitações. Nesta altura em que a economia está a dar alguns sinais de retoma, os números de pessoas que procuram o Food Bank têm-se mantido ou diminuíram?

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Talia Bronstein, vice-presidente, responsável pelo departamento de Investigação e Advocacia do Daily Bread Food Bank. Crédito: DR.

Talia Bronstein: Os bancos alimentares têm visto um aumento significativo de visitas desde o início da pandemia. Embora as coisas estejam a abrir e a economia esteja a recuperar, nos últimos seis meses os bancos de alimentos Daily Bread Foods registaram um aumento de 67% nas visitas desde antes da pandemia. Estamos agora a servir mais de 110.000 indivíduos por mês. Para as famílias de baixos rendimentos, que foram mais duramente atingidas pelos efeitos da pandemia, o caminho para a recuperação será o mais longo.

MS: Houve alguma alteração no perfil dos beneficiários habituais dos serviços do Food Bank?

TB: Estamos a ver muitos clientes novos que nunca tiveram de utilizar um banco alimentar antes, muitos dos quais perderam o seu emprego ou viram as suas horas reduzidas. Três em cada quatro novos clientes relataram vir para um banco alimentar devido aos impactos da COVID-19. Continuamos também a ver muitos clientes que já dependiam de bancos de alimentos antes da pandemia – particularmente pessoas que vivem com rendimentos fixos como idosos e pessoas que recebem assistência social, porque o custo de vida aumentou.

MS: Esse aumento significativo do custo de vida, nomeadamente o custo dos produtos alimentares, afeta inúmeras famílias. Podemos então afirmar que esta situação se reflete no número de pessoas que procura o Food Bank?

TB: O aumento do custo de vida afeta diretamente a utilização dos bancos alimentares. Embora tenha havido mais programas de apoio ao rendimento durante a pandemia, como o Canada Emergency Response Benefit (CERB), numa cidade como Toronto, onde o custo da habitação é tão elevado, muitas pessoas continuam a passar dificuldades. Um relatório recente do Agri-Food Analytics Lab estima que a família média irá gastar até 700 dólares mais este ano em mercearias, o que será um verdadeiro sacrifício para as famílias de baixos rendimentos.

MS: Apesar da situação difícil que a pandemia provocou, os canadianos continuam a ajudar e a ser solidários com o Food Bank?

TB: Para ajudar a eliminar a pobreza e a insegurança alimentar na nossa comunidade, as pessoas podem agir de algumas formas diferentes. Podem doar alimentos ou fundos no dailybread.ca para ajudar a fornecer ajuda alimentar imediata às famílias que passam fome. Podem também doar o seu tempo para ajudar a distribuir alimentos. E talvez mais importante, podem ajudar-nos a defender a mudança, contactando os seus representantes eleitos e dizendo-lhes que pretendem ver uma ação governamental mais forte para eliminar a pobreza e a insegurança alimentar no Canadá.

Catarina Balça/MS

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