Temas de Capa

Fronteiras de amor

Ao longo dos anos tenho ouvido muitas histórias de vida. Histórias de outros tempos. Tempos difíceis, onde tudo parecia ser mais cinzento e o futuro se construía a pulso, pelo menos para uma maioria esmagadora da população portuguesa. As famílias, muitas vezes numerosas (“porque Deus assim quis”), contavam com todos para arranjar sustento – fosse em casa, com as meninas, desde cedo chamadas à condição de donas de casa, cozinhando e tratando da lida, incluindo cuidar dos irmãos mais novos, fosse saindo de casa cedo para trabalhar para outros (meninos e meninas).

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Créditos: DR.

E as histórias que povoam as minhas memórias trazem-me os arrepios que sempre senti quando ouvia “com 10 anos fui sozinho trabalhar para Lisboa”. A imagem de uma criança, ainda tão frágil e desprotegida, sair da aldeia e sozinha enfrentar a vida numa cidade (gigante à sua escala…) sempre me impressionou e me deixou enormes interrogações – como era possível? Como é que uma mãe e um pai conseguiam entregar assim um filho, à sua sorte? O que sentiria uma criança que via a mãe entregar-lhe um saco com os seus poucos pertences e dizer “vai meu filho. Vai procurar uma vida melhor”? Mais tarde, já mãe, dei por mim a pensar que o gesto de “empurrar” um filho ou uma filha para fora de casa, mais não era do que uma imensa manifestação de amor. Aquela mãe sabia que assim ainda poderia haver esperança no futuro, sendo que para muitos a situação seria até mais extrema – só assim haveria futuro. Por isso, o “vai meu filho…” era sinónimo de “amo-te profundamente”. Claro que alguns podem ler estas minhas palavras e pensar “ah sim… amor… as mães sabiam lá o que isso era…”. Poderei estar a ser ingénua ou até estar a, de forma inconsciente, “dourar a pílula”, mas continuo certa de que o amor maternal profundo era o motor de decisões tão radicais como estas.

Histórias que se vão perdendo no tempo, de um tempo que não queremos que volte. Evoluímos. Crescemos como sociedade e hoje isso já não acontece. Não? Sim!

Os contornos são diferentes, mas as motivações, na essência, são as mesmas. O mundo assiste incrédulo e de forma demasiado passiva ao progressivo aumento de número de crianças que sozinhas, sem pai ou mãe por perto, passam a fronteira que os separa da possibilidade de terem futuro. Sozinhas. Apenas acompanhadas pelo medo, pela insegurança, pela sensação de perda.

Não, já não estou a falar-vos de histórias de outros tempos. Estou a falar do que está a acontecer agora, início da segunda década do século XXI. Há mães e pais que “empurram” os filhos para um país diferente, onde se fala uma língua que não entendem, tentando dar-lhes futuro. Seja porque fogem de guerras que parecem não ter fim, seja porque se cansam de lutar pela sobrevivência nos seus países de origem onde a pobreza e a fome matam sem dó, nem piedade, a fuga parece ser a única saída. A verdade é que quando já não se suporta o hoje, não se teme o amanhã.

Os números impressionam – cerca de um terço dos migrantes que chegam à Europa, depois de se aventurarem numa viagem de altíssimo risco, Mediterrâneo adentro, são crianças. Crianças que já viram e sentiram muito. Muito mais do que deviam. Sofreram ou sofrem de abusos de vária ordem, muitos, pelo meio da viagem ou ainda antes da partida, ficaram órfãos, absolutamente sós nesta vida. Dos 72.500 refugiados que vivem nos campos da Grécia, Chipre ou nos Balcãs, 22.500 são crianças. Com cada vez mais notórios sinais de traumas psicológicos profundos, resultantes do imenso sofrimento que os seus pequenos corpos e mentes já carregam.

Na fronteira que separa o México dos Estados Unidos da América, só nos primeiros 20 dias do mês de março, foram 11.000 as crianças não acompanhadas que acabaram detidas pelos serviços fronteiriços.

Eu disse que os números impressionam? Desculpem. Não é verdade. Os números acabam por bater na nossa carapaça de insensibilidade. Já nem ligamos. São números. Apenas isso.

Mas… experimentem olhar para a foto que acompanha este texto. Olhem com olhos de ver. Conseguem ver no olhar de cada criança o profundo amor das suas mães?

Madalena Balça/MS

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