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“A competição está a ficar fora de controlo” – Kevin Nunes

Renovações

Enquanto muitas outras indústrias vacilaram, ou tiveram mesmo que encerrar atividade, devido às restrições impostas pela pandemia, o setor de construção e renovações continuou a contribuir para o desenvolvimento da economia canadiana. Um relatório da Canadian Home Builders ’Association (CHBA) destacou mesmo a resiliência da construção residencial em 2020, que retomou a atividade em maio daquele ano, uma vez que o setor foi declarado um serviço essencial. Assim, apesar das inúmeras interrupções na cadeia de fornecimento de materiais e das restrições à mobilidade e montagem, as construtoras canadianas continuaram a construir novas casas, respondendo, inclusivamente, a uma maior procura que subiu, repentinamente, durante a pandemia. Deste modo se pode justificar que o setor de construção residencial, em 2020, tenha assegurado 1,24 milhão de empregos, proporcionando 102 mil milhões de dólares em salários.

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Créditos: DR

O relatório da CHBA também descreve como a escassez de mão de obra e material contribuiu para atrasos na construção e aumentou o preço das casas recém-construídas e revelou que 21 por cento das construtoras enfrentaram desafios no recrutamento de pessoal, e as empresas de construção e renovações foram duramente atingidas por interrupções na cadeia de fornecimento de materiais.

Kevin Nunes, responsável da empresa Tri-Lia Group, é empresário da área da construção, dedicando-se muito ao setor residencial e renovações e aceitou partilhar com o Milénio Stadium como está o seu setor de trabalho e como tem sido viver este tempo de pandemia. 

Milénio Stadium: A pandemia chegou há um ano e meio. Em que medida a sua empresa sentiu o impacto da Covid-19?

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Kevin Nunes. Crédito: DR

Kevin Nunes: No início da pandemia foi um bocado complicado, porque toda a gente estava assustada e receosa por ter pessoas a entrar nas suas casas e fazer algum tipo de trabalho. Por isso, nos primeiros seis meses foi pouco produtivo, depois começou a retomar devagarinho e agora parece que está ok, mas definitivamente fomos afetados por esta pandemia, principalmente nos tais primeiros seis meses.

MS: Os condicionalismos próprios desta pandemia obrigaram a uma alteração profunda nos procedimentos do trabalho dos vossos trabalhadores?

KN: Sim, porque tivemos que manter a distância, usar máscaras, desinfetante das mãos, todos os protocolos a seguir por causa da pandemia, tivemos que seguir. A nível de trabalho, está um bocado melhor, mas há alguns clientes que estão um bocado hesitantes em fazer o trabalho que eles querem… E por causa dos protocolos ainda é um bocado complicado porque há custos extra que não estávamos a contar (máscaras, luvas, desinfetantes, etc.) … Manter a distância também torna tudo mais complexo porque às vezes demora um bocado mais para comunicarmos.

MS: O setor da construção foi sendo considerado essencial e por isso praticamente não parou. E o volume de trabalho até parece ter aumentado, nomeadamente no setor das renovações. Mas houve, em determinada altura, falta de materiais de construção – sentiram isso? Ainda sentem?

KN: Nós nunca sentimos de facto alguma falta de material, eu tentei de algum modo ter tudo controlado, planeei as coisas a contar com um eventual atraso de material, por isso não senti muito a falta de nada. Por outro lado, sinto um aumento nos preços dos materiais, isso sim.

MS: O que justifica esse aumento?

KN: Tem que ver, definitivamente, com as restrições causadas pela pandemia, porque muitas das fábricas tinham o staff reduzido para conseguirem cumprir as distâncias de segurança pedidas e por isso, com menos pessoas a trabalhar, não conseguiam corresponder à demanda. Quando a pandemia começou, muita gente ficou em casa e decidiu começar a optar pelo “Do It Yourself”, a procura então aumentou e o material não podia vir mais rápido das fábricas.

MS: Há também quem afirme que o mercado de construção e renovação dos small constructors está a ser prejudicado pelo aumento de construções ilegais, nomeadamente na área das renovações. O que me pode dizer sobre isso?

KN: A competição está a ficar um bocadinho fora do controlo, e eu acho que tem que ver com o trabalho ilegal, porque essas pessoas conseguem fazer as coisas por um preço mais acessível comparado com alguém que tem um negócio, que tem que pagar os seus impostos e seguros de trabalho, etc. Eu realmente notei a esse nível, porque há gente que diz “ah eu consigo alguém que me faz isso mais barato”. No entanto, essas pessoas podem fazer mais barato, mas não têm tudo em ordem, não pagam ao Estado, nem garantem a segurança aos seus trabalhadores.

MS: Nesta fase há muitos construtores a queixarem-se com falta de pessoal para trabalhar. Na sua opinião o que pode justificar isso?

KN: São um conjunto de fatores. Acho que há algumas pessoas que talvez estejam assustadas e com medo de voltar, porque têm familiares em risco nas suas casas e podem eventualmente infetar essas pessoas, ou até eles próprios podem estar numa situação de risco… Além disso, há o apoio do Governo (CERB), que no fundo não está a ajudar o mundo do trabalho porque as pessoas ficam em casa com o seu cheque – pode não ser tanto quanto eles fariam por norma, mas algumas pessoas estão satisfeitas com o valor que o Governo oferece.

MS: Na sua opinião, será que o Canadá, e Ontário em particular, estão devidamente preparados para o envelhecimento natural dos trabalhadores qualificados da construção civil, investindo na formação e requalificação dos trabalhadores mais jovens?

KN: Eu acho que eles não se prepararam. Acho que eles não perceberam quão sensível este tópico é. Todos os que estão nesta área de trabalho estão de facto a ficar mais velhos e grande parte dos mais jovens não querem fazer da construção ou da renovação a sua vida. Não vejo o Governo de Ontário ou o Canadá a fazer algo nesse sentido… Podiam tentar e dar algum tipo de incentivo, porque agora todos querem trabalhar através de um computador. Não vejo as coisas a mudar, nem o Governo a tentar mudar esse rumo e a fazer com que tenhamos mais pessoas a trabalhar neste ramo.

MS: Estamos em pleno processo eleitoral – do que se conhece das propostas dos diversos partidos o que é que os canadianos podem esperar do futuro, no mundo do trabalho?

KN: Acho que depende do partido que tomar posse. Não acho que estão preparados para um aumento na força de trabalho para já, porque se tudo continuar nesta situação, com a pandemia, ninguém vai ter vontade de voltar para o trabalho… A maioria das pessoas, pelo menos, não está muito ansioso por voltar. Alguns terá que ver com medo, outros não estão talvez felizes com o seu emprego, ou seja lá qual for o caso… Mas acho que depende do partido que vai assumir o poder.

MS: Quais são os grandes desafios que se colocam no futuro próximo ao setor da construção?

KN: Um dos maiores e que já aqui falámos é a força de trabalho – ter pessoas que queiram trabalhar nesta área. Além disso, ter que competir com trabalhadores ilegais que surgem a oferecer preços mais baixos… Porque as empresas que de facto são legitimas, que pagam os seus impostos, os seus seguros, têm que de alguma forma lidar com a diferença de preços quando existe alguém que está a oferecer o mesmo serviço por um preço inferior, entre 15 e 20 por cento. Aí estamos nós a perder no nosso lucro.

Catarina Balça/MS

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