Luís Barreira

Em vésperas de “uma tempestade quase perfeita”!

milenio stadium - tempestade

 

 

Neste último fim de semana senti-me perdido enquanto tentava chegar a alguma conclusão temporal dos problemas que nos afligem. E, no final, pouco ou nada consegui concluir!

Ao passar os olhos pelas emissões televisivas, a propósito das comemorações do Jubileu da rainha Isabel II, interroguei-me sobre a consciência dos britânicos que, aos milhares, se acumulavam efusivamente para saudar os seus símbolos nacionais, sem considerar que as epidemias sanitárias que nos têm afetado continuam ativas e que, tais manifestações coletivas sem nenhuma proteção, não vão ajudar a debelá-las.

Ao mesmo tempo que me impressionou a indiferença coletiva daquele povo, perante a possibilidade de ficarem sem primeiro-ministro (Boris Johnson) no dia seguinte, a braços com um voto de confiança (censura…) no Parlamento inglês, por ter realizado festas ilegais com os seus amigos próximos no seu gabinete (bastante regadas a álcool…), num momento em que tinha determinado o confinamento da sua população, em consequência da Covid. Afinal… por que razão criticar a população britânica de não se preservar da Covid durante o Jubileu, se o exemplo veio de “cima”!?…

Mas será que no meio de tantas preocupações com a saúde coletiva, a guerra, a política e a inflação a afetar o custo de vida, sem que a origem destes problemas tenha um fim à vista, os povos não terão direito a momentos de alegria e satisfação?

Por razões semelhantes, todos manifestámos um enorme regozijo ao ver a seleção portuguesa de futebol ganhar o encontro com a equipa suíça, para o campeonato das nações. Gritaram de contentamento todos aqueles que viram o encontro pela televisão e os muitos milhares que, sem máscaras protetoras ou outros cuidados especiais, assistiram em direto no estádio, sem nenhuma preocupação contra os vírus “dos morcegos e dos macacos”, enquanto as nossas autoridades sanitárias estão “muito preocupadas com a proteção dos mais vulneráveis”, mas não tomam quaisquer medidas de prevenção obrigatória para os cidadãos em situações de risco ou, pelo menos, publicitar de forma adequada o crescente número de infeções Covid (numa média de sete dias em maio, foram mais de 26.000 casos diários) ou do alastrar do vírus Monkeypox, cujo número de infetados subiu para 153 casos. No entanto, não deixámos de celebrar a vitória futebolística portuguesa, sem pensar no preço dos combustíveis (que aumentava brutalmente no dia seguinte) e dos reflexos que tudo isso tem no agravamento dos preços do que consumimos e no imediato aumento dos empréstimos bancários, em consequência da subida das taxas Euribor.

Mas, apesar de tudo, porque se deveriam preocupar com tudo o resto, se o primeiro-ministro português afirmou que os salários deveriam aumentar 20% até 2026, para que o seu peso no PIB nacional atinja a média europeia de 48%? Como vem aí mais dinheiro (resta saber se o “patrão” Estado aumenta igualmente os seus assalariados…), o melhor é ir beber uns copos e festejar os santos populares. Os povos têm direito a momentos de alegria e satisfação!…

Mas, infelizmente, nem todos!

A guerra na Ucrânia, uma das principais origens dos nossos atuais problemas, continua a martirizar as populações e militares ucranianos, destruindo as suas infraestruturas e aglomerados populacionais, deixando os seus habitantes entregues a um destino que ninguém pode predestinar, tal é a incerteza dos objetivos finais do invasor russo, além do rasto de terra queimada que deixa atrás de si, com bombardeamentos consecutivos por terra, mar e ar e ninguém de boa-fé pode deixar de ficar sensibilizado e revoltado com tudo o que se passa neste país vizinho europeu. Após 100 dias, desde a última invasão e sem perspetivas de um acordo entre o invasor e o invadido, a guerra de apropriação territorial da Ucrânia, pelo poder instalado no Kremlin, está para durar e as suas consequências negativas para todos nós, igualmente. A solidariedade não é apenas um ato sentimental, também se paga!

E, como se não bastasse o que se passa no nosso velho continente, pelas movimentações militares internacionais na área do Pacífico com: a Coreia do Norte a lançar oito mísseis balísticos e os EUA e a Coreia do Sul a lançar outros oito (como se estivéssemos num jogo de picardia infantil); a Rússia em manobras locais com a sua frota naval a marcar posição e a China a sobrevoar Taiwan e as águas internacionais perto da Austrália com os seus aviões de caça, a situação nesta área (que nunca foi boa, face às aspirações das potências militares regionais e internacionais), começa a entrar num “sobreaquecimento” perigoso que, a juntar-se ao que se passa na Europa e nos eternos conflitos do Médio Oriente e da Ásia, faz-nos recordar com alguma saudade (…) os “bons” velhos tempos da paz “podre” da “Guerra Fria”, em que eram possíveis alguns tratados anti beligerantes, o controlo das zonas de influência e a capacidade de termos alguma visão sobre o futuro. Os tempos são outros. Os povos evoluíram na sua capacidade reivindicativa, mas infelizmente alguns ditadores também!

Por muito esforço que façamos para nos iludirmos com a gravidade da atual situação no mundo, através dos nossos momentos de alegria e satisfação, a realidade e a incerteza pesa mais sobre tudo o resto.
A este propósito sublinho as palavras do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a guerra e as pandemias, como sendo uma “tempestade quase perfeita”!

Luis Barreira/MS

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