Luís Barreira

A liberdade e a democracia: Do 25 de Abril a Macron!

 

macron - luis barreira - milenio stadium - 2022-04-29

 

Dois importantes acontecimentos marcaram a semana que passou: a comemoração do 48° aniversário do 25 de Abril de 1974 em Portugal e a reeleição de Macron à presidência da França.

Quanto ao primeiro, muito já se disse em comemorações anteriores e pouco se transmitiu às gerações posteriores a 1974, que as levassem a compreender as condições em que antes viviam seus pais e avós. E já não falo da imensa pobreza geral, da iliteracia dominante no país, das dificuldades com a saúde, da imposição das guerras coloniais, da censura e de tantas outras consequências de um regime ditatorial. Falo-vos da liberdade!
Não da anedótica liberdade com que muitos jovens de hoje festejam o fim das máscaras protetoras contra a Covid, mas da liberdade a sério. Aquela que nos permite hoje conversar, falar e manifestar o nosso desagrado para com governos, políticos ou quaisquer outras entidades com as quais não concordamos e defender as nossas ideias e propósitos, entre amigos e desconhecidos, em total liberdade onde quer que seja: nos cafés ou na rua!

Essa liberdade que nos permite votar em quem queremos que nos represente, corrigir o nosso voto quando defraudam a nossa expectativa ou manifestar o nosso desagrado se não nos sentimos corretamente representados. Falo-vos da democracia! Não porque ela seja um todo acabado, isenta de imperfeições, de injustiças e de críticas, mas porque é um sistema, embora com algumas deficiências, o mais perfeito entre todos os que a humanidade tem conhecido, permitindo a sua evolução sob pressão das dinâmicas sociais, apenas possíveis pela liberdade de que gozam os cidadãos.

E a democracia não é apenas um conjunto de instituições sólidas, geridas por um equilíbrio de poderes entre elas, mas e sobretudo, um reservatório de valores morais e éticos que regulam o comportamento dos cidadãos que dela usufruem, impondo-lhes direitos e deveres que tendem a humanizar o seu relacionamento social.
Eu, que já era adulto quando se deu o 25 de Abril de 1974 e que cresci numa sociedade cinzenta, obstruída por uma ditadura vigiada pelos esbirros do poder, que limitava qualquer atitude criativa, pessoal ou coletiva, que extravasasse a doutrina do regime, não posso deixar de sentir profundamente o meu reconhecimento pela liberdade e a democracia que nos foi permitida pelos militares que fizeram Abril. Não posso igualmente esquecer as batalhas que enfrentei para contrariar aqueles que, durante o processo revolucionário que se seguiu e que, aproveitando-se da ignorância política de um povo acabado de sair de 48 anos de ditadura e ansiando por uma justiça social que lhe propiciasse melhores condições de vida, ostentavam hipocritamente as bandeiras da liberdade e da democracia, para conduzir este país a uma ditadura de outro tipo, mais perigosa do que a anterior. Também não esqueço das tentativas fracassadas para repor o antigo regime, levadas a cabo por alguns nostálgicos saudosistas do antigo regime, cuja incapacidade para compreender o sentido da história das nações, acabou por remetê-los à repulsa e ao esquecimento do povo.

Para bem dos portugueses, tudo isso se esfumou na poeira dos tempos e Portugal é hoje um país que se orgulha do sistema político democrático que adotou e que, independentemente das vozes que o contestem e que só acabam por valorizar o facto de vivermos em democracia porque, no essencial, nenhuma contestação seria possível se vivêssemos em ditadura!

O outro acontecimento que me apraz registar foi a reeleição de Emmanuel Macron para a presidência francesa, por 58% dos votos, contra a adversária da segunda volta deste escrutínio, Marine Le Pen, que obteve 42%, ato eleitoral ao qual falharam cerca de 29% dos franceses.

Não vou tecer grandes considerações sobre o comportamento eleitoral dos franceses, embora o resultado obtido pelo partido de extrema-direita populista da senhora Le Pen (o seu melhor resultado de sempre…) me tenha deixado alguma inquietude quanto ao futuro deste grande país. Se bem que a linguagem política desta senhora se tenha pautado desta vez por uma certa moderação, isso não consegue esconder o facto de o programa do seu partido não ter sofrido alterações. A aversão aos emigrantes, a modificação do sistema político francês, a recusa dos tratados internacionais e o antieuropeísmo, entre outras considerações nacionalistas, continuam a fazer parte da cartilha ideológica do partido de Le Pen e um perigo para os franceses e para todos os europeus. A Europa e o mundo ocidental tremeram com a possibilidade de Macron perder esta eleição e Putin, que se congratula com todas as fraquezas europeias e que por isso não regateia ajudas aos partidos anti poder europeus, entre os quais o de Le Pen, deve ter ficado desiludido com o resultado eleitoral desta sua pupila.
A França, este grande país que forjou a identidade cultural de muitos países desta velha Europa, que possui um povo considerado politicamente esclarecido e um arsenal militar atómico, mas que tem um painel partidário desertificado de valores pessoais e partidários, incapazes de manter um eleitorado ávido da sua representação, pregou-nos um susto que só foi evitado porque Macron beneficiou dos votos daqueles que, não sendo seus eleitores, não queriam a extrema-direita a dirigir os destinos da França.

E as democracias do mundo ocidental, no contexto da guerra entre o invasor russo e a invadida Ucrânia e da estabilidade essencial à União Europeia, perante as ameaças à paz na Europa, congratulam-se com o resultado destas eleições, esperando que o Presidente da França tome as atitudes necessárias e consistentes para com o seu povo, para além das palavras de compreensão que assumiu após a sua eleição.

No entanto, a paz, que não ficou melhor com estas eleições francesas, mas que não ficou pior, apenas pode ter um desfecho para os nossos povos. O que está em causa nesta guerra que preocupa todos os europeus e não só, não é apenas uma ilegal disputa territorial por parte da Rússia contra a Ucrânia, é a nossa luta para preservarmos um bem essencial que jamais queremos perder: a liberdade e a democracia!

Luis Barreira/MS

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