Temas de Capa

Uma luz ao fundo da escuridão

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“A esperança é ser capaz de ver que existe luz apesar de toda a escuridão”. – Desmond Tutu, Prémio Nobel da Paz 1984. Créditos: Twitter

Esta será a última crónica deste ano  de 2021. Perdi a conta a quantas escrevi desde que, em 1999, me tornei colaboradora deste jornal. São já 22 anos de textos semanais, pontualmente interrompidos por períodos de férias ou outras situações que me impediram de, atempadamente, cumprir prazos.

Quando fui convidada, foi-me dada a liberdade de escrever sobre o que quisesse, situação que sempre se manteve mesmo quando o jornal mudava de mãos. Tenho a mais absoluta certeza de que, uma ou outra vez, fui contra a opinião da direção, mas, ainda assim, nunca senti qualquer tipo de censura ou reserva encapotada em relação ao que enviava.

De início, os meus textos ficaram marcados por uma postura séria e contida que gradualmente se foi soltando, dando lugar a confissões mais intimistas. Num registo autobiográfico, muitos deles deram a conhecer a mulher, a cônjuge, a mãe, a filha, a avó, a irmã ou a amiga, que estavam por trás das minhas diversas facetas profissionais. Foi um risco deliberadamente assumido, já que todos nós temos uma vida para além da profissão por que somos conhecidos e reconhecidos. A fotografia que encabeça o texto identifica um rosto, como o título de um livro, mas esconde o miolo feito de emoções e sentimentos que determinam muito do que foi escrito, desvendando o perfil da autora. 

Quantas vezes me interroguei sobre a importância que um ou outro assunto teriam para os leitores? Quantas vezes me autocensurei depois de ver os textos já publicados? Mas nunca me arrependi, porque o retorno que obtinha me fazia concluir algo que eu já sabia: que não temos vidas únicas. A maioria dos que nos leem sentem-se identificados com o que escrevemos, ao ponto de se verem retratados em alguns dos textos; outros já haviam sentido e passado pelo mesmo, faltando-lhes apenas as palavras certas para se exprimirem. Ou seja, partilhavam quotidianos em tudo semelhantes aos descritos, como se eu tivesse dado voz ao que dentro de si calavam.

Ao longo do ano, debrucei-me sobre os mais variados temas. Contudo, num ano atípico em que, mais uma vez, a pandemia dominou as nossas vidas, esta continuou a atravessar-se na minha escrita. Todos pensávamos que, atingido o segundo ano de vida, conseguiria caminhar em direção à extinção, mas a sua evolução voltou a surpreender-nos. Quando tudo fazia prever que, com a ajuda das vacinas, havíamos já atravessado o Rubicão da incerteza, uma nova estirpe veio baralhar os dados da “sorte lançada”. Para nos mantermos na margem de segurança, tivemos de aceitar novas restrições que continuam a condicionar as nossas vidas.

Na hora de fazer o balanço do ano que termina e formular votos para o que se vai estrear, apoio-me na epígrafe da autoria de Desmomd Tutu – que recentemente nos deixou e era a consciência moral do seu país -, que expressa a esperança de acreditar que “existe luz apesar de toda a escuridão”. É a essa luz que teremos de nos agarrar para pedir ao Novo Ano que nos devolva o que, de assalto, nos tem tomado ao longo de tantos meses: as festivas reuniões familiares; as refeições presenciais transformadas em momentos de partilha; os descontraídos encontros de amigos feitos de convívios sem reservas; o movimento dos braços ao encontro de tantos abraços que não chegaram a ser dados; os beijos soprados na palma das mãos para que os lábios possam tocar rostos e bocas, sequiosas de amor e de ternura; o toque das mãos no veludo da pele em vez do odor a desinfetante; os sorrisos e gargalhadas há tanto tempo a viver na clandestinidade das máscaras. 

Em suma: que a vida adiada retome a normalidade ainda distante, mas presente na memória de todos nós.

Aida Batista/MS

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