Temas de Capa

Do desespero à esperança, da esperança à incerteza

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Créditos: DR.

Termina em breve este ano de 2021. Mais um que não deixa saudades à humanidade. Começámos desesperados – a Covid-19 assumiu proporções catastróficas à escala global. Em Portugal, do mês de janeiro ficará para sempre a imagem das filas de ambulâncias às portas dos hospitais. As mensagens angustiantes de quem, lá dentro, dava tudo para salvar doentes. Os números de mortos a aumentarem exponencialmente. Um país fechado, mascarado, massacrado por uma doença que se mostrava implacável, quase imbatível. E as vacinas que não chegavam à maioria da população. Até que chegou a serenidade e a competência em forma de homem fardado, porque “estávamos em guerra”. Tomou conta de um país, protegeu os seus como é suposto acontecer num cenário de guerra – o comandante assumiu a liderança e pôs em prática um plano de defesa. Sempre sereno, mas determinado. Aos poucos, Henrique Gouveia e Melo alimentou a esperança de um povo, que parecia decidido a seguir as orientações estratégicas do seu comandante. E os resultados começaram a aparecer – com uma cada vez maior percentagem de população vacinada, Portugal começou a levantar-se sacudindo a lama em que se tinha enterrado nos primeiros meses do ano. Com o verão chegou a liberdade. Que se viveu intensamente. O país respirava esperança – a taxa de vacinação (uma das mais elevadas da Europa) trazia consigo um número cada vez mais decrescente de casos ativos e percebia-se a eficácia das vacinas na missão de evitar casos graves ou mesmo a morte.

Só que a guerra ainda não tinha terminado. O inimigo aproveitou o flanco escancarado pela falta de solidariedade dos países mais ricos, que não percebem que para se protegerem têm que garantir que os mais pobres também conseguem vacinar em massa as suas populações, para além da irresponsabilidade de quem insiste em não se vacinar, porque prefere acreditar em teorias conspirativas e muito pouco, ou mesmo nada, fundamentadas cientificamente. O vírus recompôs-se, adaptou-se a uma nova realidade, numa terrível capacidade de mutação e… está de novo em força a multiplicar-se graças ao seu enorme grau de transmissibilidade. E o mundo treme de novo. A incerteza aumenta a cada dia, ameaçando devolver-nos o desespero. Ninguém sabe hoje o que será o amanhã. Nem os mais bem-sucedidos bruxos ou leitores de mensagens nas estrelas conseguem prever o que será o ano que está a chegar. O que para mim não é de estranhar e nem me perturba. Já me incomoda, no entanto, sentir a comunidade científica mais baralhada e até perdida nas voltas e contravoltas deste maldito coronavírus. É que assim fico com a sensação de que estamos num enorme e muito escuro beco sem saída. E logo eu, que nunca gostei do escuro.

No meio dos meus pensamentos, quando olho para este ano que está prestes a terminar, fico com a certeza de que o melhor mesmo será ouvir e seguir as orientações de quem sabe mais do que eu. Talvez se todos tivéssemos tido em consideração os alertas que há décadas foram sendo emitidos pela comunidade científica, talvez não estivéssemos hoje como estamos no que às alterações climáticas diz respeito. Quem sabe se poderíamos ter evitado as catástrofes naturais que nos têm assolado – as cheias que acontecem nos locais mais improváveis, as temperaturas descontroladas que matam por excesso de calor, os incêndios devastadores cada vez maiores e mais frequentes, o degelo cada vez mais rápido, os furacões, os tornados… Talvez.

E talvez por isso se aumente cada vez mais o investimento na exploração espacial. Quem sabe se não passa por aí o nosso futuro. Convenhamos que ver gente conhecida por ter sido visionária, e à conta dessa capacidade de ver mais longe terem conseguido transformar-se nas pessoas mais ricas do mundo, com sede de descobrir o espaço (nem que seja em passeios turísticos só para multimilionários), dá que pensar. Será que eles já perceberam que a solução para a humanidade é fugir? Ou será que apenas querem mostrar-nos que a eles não há coronavírus que lhes pegue, nem que para isso tenham que viver para todo o sempre numa nave espacial? Claro que nem uma hipótese, nem outra fazem sentido e apenas serviram para, com o meu tosco sentido de humor, ridicularizar algo que me irritou profundamente neste 2021. A soberba de uns quantos que, perante um mundo a definhar, desperdiçam muitos milhões em 10 minutos de prazer.

Mas por falar em irritar… haveria tanto mais para escrever. Só para vos dar um cheirinho – a invasão do Capitólio por um bando de energúmenos, pondo em causa os mais elementares valores de civilidade num país que é ainda considerado o mais poderoso neste mundo; a falta de respeito pelos direitos humanos que continua a grassar nos campos de refugiados/migrantes; o regresso em força dos talibãs ao Afeganistão; o aumento de forças de extrema direita em vários países com tradição democrática; o brincar às eleições, que custam milhões, só para alimentar a sede de poder que grassa entre os políticos (sim estou a falar também de Portugal e do Canadá); o poder cada vez maior do país comunista mais capitalista do mundo – China… etc.

E o pior é que a irritação surge porque com o desespero de ver tudo isto a acontecer no nosso mundo, perco cada vez mais a esperança em dias melhores. E aumenta a incerteza – esse motor que gera angústia e medo.

Fica estranho desejar-vos um Feliz Ano Novo, depois do que escrevi? Fica. Mas podem crer que ainda mora dentro de mim alguma vontade de acreditar que é possível. E o desejo é sincero – que seja um ano melhor do que o que agora termina. Para todos nós.

Madalena Balça/MS

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