Temas de Capa

O meu triângulo no mundo

“Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, diz o velho ditado, e tento aplicar a mesma filosofia ao meu gosto pelas viagens. Desde muito cedo, acostumei-me a ouvir as minhas colegas, irmãos e amigos dizer: “Eu irei viajar quando tiver dinheiro, quando tiver mais tempo, quando um dia me aposentar…”.

Comecei a amealhar quando era estudante para poder ir viajar, e tive a sorte de, na carreira que escolhi como professora, ter dois períodos anuais de férias e poder juntar o suficiente que me permitisse sair do meu cantinho e ir conhecer outros mundos.

Ao refletir sobre este ano que passou, posso dizer que dividi o meu tempo entre três continentes – a América Latina, a Europa e a América do Norte – o meu triângulo no mundo.

Sentarmo-nos num avião dez horas para se chegar de Toronto à cidade de São Paulo, a maior cidade da América do Sul, é no mínimo cansativo. No aeroporto internacional de Guarulhos, percorrer longos corredores à procura de um segundo voo de ligação é desgastante. Muitas vezes pergunto a mim mesma: quanto tempo mais vou ter energia para fazer essa viagem que ocupa um dia inteiro da minha vida? No entanto, continuo a achar que vale a pena passar um ou dois meses no sul do Brasil. A experiência de vivências num outro ambiente, com uma outra cultura e convívio com pessoas de mentalidades diferentes da minha merece a longa travessia.

O ano passado tive a oportunidade de passar tempo no Brasil e ir conhecer o Peru. A ida às ruínas de Machu Pichu foi memorável; mas bem marcante também foi o despertar de uma enorme admiração pelas civilizações milenárias do Peru de que pouco sabia. Na América do Norte, há uma impressão generalizada de que a América do Sul sempre foi mais “atrasada” do que nós. A verdade é que as civilizações têm períodos áureos e de decadência, e é sinal de ignorância fazer afirmações antes de conhecer a sua história.

Passei de novo mais de dois meses em Portugal, país que me continua a deslumbrar com tanto que tem para se ver. Descobri a ilha Graciosa, nos Açores, e compreendi porque lhe puseram esse nome. Para além disso, estive novamente em Paris, o grande “centro da cultura”. Quem visita a capital da França, apercebe-se das razões pelas quais a cidade atrai artistas e turistas do mundo inteiro. A oferta cultural é de tal maneira aliciante que quando saímos, prometemos a nós mesmos regressar mais vezes. Paris, todavia, sofre o impacto dos tempos em que vivemos – guardas armados no aeroporto, nas ruas principais e nos lugares mais visitados – que mundo é este de insegurança e medo, até no centro da pacífica Europa?

No Canadá, o segundo país mais extenso do mundo, que atrai pela beleza das paisagens naturais, sinto sempre que nunca conhecerei o suficiente, sendo inúmeros os lagos e as ilhas, as pequenas vilas, florestas, montanhas, planícies e vales. Dediquei este verão algumas semanas a conhecer melhor o sul do Ontário. Que sorte poder dar passeios de barco a explorar os vários recantos com lagos pequenos e outros enormes que mais parecem o mar; passar tempo numa praia de água quente e mansa e nadar em águas sem ondas.

A pureza dos bosques e florestas, em que encontramos vida selvagem, é uma experiência rara e digna de valorizar – até quando vamos poder beneficiar desse privilégio? É comovente observar veados a beber no riacho ou a caminharem devagar de ouvido atento à presença humana; as lágrimas surgem contra vontade.

Viajar tem sido muito importante para mim, desde jovem. Enquanto puder, irei tentar descobrir, nesse meu triângulo geográfico favorito, outros lugares, outras pessoas, outros modos de ver o mundo. Conhecer outras regiões está ao alcance de muita gente, ainda que fazendo alguns sacrifícios e correndo alguns riscos. Por isso, possuir espírito de aventura é, absolutamente, indispensável.

Neste final de 2019, votos de boas viagens a todos os leitores.

Manuela Marujo

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