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Animais de estimação – Uma forma nova de paternidade?

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Créditos: Erica Magugliani.

Nos tempos que correm, a importância da paternidade/maternidade é muito mediatizada. Alguns casais optam mesmo por ter animais de estimação em vez de crianças, o que foi recentemente classificado pelo Papa Francisco, durante a primeira audiência geral do Ano Novo, como “uma forma de egoísmo”. Acrescentou ainda que “ter um filho é sempre um risco, mas não o ter é ainda mais”, uma vez que a civilização está “um pouco órfã”. 

Neste âmbito, o representante máximo da Igreja Católica incentiva os pais a terem filhos e pede também para que sejam simplificados os procedimentos de adoção para quem não consegue procriar naturalmente, permitindo “realizar o sonho de tantos pequeninos que precisam de uma família”. 

Renunciar a maternidade e a paternidade, ou seja, negá-la, está a diminuir a nossa Humanidade, de acordo com o Papa, já que a civilização envelhece com um baixo índice de natalidade. Assim e segundo o Sumo Pontífice, também se “perde a riqueza da paternidade e da maternidade”, uma vez que para muitos casais os cães e gatos assumem na sociedade atual o papel de filhos e, em determinados casos, ocupam mesmo o lugar dos filhos. “Vemos que algumas pessoas não querem ter filhos. Às vezes, têm um e chega, mas têm cães e gatos que tomam o lugar das crianças”, criticou o Papa Francisco.

Mas vamos então tentar desmistificar este assunto tão complexo e ao mesmo tempo tão banal. Afinal, como é que os animais de estimação são incorporados no seio das famílias?

Segundo um estudo estatístico mundial, a relação humano-animal existe há milhares de anos e está presente nas mais variadas culturas. Porém, nos últimos anos, constatou-se um aumento significativo tanto no número de pesquisas abrangendo a temática, quanto no número de animais de estimação que residem nos lares de casais, superando o número de crianças.

Hoje muitos donos destes animais preferem chamá-los de “filhos”. E não é só uma questão semântica: estes ganham guarda-roupa próprio, dormem na cama dos “pais”, ganham presente no Dia das Crianças — enfim, ocupam um espaço privilegiado na família. “Os animais domésticos tomam um lugar especial no coração e na vida de muitas pessoas, e há evidências convincentes de estudos clínicos e laboratoriais de que interagir com eles pode ser benéfico para o bem-estar físico, social e emocional dos humanos”, defende Lori Palley, investigadora do Centro de Medicina Comparativa do Hospital Geral de Massachussetts, nos Estados Unidos, e coautora do estudo. Ela lembra que a domesticação dos cães começou há muitos anos atrás, e que a prática de lhes dispensar cuidados paternais é um comportamento comum em diferentes culturas, que provavelmente emergiu da necessidade evolutiva de tê-los como companheiros fiéis. Mas estas podem não ser as únicas formas de incorporação destes animais dentro das famílias. Há outras razões que podem justificar este facto: muitos casais não conseguem ter filhos; os processos de adoção são bastante complicados e demorados; há cada vez menos tempo para se dedicarem à família, devido ao elevado trabalho acumulado e stress do dia-a-dia. 

Os cães e gatos são assim cada vez mais incorporados no seio das famílias e tornam-se muitas vezes a fonte principal de afeto, aconchego e alegria de uma casa. Mas é preciso não esquecer que eles também precisam de cuidados e tempo, porque se assim não for, não vale a pena tê-los. Pelo menos no meu ponto de vista.

Em Portugal, as associações que defendem os direitos dos animais e viram como infelizes as palavras do Papa Francisco sobre esta matéria, insistem que se o desejo for o aumento da natalidade é preciso encarar o problema a montante: criando condições estáveis para que as famílias tenham filhos. Para estas associações, ter um filho, adotar uma criança ou um animal, são tudo atos de amor.

Aqui chegamos a um outro ponto fulcral e final da nossa análise deste tema. Os animais são ou não humanizados, ou seja, transformados em autênticas pessoas? 

Existem diferentes perspetivas. Se olharmos para o animal como sendo isso mesmo e para as crianças como filhos, sendo que a prioridade são elas e os cães ou gatos meros animais de companhia, não estamos a humanizá-los. Estamos sim a cuidar deles, mas o foco são as crianças. Quando esse foco muda e os animais são assumidos como verdadeiros “filhos” (não sendo apenas uma questão semântica), e passam a ocupar um espaço privilegiado na família, aqui sim estamos a transformá-los em autênticos seres humanos e a alterar completamente o conceito de família. 

É claro que, em termos demográficos, esta nova forma de olhar para o conceito de família pode contribuir para o agravar de um problema que afeta grande parte dos países ocidentais: a baixa natalidade. Não cabe a cada um de nós julgar, mas antes aceitar ou respeitar esta forma de olhar para os animais de estimação. Caberá sim a quem tem o poder de decisão arranjar forma de contornar esta situação, através de medidas ou incentivos à natalidade. 

Beatriz Simão/MS

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