Luís Barreira

Cada cavadela, cada minhoca!…

Habituados à morosidade da nossa justiça nem damos conta que, nos processos mais complexos, essa demora reside normalmente na fase de investigação, ou seja, antes de o Ministério Público passar à acusação. Por isso ficamos surpreendidos quando, numa semana, vemos Joe Berardo ser constituído arguido e, logo na semana seguinte, damos conta que Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, é igualmente arguido num processo de múltiplas acusações semelhantes.

Cada cavadela, cada minhoca-toronto-mileniostadium
Créditos: DR

Esta sucessão semanal de casos jurídicos cria-nos a ilusão de que a justiça portuguesa está a desenrolar-se com mais celeridade, parecendo que de cada vez que dá uma cavadela no lodo das “engenharias financeiras” encontra uma “minhoca”!… Mas, nestes dois casos como em muitos outros, a investigação dura há muitos meses, senão anos e, até “ao lavar dos cestos”, outro tanto se esperará para que a justiça produza resultados!

Nesta fase do processo que levou à prisão para interrogatórios do presidente do Benfica, que entretanto se auto-suspendeu dessa presidência, dando lugar a Rui Costa nessas funções, Luís Filipe Vieira é suspeito, de acordo com o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), de ter cometido “crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento de capitais”, em anos anteriores.

A operação policial que conduziu à prisão dele e de mais três pessoas: o seu filho Tiago Vieira; José António dos Santos, conhecido como o “rei dos frangos”, o maior acionista da SAD benfiquista, que tinha ligações em duas empresas com Vieira; e Bruno Macedo que, segundo o MP, utilizava “sociedades de agenciamento de jogadores e de intermediação em transferências” para encaminhar milhões de euros para os bolsos de Vieira. Uma operação intitulada “Cartão Vermelho”, que está a ser coordenada pelo procurador Rosário Teixeira e pelo juiz de instrução Carlos Alexandre.

Inquiridos pelo MP, após três dias passados nos calabouços, sob a acusação de se terem envolvido em negócios e financiamentos superiores a 100 milhões de euros, com prejuízos para o Estado e algumas sociedades, entre as quais o Benfica SAD e o Novo Banco, os detidos saíram provisoriamente em liberdade contra o pagamento de cauções que, no caso do ex-presidente do Benfica, atingiu o valor de três milhões de euros, além de prisão domiciliária, proibição de sair do país e de contacto com os outros.

Na origem de todas as suspeitas que incidem sobre os arguidos, além de escutas telefónicas que duraram anos, está uma complexa teia de manobras financeiras ilegais que permitiram a Luís Filipe Vieira e suas empresas poupar milhões de euros das suas dívidas e assenhorear-se de outros tantos milhões que não lhe pertenciam, situação só possível com a conivência de outras entidades que ainda estão sob investigação.

Com os valores da SAD do Benfica a descerem vertiginosamente, as operações em Bolsa foram suspensas e os adeptos benfiquistas a manifestarem grande preocupação com o futuro do clube, surgindo já propostas para Assembleias Gerais que demitam o suspenso presidente e elejam um novo, estabilizando a vida do clube.

Face à sua complexidade, apesar de ainda estarmos longe do desfecho deste e de outros processos semelhantes, tais como o de Joe Berardo, a venda das barragens nacionais pela EDP, a operação “Marquês” e tantos outros sucedâneos em consequência dos primeiros, pela sequência sucessiva das suas ações, parece que o Ministério Publico português está a acelerar a captura dos grandes devedores da banca, tentando obstruir a continuação de outras ilegalidades financeiras, através da criação dum clima judicial que, não resultando necessariamente na culpabilização jurídica de todos os suspeitos, cria uma atmosfera de receio para todos aqueles “artistas” que defraudam a nossa economia, a honestidade e o bom nome dos portugueses.

E isto, sendo, no entanto, uma necessidade de sempre, atinge hoje uma invulgar importância!

Prestes a recebermos os muitos milhares de milhões de euros da União Europeia, enquadrados no PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), para tentarmos recuperar Portugal da grave crise provocada pela pandemia e relançarmos o nosso futuro, coexistirmos com todo o tipo de gente fraudulenta, capaz de aproveitar todas as hipóteses que agora se apresentam para roubar esses recursos ao nosso desenvolvimento, é um crime imperdoável à nossa inteligência e à nossa capacidade de possuirmos uma justiça capaz de nos precaver contra muitos dos “amigos do alheio”, que não hesitam perante uma oportunidade que se lhes apresente, sejam eles empresários, políticos, comendadores ou banqueiros!…

Portugal, tal como outros países, está de facto numa crise económica provocada (em grande parte) por um agente externo (Covid 19, variante Delta) que nos invadiu e que continua a provocar cerca de 3.000 infeções diárias e um número crescente de internamentos e mortes. Mas, associado a esta pandemia, que afeta cada vez mais as camadas mais jovens da nossa população, há um outro “vírus” que atinge de forma intrínseca a nossa capacidade de progredir como país. Refiro-me a uma crise de valores, que tornou alguns de nós campeões dos “brandos costumes” e dispostos a aceitar (senão a invejar…) a esperteza de alguns prevaricadores de sucesso. Não preciso de salientar qual é a vacina para este tipo de “vírus”, todos a conhecemos!…

Luis Barreira/MS

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