Aida Batista

Paulina Chiziane – No mapa da vida das Letras

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Credito: DR.

Quer faça frio, quer faça sol, acendes a fogueira, onde, como qualquer outra dona de casa camponesa, cozinhas a refeição do dia, alheia ao que se passa à volta do círculo do teu mundo, que a pandemia fez encolher ao tornar-nos prisioneiros não só dos nossos espaços, mas também dos nossos corpos, há muito impedidos das mais simples manifestações de ternura.

A fogueira, o lugar mágico com o qual ainda hojes não consegues viver, foi a tua primeira biblioteca – aquela onde tinhas lugar marcado em criança – que se alimentava das vozes dos que contavam as estórias que te habituaste a ouvir. Falavam da ancestralidade do teu povo e do teu país, que cedo percebeste ser bem maior do que a parte iluminada pela luz das chamas. Mas elas não sabiam que Paulina, a menina atenta, as guardava dentro de si para um dia as materializar nos romances que começaria a escrever.

Uma popular canção changane diz que “cada dia tem a sua história (A siku ni siko li ni psa lona)”, tecida com os fios cardados dos nossos quotidianos. Tu viveste dias e dias a recolhê-las, não desistindo de fazer delas as folhas com que coseste o teu primeiro livro, “Balada de amor ao vento”, em 1990. Não era normal, numa terra onde nem as vozes dos homens eram ouvidas, haver uma mulher que, do universo calado de tantas outras, se ergueu para dizer que tinha vidas para contar. Ainda que tenhas escrito: “Nós, mulheres, fazemos existir, mas não existimos”, tiveste a ousadia de existir e foste a primeira mulher moçambicana a publicar memórias coletivas de um povo, que há muito se conformara em ser apenas sobrevivente da falta de esperança. E fizeste-o, como afirmaste à Lusa, no “português, aprendido de Portugal.”

O teu pai, como confessas, não tinha cadernos para te oferecer e tu aprendeste a escrever debaixo de uma árvore. Por isso, a língua em que o fazes – o português aprendido de Portugal – foi apenas uma ferramenta, que depois moldaste à realidade em que vives, não ficando presa a uma língua monogâmica; ao contrário, graças à tua imaginação, iniciaste-te na dança de sedução da língua, e deixaste que ela se deitasse com todas as outras para, tornando-te hábil no tema do teu Niketche, Uma História de Poligamia. À semelhança das imbricadas relações das diferentes mulheres de um homem só, também com a língua soubeste descobrir-lhes as diferenças e estabelecer hierarquias, sem impedir as relações pacíficas e harmoniosas entre todas, porque, capatando-lhe a essência, sabes bem qual o papel destinado a cada uma.

Vinda do chão, foi do chão que te levantaste para “despertar as mulheres e fazê-las sentir o poder que têm por dento.” E o prémio Camões 2021, que merecidamente te foi atribuído, para além da surpresa com que  foi recebido, servirá para satisfazer esse teu desígnio de valorizar “os escritos de mulheres”, tão pouco reconhecidos num passado ainda muito recente.

Odete Semedo, também ela africana, mas guineense, numa simplicidade profunda escreveu:

“Não disse nada

Falei da língua

Da míngua

Da letra (..)”

Este é o valor da palavra, da letra, da míngua, da língua, porque, mesmo caladas, são sempre uma arma, quando com elas se intervém na sociedade, denunciando a miséria, a fome, a pobreza, as gritantes desigualdades sociais, as atrocidades que geram mortes e os êxodos de homens, mulheres e crianças, despojados de tudo, na busca de segurança e paz.

Embora digas que, num país pobre, tanto sofrem as mulheres como os homens, a mulher sempre “carregou a história de todas as guerras do país num só ventre”, mantendo-se de pé, até hoje.

Aida Batista/MS

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