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Roe vs Wade vs Society

milenio stadium - SJ-Abortion -PORT (1)

 

O tema do aborto é um assunto complexo que não é discutido com frequência, a menos que se torne um jogo de poder político como está a acontecer nos Estados Unidos. A controvérsia elevou-se a estados argumentativos devido à decisão Roe vs Wade, que está mais uma vez em processo de revisão. A colisão política de diferentes instituições burocráticas citando interesses etnocêntricos está a fornecer uma plataforma para a abertura de velhas feridas, que afetam a vida de milhões de mulheres por todo o mundo.

Este é um tema difícil de ser discutido num editorial, principalmente partindo do ponto de vista de um homem, sendo que eu não acredito que um homem possa alcançar a complexidade de pensamento que permeia a mente de uma mulher quando decide fazer um aborto. Ainda assim, do ponto de vista social, eu acredito no espírito da liberdade de expressão, todos são merecedores de partilhar a sua opinião, exceto quando implica a decisão de abortar ou não, pois é uma decisão totalmente pessoal da mulher. Até que ponto devem ser permitidos, incentivados ou reprimidos abortos induzidos, são questões sociais que têm vindo a dividir teólogos, filósofos e legisladores há vários séculos. Voltando ao mundo greco-romano, o aborto era um método comum e socialmente aceite como método de limitação familiar. A sociedade, particularmente os Cristãos, condenaram o aborto a partir do século XIX, ao ponto de aplicarem sanções criminais, que continuam até aos dias de hoje.
A expulsão forçada do feto de uma mulher é muito diferente de um aborto espontâneo. O trauma causado no ser físico e mental de uma mulher não é menos avassalador em nenhuma das circunstâncias onde nem o filho indesejado, nem o desejado, têm uma voz. Segue-se então a questão: um feto deveria ter voz? E se sim, quem falaria por ele? Não devem ser os fanáticos religiosos radicalizados que não conseguem decifrar o que é bom nas suas vidas, apenas ditar o que é melhor para os outros.

Com o mundo a aproximar-se dos 8 mil milhões de habitantes, os países que lideraram a ordem global desde a Segunda Guerra Mundial estão a tornar-se nas sociedades mais envelhecidas da história da humanidade. Estes países com populações maioritariamente brancas estão preocupados com a diminuição da natalidade e com a possibilidade de serem superados por raças de outras cores, o que percetivelmente diluiria a influência da pele branca. Organizações de direita encorajam as mulheres para que não façam abortos, de forma a manter um equilíbrio racial na sociedade. Os métodos empregados por alguns em que um processo político dita a uma mulher o que ela deve fazer com o seu corpo é errado e retrógrado. Em vez disso, o mundo deveria concentrar-se na educação, na repressão demográfica e em prevenir o controlo mental por religiosos interessados em obter mais simpatizantes do que em ter compaixão pela situação de muitas mulheres que vivem na pobreza sem educação e que sofrem abusos físicos e sexuais em todos os cantos do mundo.

Nos EUA, em 2021 a população cresceu ao ritmo mais lento da história. Desde 2011, os nascimentos anuais têm diminuído por 400,000. Esta taxa de natalidade em queda, que afeta sobretudo os casais brancos, está a causar ondas de choque devido às preocupações com a oferta de emprego e a diminuição da população branca, o que faz com que surjam políticas de extrema-direita, que estão a ser adotadas pelo Supremo Tribunal para prevenir e criminalizar o aborto. Parece que até o movimento do aborto deu origem a tons racistas sobre os quais ninguém quer falar. O mundo deve parar com a segregação do aborto através da descriminalização e do fornecimento de serviços médicos gratuitos.

Uma mulher deve ser livre de escolher o caminho do seu feto, contudo, não utilizando o aborto como um método contracetivo. A luta por este direito tem um longo caminho a percorrer uma vez que as mulheres não são respeitadas para fazerem as escolhas que melhor se adequam às suas vidas. Uma sociedade justa e inclusiva deve compreender que igualdade social significa assegurar uma distribuição justa das leis que controlam as nossas vidas, incluindo os mandatos que controlam o aborto. O tipo mais prático de política, é a política da decência, ao invés das manifestações contínuas para adquirir direitos devidamente conquistados nos últimos dois séculos. Os ativistas que articulam ideologias zelosas não podem substituir isso como civilidade em países avançados.

Mulheres, o que quer que façam, o único segredo é acreditar e satisfazer-se a si própria. Não o faça por outra pessoa.

50 anos após a decisão de Roe vs Wade, a lei sobre o aborto nos Estados Unidos poderá ser anulada. A questão é o porquê e se são necessárias revisões, será que deveriam ser feitas por homens? O repúdio da lei que tem por base Roe vs Wade representará um retrocesso, não apenas para as mulheres, mas para os direitos de todos os seres humanos.

“A própria civilização está alojada no ser humano.” – Nayantara Sahgal.

Manuel DaCosta/MS


 

milenio stadium - SJ-Abortion -ENG copy

 

Version in english

The subject of abortion is a complex issue that is not often discussed unless it becomes a political power play as is now in the United States. The controversy has risen to argumentative stages once again due to the Roe vs Wade decision which is once again being reviewed. The political grappling by different bureaucratic institutions citing ethnocentric interests is providing a platform for the opening of old wounds, which affect the lives of millions of women throughout the world.

This subject matter is difficult to discuss in an editorial, particularly from a man’s point of view as I don’t believe that a male can ever appreciate the complexities of thought that permeates a woman’s mind when deciding to have an abortion. Still from a societal point of view, I believe that in the spirit of freedom of speech and expression, all are deserving of opinions except when it implicates the decision to abort or not as it is fully a woman’s personal decision. Whether and to what extent induced abortions should be permitted, encouraged or repressed is a social issue that has divided theologians, philosophers, and legislators for centuries. Going back to the Greco-Roman world, abortion was a common and socially accepted method of family limitation. Society, particularly Christians, condemned abortion in the 19th century to the point of applying criminal sanctions, which continue to this day.

The expulsion of a fetus forcefully from a woman is very different from spontaneous abortions, miscarriages, etc. The trauma caused by all on the woman’s physical and mental being is no less overwhelming in either circumstance where the unwanted or wanted child did not have a voice. The question then becomes, should a fetus have a voice? And if yes, who should speak for it? It should not be by radicalized religious fanatics who can’t decipher what is good in their lives but dictate what is best for others.

As the world nears 8 billion people, the countries that have led the global order since World War II are becoming the most aged societies in human history. These countries with mostly white populations are concerned about decreasing birthrates and being overtaken by races of other colours, which perceptively would dilute white skinned influence. Rightist organizations are encouraging women not have abortions in order to keep race balance equitable in society. The methods being employed by some where a political process dictates to a woman what she should do with her body is wrong and short sighted. The world instead should concentrate in education, demographic repression and prevent mind control by religions interested in obtaining more parishioners than being compassionate about the plight of many women who live in poverty without education and who suffer from physical and sexual abuse in every corner of the world.

In the USA, population grew at the slowest pace in history in 2021. Since 2011, annual births have declined by 400,000. This slumping birthrate, which affects mostly white couples, is sending shockwaves because of worries about the employment pools and the diminishing white population, thus the surfacing of the extreme rightism policies being adopted by the Supreme Court to prevent and criminalize abortions. It would appear that even the abortion movement has given birth to racist undertones which no one wants to speak about. The world must end abortion apartheid by decriminalizing and providing medical services free of charge.

A woman should be free to choose the path of her fetus but not using it as a method for birth control. The fight for this right has a long way to go as long as women are not respected to make the choices best suited for their lives. A just and inclusive society must understand that social equality means ensuring fair distribution of laws that control our lives, including the mandates controlling abortion. The most practical kind of politics is the politics of decency, not continuous demonstrations to acquire rights duly earned over the past 2 centuries. Abortion activists articulating zealous ideology cannot substitute this as civility in advanced countries.

Women, whatever you do, the only secret is to believe in it and satisfy yourself. Don’t do it for anyone else.
50 years after the Roe vs Wade decision, the abortion law in the United States may be annulled. The question is why and if revisions are needed should they be made by men. Repudiation of Roe vs Wade laws will be a reversal not just for women but for all rights of human beings.

“Civilization itself is housed in the human being”. – Nayantara Sahgal.

Manuel DaCosta/MS

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