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O negócio do futebol “Cada dólar gasto no Mundial é apenas menos um dólar gasto noutro local”

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O futebol é um desporto com um apelo global esmagador e as estimativas sugerem que existem mais de 240 milhões de jogadores registados em todo o mundo. Com a chegada dos imigrantes europeus ao Canadá, pouco ou nada apaixonados pelo hóquei e pelo basebol, a modalidade foi crescendo e a indústria foi aproveitando este filão. O recente apuramento da seleção canadiana para o Mundial de futebol de 2022 no Qatar veio aumentar a popularidade do desporto e segundo um especialista ouvido pelo Milénio Stadium é provável que o investimento aumente no setor por causa desta qualificação.

De acordo com a lista da Forbes de 2021 dos clubes de futebol mais ricos do mundo, dois espanhóis e um alemão lideram o ranking: Barcelona; Real Madrid e Bayern de Munique. No ano passado o Barcelona estava avaliado em $4.76 mil milhões de dólares e gerou receitas na ordem dos $792 milhões de dólares. O valor de mercado do Real Madrid era $4.75 mil milhões de dólares e o faturamento foi parecido ao do clube catalão. Já o clube alemão, avaliado em $4.22 mil , gerou receitas de $703 milhões.

Recentemente, por causa da invasão russa à Ucrânia, o dono do Chelsea, Roman Abramovich, tem andado na ordem do dia. Os países que fazem parte da NATO anunciaram sanções contra o bilionário russo que é dono do clube inglês que em 2021 estava no 7.º lugar do ranking dos clubes mais ricos do mundo. De acordo com a Forbes, no ano passado o Chelsea valia $3.2 mil milhões de dólares e faturou $520 milhões.

Para Moshe Lander, especialista em Economia do Desporto e palestrante da Concordia University, o interesse pelo futebol cresceu devido a vários fatores e um deles foi “a necessidade de oligarcas e petroestatos canalizarem/lavarem dinheiro através de canais legítimos”. A Câmara Municipal de Toronto aprovou quarta-feira (6) a candidatura da cidade para receber alguns dos jogos do Campeonato do Mundo em 2026, o que significa que se a cidade for selecionada a candidatura vai custar aos contribuintes $290 milhões. Toronto está a pedir ao governo federal e ao governo provincial que cubram dois terços deste montante ou cerca de $177 milhões de dólares. Lander alerta que este dinheiro dos contribuintes vai acarretar mais custos do que benefícios. “Cada dólar gasto no Mundial é apenas menos um dólar gasto noutro local”, alerta.

Certamente que o Euro 2004 está bem presente na memória dos portugueses, até daqueles que não são os maiores adeptos de futebol. Passados 18 anos, apenas três dos 10 estádios que foram construídos para acolher o evento foram pagos. Sete autarquias ainda devem 55 milhões de euros e a maior dívida é a da Câmara Municipal de Leiria que deve 20 milhões à banca. Segundo o autarca local, a dívida atrasou investimentos em áreas como saúde, educação e ambiente. No ano passado Portugal e Espanha apresentaram formalmente uma candidatura conjunta à realização do Euro 2030. Se for aprovada, três ou quatro destes estádios portugueses devem receber os jogos.

milenio stadium - maxresdefaultMilénio Stadium: O futebol já não é apenas um desporto e tornou-se numa indústria mundial muito grande que movimenta muito dinheiro. Como é que chegámos aqui?
Moshe Lander: O futebol sempre foi popular na Europa e América do Sul, mas a sua verdadeira globalização coincidiu com a criação da Premier League inglesa e o rebranding da Liga dos Campeões no início dos anos 90. Estes eventos, juntamente com a difusão da Internet, canais desportivos 24 horas por dia, a procura de programação ao vivo, e a necessidade de oligarcas e petroestatos canalizarem/lavarem dinheiro através de canais legítimos, criaram a convergência perfeita para que o futebol descolasse.

MS: No Canadá o futebol não é o principal desporto, mas nos últimos anos esta realidade está a mudar. Acha que o apuramento da equipa nacional para o Campeonato do Mundo vai fazer com que a modalidade cresça?
ML: O futebol tem sido sempre popular na América do Norte como desporto de participação, sobretudo para crianças pequenas. O problema tem sido sempre a falta de uma carreira viável para aqueles que sonhavam em ser atletas profissionais. É certo que apenas uma pequena percentagem se torna jogador profissional de hóquei, basebol, basquetebol ou futebol, mas dado que os norte-americanos nunca foram realmente valorizados nas ligas de futebol europeias de elite, as crianças abandonariam o desporto quando chegassem à adolescência. A MLS (Major League Soccer) levou algum tempo a encontrar o seu lugar na América do Norte. Quando era criança, lembro-me de poder ver a Série A na televisão local no sudoeste de Ontário, mas passava muitas vezes à tarde no fim de semana quando estávamos com os amigos, por isso o futebol ficava para trás. A MLS era sempre de menor qualidade e as estrelas internacionais que vinham para a América do Norte já tinham passado o seu prazo. A grande mudança veio com as ligas europeias a assinarem acordos com redes norte-americanas para transmitir mais jogos e criar conteúdos em torno das disputas, tais como espetáculos antes e depois e para promover o futebol durante os principais desportos norte-americanos. À medida que mais imigrantes chegavam à América do Norte com menos apego/interesse pelo basebol e pelo hóquei, esses dólares de entretenimento eram gastos à procura de futebol e de lugares para ver esses jogos. A MLS embarcou nesta vaga de imigração e comercializou-a para esses adeptos. Com o Canadá a qualificar-se para o Campeonato do Mundo, isto deveria ajudar a aumentar a popularidade do desporto e criar mais participação dos jovens e a eventual colocação de canadianos nas ligas de futebol de topo. Os EUA estão cerca de 10 – 15 anos à nossa frente nesta matéria, mas está-se a assistir à ascensão de uma geração de estrelas do futebol americano a nível internacional (Christian Pullisic, por exemplo) que beneficiou do sucesso moderado da equipa de futebol dos EUA na viragem do século.

MS: O nível de qualidade do futebol jogado no nosso país e a visibilidade que o desporto ganhou com o anúncio da presença no Qatar abre o caminho para o interesse de mais investidores?
ML: Sim, é pouco provável que a NHL (National Hockey League) se expanda num futuro previsível e a NBA (National Basketball Association) e o MLB (Major League Baseball) vão ter cada uma mais duas equipas na próxima década. Depois disso, é pouco provável que se voltem a expandir também. A expansão da NFL (National Football League) no Canadá é sempre um tiro no escuro, para os canadianos ricos que procuram um “brinquedo”. A MLS tem capacidade limitada para crescer muito mais sem repensar completamente o seu funcionamento (por exemplo, se se deslocar para uma estrutura mais europeia de promoção e despromoção), pelo que os investidores vão procurar associar-se à liga através de publicidade ou talvez através da aquisição das franquias MLS existentes em Toronto, Montreal e Vancouver.

MS: A Câmara de Toronto aprovou esta semana a candidatura da cidade para receber alguns dos jogos do Campeonato do Mundo em 2026. Se a cidade for selecionada, acha que o desporto pode crescer em Toronto e/ou na província?
ML: Sim, Toronto é uma cidade extremamente diversificada e internacional, por isso o futebol deve ser o desporto de eleição para muitos. A capacidade de ver talento de elite a jogar localmente, mesmo que seja apenas em alguns jogos, deve elevar o seu perfil. Até há pouco tempo, o maior impedimento do futebol era a crença de que o futebol é um desporto de verão. É verdade, nunca será um desporto de inverno, mas o Mundial de Futebol de 2022 vai ser jogado em novembro e os recentes jogos de qualificação foram em Edmonton e Columbus, onde o frio glacial foi visto como uma vantagem estratégica para a equipa da casa. Se os canadianos podem estar confortáveis com a ideia de ver futebol no inverno, então o futebol pode tentar competir com os nossos habituais desportos de Inverno.

MS: Acredita que este é bom investimento do município e dos governos federal e provincial?
ML: Não. A crença comum é que o acolhimento de jogos de Mundial irá promover o turismo, gerar atividade económica e empregos e ser um trunfo para a economia local. Infelizmente, isto não é verdade. Toronto é internacionalmente bem conhecida. Se alguém fora do Canadá pode nomear uma cidade aqui, é provável que seja Toronto, por isso o município em si tem pouco a ganhar com a realização destes jogos. Mesmo que alguém tome consciência da cidade, ainda é pouco provável que as pessoas baseiem as suas viagens futuras nisto. (Quando foi a última vez que ouviu alguém dizer que queria viajar para Melbourne porque acolheu os Jogos Olímpicos nos anos 50?) Mesmo que me possam convencer de que as pessoas querem viajar para Toronto devido à sua associação com o Mundial, a cidade está sempre cheia de turistas durante o verão. Um turista que venha para o Mundial vai deslocar-se para ver os Blue Jays, o festival de jazz ou a CN Tower. Se os torontonianos quiserem uma recordação do Mundial significa menos dinheiro gasto nos Leafs ou nos Raptors. Cada dólar gasto no Mundial é apenas menos um dólar gasto noutro local, por isso, mais uma vez, o efeito líquido é muito menor. O problema é que o custo é enorme. O Rogers Centre vai precisar de grandes obras, tal como as grandes infraestruturas municipais. A FIFA vai ditar o que tem de ser feito e não vai cobrir nenhum dos custos. À medida que o mundo muda, as exigências também podem vir a mudar. Quem teria imaginado a covid-19 quando o Mundial de 2026 adjudicado? Esse dinheiro tem de sair dos bolsos dos contribuintes, mas passaremos décadas a tentar recuperar de dois anos de despesas com a covid-19, pagamentos do CERB, subsídios salariais, um sistema de saúde frágil, escassez de funcionários de saúde, etc. Os governos municipais e provinciais sabem-no, mas também não querem ser os débeis partidários que se recusam a gastar, pelo que deixam a decisão para os contribuintes (o que é uma boa ideia democrática), mas não informam os contribuintes sobre os verdadeiros custos (maiores do que aquilo que dizem) e benefícios (muito menores do que aquilo que dizem).

Joana Leal/MS

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