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Não estaremos a dar nenhuma novidade quando dizemos que as comunidades lusófonas espalhadas pelos quatro cantos do mundo desempenham um enorme e importante papel na divulgação e preservação da cultura e tradições portuguesas. A juntar a isso, estas pessoas que um dia decidiram dizer adeus ao país que os viu nascer contribuem de maneira significativa – e em diversas áreas – para o desenvolvimento dos países que escolheram para se estabelecerem. Mas nem sempre aqueles que ficam têm noção dessa realidade – e é neste ponto que vem à tona o importante – senão crucial – papel dos órgãos de comunicação social na disseminação de informações e notícias sobre os que “voaram” em busca dos seus sonhos e, em última análise, na criação ou fortificação dos laços entre as comunidades e o seu país de origem.

A adequada divulgação não só de conquistas como também de desafios pode, de facto, funcionar como uma ferramenta valiosa para preservar o vínculo com a cultura e a língua portuguesa. Ainda assim, todos sabemos que a informação que nos chega – quer pelos jornais, rádio, televisão ou até pelas redes sociais – é muito condicionada por tudo aquilo que se vai passando no mundo. Seja por bons ou maus motivos. Mais ainda, é de enorme importância o esforço das comunidades em se fazerem ver e ouvir – afinal, e como sublinhou a jornalista da RTP Sónia Silva, com quem o nosso jornal teve a oportunidade de conversar, “falar é sempre melhor do que estar calado”.

sónia silva 2467Milénio Stadium: O que interessa saber das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo? Percebe-se, pela parte do público, interesse em saber mais sobre o que é dito e feito por portugueses e/ou lusodescendentes que se estabeleceram noutros países?
Sónia Silva: Olhe, eu acho que neste momento os portugueses – os que ficaram cá, que nunca saíram e que são filhos de famílias que também nunca emigraram – têm uma ideia, neste momento, muito diferente da que tinham, se calhar, os pais deles e os avós há 40, 50 anos. Ou há 30 ou há 20, se calhar. Porquê? Porque nós hoje temos também um perfil de imigrante muito diferente. Nós temos uns imigrantes, enfim, muitos deles que estão graduados, que têm cursos superiores, que vão inclusivamente para a investigação, que vão trabalhar para o estrangeiro e que, portanto, não têm aquele perfil que nós todos conhecemos de imigrantes que ia tentar mesmo a sorte, porque era assim que acontecia.
Dito isto, significa que hoje em dia poderá haver um interesse dos portugueses que cá estão nos imigrantes mais jovens, e até filhos de imigrantes. Eu acho que um português tem sempre muito orgulho nos portugueses e em Portugal. E pode dizer muito mal das coisas “dentro de casa”, mas depois quando é para mostrar ao mundo, toda a gente põe a bandeira ao peito e bate palmas – e muito bem, não é? Portanto, eu acho que o interesse – e, sublinho, dos portugueses que cá estão e que sempre cá estiveram – de alguma forma começa a alterar-se um pouco e acabam por começar a ter uma ideia diferente, também porque esta nova geração de imigrantes e até os lusodescendentes são, no fundo, os representantes de Portugal. E pode dar-se as voltas que se der, mas eu acho que um português é sempre uma pessoa com muito orgulho na língua, na bandeira, em tudo – apesar de, pronto, porque também é português diz mal de tudo… mas quanto a isso já não há nada a fazer, não é? É neste contraditório que nós vivemos já há muitos séculos também… E se calhar vamos continuar assim.

MS: Na sua opinião, que papel desempenham os media na promoção da diversidade, inclusão e desenvolvimento das comunidades portuguesas?
SS: Os media têm uma importância fundamental, como sempre tiveram e como se calhar vão continuar a ter noutras plataformas. Eu falo por aquilo que conheço, que é a rádio onde estive mais de 20 anos e a televisão, onde estou há 15 – nessa perspetiva, nós temos uma responsabilidade muito grande naquilo que mostramos e, principalmente, aquilo que vemos para mostrar. Porque muitas vezes – e temos que filtrar algumas coisas, naturalmente -, somos o primeiro olhar sobre a realidade, e depois temos que a passar. E, às vezes, claro que essa realidade depende muito da pessoa que está a passá-la. e claro que também depende muito hoje em dia das “modas”, que os media também nos habituaram – e agora estou do lado do público – a dar. Portanto, é evidente que se de repente agora – e durante algum tempo, se calhar -, se falou disso da imigração, dos novos imigrantes, é claro que isso desperta mais atenção e informa as pessoas, de alguma forma, porque há muita gente que se calhar nunca parou para pensar nisto. Ainda que, espero eu, as pessoas também tenham discernimento e vontades próprias para começar a formar uma opinião. Mas é evidente que a primeira informação que vem é sempre dos media: das televisões que as pessoas têm ligadas, da internet em primeiro lugar…. Temos que nos lembrar que a juventude de hoje não vê televisão, não lê jornais, nem ouve rádio – ou, pelo menos, a maioria.
Os jovens adultos hoje estão ligados à internet e, portanto, é essa plataforma que eu acho que é muito importante também depois na mensagem que passa e na responsabilidade que tem em passar a mensagem., Eu acho que tem também a ver um bocadinho com épocas, mas claro que já fomos o quinto poder – mas, de repente, as pessoas também começaram a ter alguma alguma opinião própria e há grupos sociais que não se deixarão influenciar tanto… Há outros, até, que distorcem aquilo que ouvem, infelizmente, e há outros que percebem. Agora, dentro de toda a informação que nós temos, temos que criar público que saiba separar o trigo do joio e que saiba também ver as notícias – e depois decide pela sua cabeça, naturalmente.

MS: São inúmeros os casos em que portugueses ou lusodescendentes se afirmam nos países para onde decidiram emigrar, tendo em conta o seu precioso e relevante contributo em áreas tão distintas como a política, medicina, construção, ensino, entre muitos outros. No entanto, parece que esta realidade apenas é do conhecimento de uma fatia muito reduzida da população residente no nosso país – concorda? Qual a posição dos meios de comunicação social neste campo?
SS: Isso depende muito de qual órgão de comunicação pega, de qual o interesse que a notícia tem e qual o enquadramento na atual conjuntura que se vive. Vamos dar um exemplo: imagine que estávamos em plena pandemia de Covid e há um português, cientista/investigador, que vive no Canadá e que descobre uma vacina, que na altura ainda não se tinha descoberto. É evidente que isso abre os jornais – todos, se calhar. Isto tudo depende do sentido de oportunidade, às vezes, e também da boa vontade de divulgar essas informações e essas notícias sobre imigrantes.
E eu acho que cada vez mais estes novos imigrantes, por exemplo, apesar de não porem os filhos em escolas portuguesas, continuam a falar português com os filhos e eu acho isso muitíssimo importante. E eu acho também que esse cuidado se calhar em alguns imigrantes mais antigos não aconteceu. Acharam – e bem, se calhar ,na perspetiva deles, o falar a língua do país para onde iam seria a melhor defesa que teriam para para os filhos.
Mas eu continuo a dizer: tudo depende da perspetiva e do enquadramento em que os portugueses podem ser notícia lá fora, porque hoje em dia é isso um bocado que pesa na balança quando se faz um alinhamento de um jornal. Pode entrar como primeira notícia ou pode entrar num fait divers, na última notícia.
Portanto, depende. Não significa isso que os portugueses não dêem valor àquilo que se faz lá fora, ou podem não estar tão atentos. Eu acho que os portugueses, de uma forma geral, acabam por condicionar muito, por aquilo que ouvem e veem, principalmente pela internet. E, portanto, aquilo que lhes derem é aquilo que eles vão ter e aquilo que eles vão interpretar, digamos assim. Mas isso eu acho que é como em tudo, não é?Infelizmente, às vezes também chegam notícias de portugueses ou lusodescendentes que estiveram metidos em sarilhos, não é? Infelizmente também temos visto isso e aí se calhar até se levantam mais portugueses a dizer: “pois, pois”… Pronto, tudo depende da disposição e às vezes até da nossa própria conjuntura económica e social – aquilo que estamos a viver cá em Portugal às vezes também reflete muito o interesse que podemos ter ou não naquilo que se passa com os nossos portugueses lá fora.

MS: Haverá ainda, por parte do público em geral, uma ideia muito “afunilada” daquilo que são as comunidades portuguesas? Muito reduzidas a conceitos como “rancho, fado, bacalhau e Cristiano Ronaldo”?
SS: Eu acho que poderá haver, numa fatia dos portugueses. Eu acho que sim. Não posso falar pelos portugueses, nem tenho sequer a ousadia de falar pelos portugueses – eu falo por uma portuguesa, que sou eu. Poderá haver uma fatia, uma franja da população que tenha ainda… Mas também se calhar há pessoas que não acreditam que o homem foi à Lua, não é? Quer dizer, as pessoas também podem acreditar e podem pensar aquilo que quiserem sobre o assunto que querem. Portanto, poderá haver uma fatia de portugueses que ainda acha que os imigrantes têm essa conotação.
Mas também acho que há uma geração que se está a renovar. Em muitas famílias, por exemplo, da minha geração que têm filhos de 20, 30 anos, muitos desses jovens estão a ir lá para fora para Erasmus, para tirarem um mestrado e isso são tudo fatores que contam e que fazem com que eles depois possam eventualmente ficar até nos próprios países – portanto eles vão ser emigrantes, não é? E é isto que também vai ajudar a mudar as mentalidades. Imagine que há 40 ou há 50 anos – ou até antes do 25 de Abril, imaginemos, que ainda era muito pior – se eu dissesse que tinha uma filha a estudar lá fora, bem, de certeza que ela não podia estar cá dentro, porque estava a ser perseguida, não é? Claro que depois é uma questão também educacional, não é? Agora é capaz de haver portugueses que nunca têm essa ideia redutora de um imigrante. Eu tenho muito respeito, muitíssimo respeito.
‘E aquelas coisas que se diziam há uns anos que os imigrantes, quando chegavam cá, vinham nos carros alugados, nos grandes carros e depois construíam grandes casas com os telhados até ao chão, como na Suíça, por exemplo… Eu tenho o maior respeito, porque isso são sinais exteriores de conquista e são um mérito que ninguém lhes pode tirar.
Podem invejar, mais nada. E até me comove um bocado hoje, com a minha idade, saber que houve tanta gente que apesar de tudo, construiu e tem uma vida hoje boa. Porque era preciso muita coragem para sair do país nas condições em que saíam – hoje em dia, um emigrante sai numas condições boas para onde vá – muitos saem, vão estudar, vão à vida deles… Vão voar, como hoje se diz.
Agora, Portugal não é fado, bacalhau nem Cristiano Ronaldo. Isso é redutor. E é por isso que o Marcelo foi muito criticado. Porque Portugal já não é só isso. Se calhar ele também disse aquilo dentro de um contexto que nós não ouvimos, mas claro que não podemos arrancar essa frase e pensar que Portugal é isso. São pessoas que estão a espalhar-se pelo mundo, como sempre nos espalhamos e a contribuir também para este mundo.

MS: No seu entender, é feito algum tipo de distinção na atenção dada, por parte dos órgãos de comunicação social portugueses, às comunidades de portugueses que estão na Europa e fora da Europa?
SS: Isso eu acho que é um fenómeno que é transversal a todos os países, que é a geografia e a história, também. Eu acho que são dois fatores que pesam muito nesta “importância” que nós, comunicação social, possamos dar. Porque, repare, há uma tendência histórica, uma história que nos lembra os imigrantes em França, que nos lembra os imigrantes no Brasil, há fluxos de imigrantes em grande quantidade para esses países – e, portanto, é natural que ainda estejamos de alguma forma “moldados” a esses países. Eu acho que também às vezes cabe um bocado aos que lá estão passar essas imagens, porque às vezes, e como já referi, a geografia impede-nos também de sabermos o que é que está a acontecer lá. E, portanto, cabe também a essas pessoas começarem a divulgar – e a forma como divulgam também é importante, claro – e a mostrarem aquilo que fazem, a forma como vivem e a dar essa essa imagem.
Não é certo que façamos essas notícias, não é certo que façamos essa divulgação. O certo é sempre que falar é melhor que ficar calado. E, portanto, nós só vamos à procura de uma notícia quando percebemos que há ali alguma coisa que possa dar. Ora, se estiverem quietinhos no sítio, nós se calhar não vamos lá, a não ser que haja uma epifania qualquer de alguém que vá descobrir alguma história, neste caso, por exemplo, no Canadá, não é? Tudo depende – e isto é desde sempre – do embrulho que nós damos às coisas e à notícia.

MS: Pode, em última análise, a comunicação social contribuir para fortalecer a identidade e integração das comunidades portuguesas no exterior?
SS: Claro que pode. Mas a questão é que também eles queiram, não é? Porque isto para dançar o tango são precisos dois. E é como eu digo, há sempre necessidade, às vezes, de despertarem história e despertarem um bocado a notícia, neste caso. Aqui há 10 anos ou há 20, se calhar, muitos portugueses lá fora, no estrangeiro, emigrantes, viam o canal da RTP Internacional – e eu pergunto quantos filhos desses imigrantes veem a RTP Internacional? Eu pergunto quantos imigrantes, estudantes e investigadores veem a RTP Internacional? Nenhum! Têm a internet e podem escolher – o bom e o mau da internet é que pode escolher aquilo que quer ver, não é? E, portanto, acaba por também não estar muito nas nossas mãos, essa tentativa, às vezes, de darmos a notícia.
Agora, pergunta-me: deveria haver mais programas a falar de Portugal, que depois passasse para o estrangeiro? Se calhar devia. Mas também a espuma dos dias, as notícias de hoje em dia que acabam por pôr no topo dos alinhamentos outras notícias mais domésticas, às vezes, outras internacionais, infelizmente pelos piores motivos, mas depois há outras mais políticas e económicas. Pronto, é o que é.

Inês Barbosa/MS

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