Daniel Bastos

Tamem Digo: Uma História de Migrações

Capa do Livro

Nos últimos anos o panorama literário sobre o fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com um conjunto expressivo de obras de autores nacionais ou lusodescendentes residentes no estrangeiro, que através do mundo dos livros têm dado um importante contributo para o conhecimento de múltiplas dimensões da realidade emigratória portuguesa.

Neste panorama, destacam-se cada vez mais os contributos literários que procuram aclarar o papel das mulheres no seio da emigração. Um dos lados, como refere a investigadora no domínio da História das mulheres e do género, Irene Vaquinhas, “menos conhecido e estudado do fenómeno migratório”.
É o caso do livro Tamem Digo – Uma História de Migrações, recentemente lançado, do escritor e ativista natural de Amarante, e atualmente a residir em Bruxelas, Jorge Pinto. Coautor em 2019 do livro Rendimento Básico Incondicional: Uma Defesa da Liberdade, ano em que venceu o Prémio Ensaio de Filosofia da Sociedade Portuguesa de Filosofia; e das bandas desenhadas Amadeo e Liberdade Incondicional 2049, Jorge Pinto apresenta no seu novo livro uma homenagem à sua avó e às mulheres que ficaram para trás durante a vaga de emigração para França na década de 1960.

Profusamente ilustrada pela artista lusodescendente Júlia da Costa, a obra biográfica com chancela da Officina Noctua, conta a história de Maria do Carmo, avó do autor, natural da freguesia de Olo, que no limiar dos anos 60 foi uma de milhares de mulheres que asseguraram a retaguarda familiar em Portugal, enquanto os homens emigravam. Num país estruturalmente condicionado pelo regime autoritário e conservador que vigorou entre 1933 e 1974, a miséria rural, a ausência de liberdade, a fuga ao serviço militar e a procura de melhores condições de vida, impeliram entre 1954 e 1974, a saída legal ou clandestina, de mais de um milhão de portugueses em direção ao território francês.

Essencialmente masculino e oriundo das regiões rurais do norte e centro do país, o fluxo migratório em massa com destino à França, como sustenta Mélanie Mélinda Dias Lopes na tese de mestrado Memórias do salto: memórias da emigração ilegal para França, entre 1954 e 1974, “foi um factor de aumento da probabilidade de celibato para a população feminina (…) ou às chamadas viúvas de vivos”. Ainda que, a partir dos anos 60 as mulheres tenham começado “a emigrar para França com os maridos ou juntar-se a eles posteriormente, e assim assiste-se a um reagrupamento familiar”.

Como realça Jorge Pinto na introdução do seu novo livro Tamem Digo – Uma História de Migrações, a “Maria do Carmo, a Avó Carmo, foi e é uma mulher como tantas outras, com uma vida que poderia ter sido a das vossas avós, das vossas mães ou das vossas irmãs. Nasceu pobre numa aldeia no Norte de Portugal, sobreviveu, emigrou, regressou, tentou viver, amou e foi amada. Onde esteve, foi sempre uma entre muitos. E é por isso que quero falar dela. A História está cheia de heróis, falta-nos falar da gente comum, dos seus sucessos e falhanços, das suas alegrias e tristezas”.

Daniel Bastos/MS

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