Aida Batista

Disputa entre o cidadão e o cartão de cidadão

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Créditos: DR

A tempo entrei no tempo sem tempo dele sairei. – Vitorino Nemésio

Amigos de há muitos anos, vizinhos da mesma rua, juntámo-nos para um almoço. A conversa fluiu normalmente, como sempre acontece entre aqueles que têm vivências comuns, feitas de memórias que, nestas ocasiões, se sentam connosco à mesa sem serem convidadas. Não precisam de tal figura protocolar porque, vivendo dentro de nós, estão sempre presentes.

A determinada altura, e muito comum entre “retornados”, damos por nós a falar dos tempos difíceis das nossas chegadas, dos amigos comuns (o que fazem e por onde andam) e dos que já partiram.

Enquanto os pais destes meus amigos se ficaram por Lisboa, os meus regressaram à aldeia de Pinheiros, onde tinham nascido e iniciado a sua vida conjugal, socalco a socalco, como a paisagem do Douro vinhateiro, que o poeta André Moa muito bem define num dos seus poemas: “Nasci dentro de um lagar de espanto”.  Meu pai, não sendo poeta, nunca conseguiria dizer que nascera num “lagar de espanto”, mas, como assalariado, pisou as uvas que o diabo amassou.

A determinada altura da conversa, um dos elementos do grupo disse: “Ainda me lembro… foi há mais de trinta anos… de um dia ter passado pela vossa aldeia e visitado os teus pais. Fez uma pausa, denunciadora da busca do banco de imagens que guardava, e acrescentou: “Já velhotes, os dois”!

A palavra “velhotes”  fez, de imediato, soar uma campainha na minha cabeça. Pelas minhas contas, adivinhava a idade do meu amigo, mas quis certificar-me.

– Que idade tens? – E a resposta veio pronta: 72.

E a conversa descambou para o conceito de tempo e a perceção que dele temos à medida que vamos envelhecendo. E fui conduzindo o tema de modo a que mais facilmente lá chegássemos.

– A minha mãe morreu em 1989, com 61 anos. Segundo o que disseste, tinham-na visitado uns anos antes. Repara, ela nem era ainda sexagenária! Contudo, tu vias neles dois velhotes! Como te consideras hoje nos teus 72 anos, cheio de vitalidade, entregue a uma série de atividades, que realizas com a maior destreza, e a conduzir centenas de quilómetros, com regularidade, para ires/vires à terra?

Caiu em si, rimo-nos e chegámos todos à mesma conclusão. O tempo cronológico não muda. O ano tem sempre o mesmo número de meses, os meses perfazem 365 ou 366 dias (caso seja bissexto), o ponteiro dos dias percorre certeiramente as 24 horas, e por aqui me fico para não me alongar com os minutos e os segundos. O Cronos, nome do deus do tempo na mitologia grega, é sempre o mesmo em todos os calendários, sejam eles em papel de vários formatos, ou das nossas agendas digitais, que têm a vantagem de nos alertarem com um sinal sonoro, libertando a nossa memória de qualquer preocupação. O que muda é a perceção do tempo.

Quando somos novos, todos os outros, com mais uns aninhos em cima, são velhos. Lá chegados, negamos o envelhecimento que se apoderou de nós, porque, enquanto nos sentimos vigorosamente ativos, achamos que não, que ainda não somos velhos. Esquecemo-nos que não somos a imagem que o espelho diariamente nos devolve, mas aquela que o olhar dos outros tem de nós, e há muito colocou uma etiqueta no corpo que carregamos, como mercadoria cujo prazo de validade está em vias de ser atingido.

Quando seriamente me analiso (porque também carrego a velhice como companheira), acho que os da minha idade já muitas vezes pensaram da mesma maneira que eu. Envelhecer, será sempre a luta diária entre os sonhos da nossa mente, que a todo o lado nos levam, e as limitações averbadas na data de nascimento.

A disputa entre o cidadão e o cartão de cidadão – a disputa da nossa puta de vida!

Aida Batista/MS

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