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Sob pressão Setor de urgências em Ontário pede por socorro

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“A gente mora no Canadá. É um país maravilhoso e rico. Por que as pessoas estão tendo que esperar cerca de 10 horas nas urgências para serem atendidas? Deveria ser melhor, ser diferente.” O desabafo foi ouvido pela nossa equipe de reportagem em frente a um dos maiores hospitais de Mississauga e foi feito por Larissa Traviso, cujo pai aguardava para a realização de um procedimento cardíaco agendado, que acabou demorando horas a mais do que o planejado porque o médico responsável teve que ir atender pacientes no setor de urgências.

Acompanhada da mãe ela aguardava por mais informações do lado de fora do hospital e compartilhou connosco a insatisfação com a atual crise no sistema de saúde de Ontário, e do país de forma geral, que parece agora atingir o pico, dizendo que considera que os profissionais de saúde deveriam ser mais bem recompensados pelo trabalho importante e exaustivo que exercem: “É preciso pagar salários mais altos, oferecer melhores condições de trabalho para que esses profissionais queiram permanecer nas suas funções. Acho que eles se sentem exaustos depois da pandemia e não têm o incentivo necessário por parte da província, então acabam deixando, ou a profissão ou Ontário, em busca de oportunidades melhores”, conclui. A mãe, Rose Traviso, faz coro ao pedido e considera que algo precisa ser feito pelos governos federal e provincial e até lá: “Resta à população esperar. Essa é a realidade em que vivemos”.

Esperar tem sido um verbo bastante conjugado, e praticado, pelos moradores de Ontário que precisam de atendimento médico no setor das urgências nos últimos meses. Se a espera pelo atendimento antes da pandemia nesse setor já levava algum tempo, e a chamada “medicina de corredor” já era realidade, com pacientes sendo acomodados nos corredores das instituições por falta de camas, agora a situação está ainda mais delicada e recordes de lotação e espera estão sendo alcançados. As últimas estatísticas publicadas pela Ontario Health mostram que os pacientes que chegaram às urgências em maio e foram internados no hospital passaram em média 25 horas no setor antes de conseguir um leito hospitalar.

Segundo especialistas em saúde os principais fatores que impulsionam os longos tempos de espera são, em grande parte, efeitos secundários da pandemia: as altas taxas de funcionários que estão doentes ou incapazes de trabalhar porque foram expostos a COVID-19, pacientes que agora têm doenças agravadas porque adiaram o tratamento durante o auge da pandemia e os atrasos na realização de procedimentos que só se acumularam, somado a isso outras questões como a falta de médicos de família- só em Ontário, segundo a Ontario College Of Family Physicians, cerca de 1,3 milhões de pessoas não têm acesso a esses profissionais, o que os empurra a procurar atendimento nas urgências- além da desistência de alguns profissionais, que por falta de incentivos financeiros abandonam as carreiras, fenômeno que vem sendo registrado em especial entre os enfermeiros.
Em Brampton conversamos com uma mãe de família, que por questões profissionais, ela também atua como personal support worker, preferiu não ter o nome divulgado. Ela mora na cidade há 20 anos e nos relatou a situação que vivenciou com o filho no início desse mês: “Viemos para o hospital porque ele estava com suspeita de apendicite. Demorou cerca de cinco horas para ele ser avaliado pelo médico, foram feitos alguns testes, e no total ficamos 12 horas aqui no hospital. Se a pessoa estiver com muita dor é sofrido esperar todo esse tempo. Não deveria ser assim.” A filha dela conta que recentemente uma amiga chegou à instituição, o Brampton Civic Hospital, único hospital com emergência 24 horas na cidade, depois de ter sofrido um acidente de trabalho e aguardou mais de seis horas para ser atendida, sendo que foi constatato que estava com o braço quebrado. “É complicado porque os cidadãos pagam os impostos e acho que merecem um tratamento melhor. Tudo bem que no final das contas você é atendido, mas esperar tantas horas por isso não é razoável”, considera ela.

Mãe e filha concordam que a cidade precisa urgentemente de um novo hospital: “Eles realmente precisam de mais médicos e enfermeiros para atender à população e investir dinheiro nisso. Outras cidades como Mississauga, que é aqui do lado tem três hospitais. A nossa população cresceu muito nos últimos anos, é preciso investir mais.” De fato, Brampton, segundo números do último Census de 2016, conta com quase 600 mil habitantes e tem 96 leitos hospitalares a cada 100 mil habitantes, menos da metade da média provincial de 220 leitos. A vizinha Mississauga tem 160 leitos por 100 mil moradores. A promessa do governo provincial de Doug Ford é de investir $ 21 milhões para expandir a capacidade hospitalar na cidade, sendo que $18 milhões serão destinados à criação de um novo departamento de emergência no Peel Memorial Center for Integrated Health and Wellness e $3 milhões na expansão do tratamento oncológico no Brampton Civic Hospital.

Esses foram apenas alguns relatos que nossa reportagem coletou percorrendo dois dos principais hospitais de populosas cidades da GTA. A situação em Toronto, como os meios de comunicação social vêm relatando frequentemente, não é diferente, e se espalha também por áreas menos povoadas da província, que por vezes tiveram que fechar as portas de seus departamentos de urgências por não ter profissionais suficientes para dar conta da demanda de pacientes, como foi o caso neste mês na cidade rural de Perth, na área leste de Ontário.
Uma soma de fatores e insatisfações que estão fazendo com que o sistema de saúde de Ontário atualmente opere no seu limite, ou até acima dele, e deixa profissionais de saúde exaustos, física e emocionalmente, e pacientes frustrados e descontentes com o tratamento que recebem. Até que novos desenvolvimentos aconteçam resta aos pacientes de Ontário esperar…por dias melhores e melhores condições nessa área tão fundamental e torcer para que não precisem contar tão cedo com atendimento médico.

Lizandra Ongaratto/MS

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