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“A guitarra portuguesa é uma bandeira de Portugal”

Marta Pereira da Costa

A guitarra portuguesa é uma bandeira-capa-mileniostadium
Creditos: Youtube/Marta

A miúda chegou no meio de homens de dedos calejados de anos a dedilhar a guitarra portuguesa e disse que queria aprender. Acharam-lhe graça e dispuseram-se a ensinar. Enormes no seu imenso talento, acrescentado de anos e anos de experiência, passaram o seu saber à miúda, que se transformou na primeira mulher a tocar guitarra portuguesa profissionalmente. Marta Pereira da Costa é hoje um nome consagrado no meio fadista, que quando começou a afirmar-se como instrumentista e com um projeto claro – dar voz à guitarra portuguesa -, sentiu que provocava algum desconforto nos seus pares, todos homens, por ser mulher e, de certo modo, se estar a intrometer num meio muito masculino. A sua determinação ajudou-a a prosseguir e percorrer o seu caminho, desbravando caminhos para outras que, entretanto, surgiram. 

Nesta edição do Milénio Stadium, dedicada à música portuguesa no mundo, pareceu-nos adequado trazer-vos um pouco da história de vida de Marta Pereira da Costa que toca o instrumento que nos identifica enquanto povo.

Milénio Stadium: A sua ligação à música começou pelo piano. Foi com esse instrumento que estruturou a sua formação musical. Porque é que aos 18 anos mudou para a guitarra portuguesa? O que é que a atraiu neste instrumento?

Marta Pereira da Costa: O grande responsável é o meu pai. O piano desde pequena que sempre foi a minha grande paixão. Eu dizia que queria ser pianista concertista, como a Maria João Pires. Entretanto aprendi guitarra clássica aos 8 anos e só mesmo mais tarde, aos 18, é que aprendi e comecei a tocar guitarra portuguesa. Isto porque o meu pai vinha dizendo que adorava a que eu tocasse, que gostava que eu aprendesse e eu no início não o levei muito a sério, mas disse-lhe –”então tem que me arranjar um bom professor” e ele conheceu o Carlos Gonçalves, que foi guitarrista da Amália e eu fiquei encantada desde a primeira aula. É um guitarrista incrível, tem uma história imensa, cativou-me logo, emprestou-me uma guitarra para trazer para casa. E eu tive alguma facilidade, porque como já tinha tocado guitarra clássica a minha mão esquerda estava adaptada a um braço de cordas. Não posso dizer que tenha sido fácil, mas pelo menos consegui logo fazer alguma coisa e tirar som da guitarra. Depois quis conhecer um mundo que não conhecia muito bem e o meu pai ficou babadíssimo por me levar às casas de fado e deu-me um apoio enorme. Isso facilitou muito, para eu me sentir acompanhada.

MS: O facto de a guitarra portuguesa ser um instrumento ligado à figura masculina, desafiou-a?

MPC: Na altura eu encarei como um instrumento novo, achei graça de serem homens os guitarristas e eu ser uma mulher e de eles acharem graça eu tocar, o que também fez com que eu quisesse mostrar que estava a querer mesmo aprender. Mas não sentia isso como “ah estou a fazer uma coisa única, não há mulheres a tocar guitarra portuguesa”, era mais por graça. Só mesmo em 2012 quando comecei a gravar o disco do meu marido da altura, o Rodrigo Costa Félix, é que tive que levar as coisas mais a sério. Até então eu não conseguia tocar sozinha, tinha que ser sempre ao lado de outro guitarrista, e essa experiência é que me obrigou a trabalhar muito para poder tocar sozinha. Quando me disseram que eu tinha que tocar tudo sozinha do princípio ao fim eu disse “vocês estão malucos”, mas acabámos por encarar aquilo como uma experiência e correu tudo muito bem. Eu dei tudo de mim, estudei, investiguei, ouvi várias versões dos fados tradicionais que eram cantados naquele disco e fiz as minhas próprias versões. E aprendi muito com esse processo.

MS: Já falámos de Carlos Gonçalves, mas na realidade a Marta teve a sorte de aprender com grandes mestres como o Mário Pacheco, Fontes Rocha e muitos outros – todos homens, claro. Sentiu alguma vez, algum tipo de resistência pelo facto de ser mulher e estar a intrometer-se num mundo muito masculino?

MPC: Ao princípio não. Estava a começar e era mais uma graça uma miúda a querer aprender e a querer tocar, mas já senti mais tarde, quando começo a querer ganhar o meu espaço, defender o meu projeto de instrumentista, dar voz à guitarra portuguesa… há algum preconceito, ainda. Ainda tenho que provar, mas tenho muita vontade de provar que estou aqui para fazer um trabalho bem feito, com muita paixão, muita entrega. Não estou aqui para competir com homens. Felizmente vão aparecendo mulheres a tocar guitarra portuguesa, ainda recentemente convidei a primeira rapariga a terminar uma licenciatura em guitarra portuguesa para tocar comigo, chama-se Mariana Martins, e achei que foi um momento muito especial eu trazê-la para o concerto e juntas termos preparado um momento só de guitarra portuguesa tocada por duas mulheres. Foi também um momento de grande simbolismo, como que a dizer venham mais outras porque nós conseguimos fazer não digo melhor, mas de maneira diferente dos homens. E isso só pode trazer coisas boas para a guitarra portuguesa.

MS: Acompanhou fadistas, como é tradicional quando se fala do trabalho de um guitarrista, mas em 2012 deu um salto na sua carreira e começou o seu trabalho a solo. Curiosamente estreou-se em Toronto. Como foi o espetáculo da estreia?

MPC: É verdade. Eu não me esqueço desse concerto. Correu muito bem. Eu estava muito, muito nervosa porque éramos dois no palco – eu e o Pedro Pinhal – e eu não tinha qualquer experiência. Felizmente a Hugh’s Room é uma sala muito especial, estava muito composta e foi espetacular. Havia uma muito boa energia do público e eu o que senti foi que tinha tocado muito melhor do que estava a contar, porque o público puxou por mim e eu dei tudo.

MS: Há vários momentos marcantes no seu percurso, mas o facto de passar a integrar a banda de Dulce Pontes terá sido particularmente importante para lhe dar mundo.

MPC: Primeiro a Dulce Pontes é uma grande referência para mim. Desde sempre. Tem uma voz incrível, as músicas dela são lindíssimas, são épicas. Tenho um orgulho enorme em a conhecer e ter feito este percurso com ela, passando por palcos lindíssimos pelo mundo inteiro. Ela é uma pessoa muito especial, muito dada ao seu público. Ela tinha filas de espera de duas horas depois dos concertos e recebia todos até ao último. No final dos concertos, as pessoas entregavam flores em cima do palco e cá não se percebeu que ela continuava muito ativa fora. É o país que temos – que não respeita a cultura, não respeita os artistas, não nos valoriza. E nós temos que fazer muito por nós e fazemos também muito pelo nosso país, porque para nós é um orgulho levarmos o nome de Portugal para o mundo e tocar a guitarra portuguesa que é uma bandeira de Portugal.

MS: Há um momento que foi determinante para a projeção internacional na música portuguesa, que foi quando o Fado foi reconhecido como Património Imaterial da Humanidade. Sentiu que a partir daí começou a ser mais solicitada?

MPC: Sim. Senti que começou a haver mais procura. De certo modo, esse crescimento aconteceu em paralelo com os espetáculos que eu já andava a fazer pelo mundo. E espetáculos puxam espetáculos. Por isso, aproveitei essa boleia do reconhecimento mundial do fado.

MS: Entretanto como solista em 2019 começou a atuar em grandes salas ou em grandes eventos como o NOS Alive ou o EDP Fado Café e até aqui em Toronto no Uptown Waterloo Jazz Festival. Conseguiu finalmente provar que a guitarra portuguesa é muito mais do que um instrumento que acompanha fadistas?

MPC: Tenho a certeza que sim. Acho que tenho que continuar a mostrar isso a quem ainda não conhece, mas aquilo que já foi feito já deu para provar que sim. A guitarra portuguesa tem um timbre muito especial, tem uma presença muito forte e que vale por si só. Fica lindíssima a acompanhar fado, mas pode ter outro papel de solista e eu tento dar-lhe essa importância e esse destaque que sinto que ela merece. O projeto que tenho de lhe dar voz, junta-se a outro que a casa com outros instrumentos e essas fusões dão-nos sempre novidades e u vou procurar ao longo da minha carreira ir sempre juntando a guitarra portuguesa com instrumentos que ainda não conheço.

MS: Com a sua experiência internacional o que me diz da implantação da música portuguesa no mundo?

MPC: Os portugueses que estão espalhados pelo mundo têm umas saudades enormes de tudo o que é português. O fado é se calhar aquela marca que é mais exportada. Não é o único, mas de facto o fado é mais solicitado infelizmente, porque nós temos muito boa música portuguesa, mas não consegue ser tão bem escutada como o fado. É como acontece com o flamenco, o chorinho… essas sonoridades são mais fáceis de serem escutadas, porque são identitárias de um povo.

MB/MS

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