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Canadá em 2022: Retrospetiva

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O ano de 2022 foi cheio de acontecimentos marcantes e até históricos no Canadá. Os primeiros meses do ano já deram um gostinho do que esperaríamos, quando o Freedom Convoy tomou as ruas de Otava e fez com que o governo federal adotasse medidas até então inéditas. Ao longo do ano as restrições impostas pela pandemia foram abrandando, mas o setor econômico ainda sofre as consequências disso, o que foi agravado pela guerra instaurada na Ucrânia, a partir da invasão da Rússia, e que mexeu com economias mundo afora inflacionando a níveis recordes os preços dos combustíveis e dos alimentos no nosso país. Tivemos também eleições provinciais, visitas históricas de membros da realeza britânica e do Papa Francisco, o que reacendeu polêmicas sobre as relações dessas instituições com o Canadá, entre diversos outros acontecimentos que marcaram o ano que se encerra. Nossa reportagem selecionou alguns desses fatos que impactaram o país neste ano e traz um pequeno resumo do que significaram para nossa história.

Lizandra Ongaratto/MS

Freedom Convoy

No início do ano de 2022 diversas restrições relacionadas à pandemia de Covid-19 ainda vigoravam no Canadá, entre elas a obrigatoriedade de vacinas para viagens, restrições no comércio e espaços públicos, limitação do número de pessoas no convívio social, entre outras. Diante disso, o que começou como uma indignação de dois caminhoneiros em relação a possibilidade de reintrodução de mandatos de vacina para os profissionais que atravessavam os postos de fronteira do Canadá em direção aos Estados Unidos à trabalho, tomou uma proporção gigante e se transformou numa das maiores manifestações já vistas no país e fez com que o governo federal invocasse uma lei histórica.

Através das redes sociais a causa ganhou visibilidade e no fim milhares de pessoas descontentes com a política adotada pelo primeiro-ministro Justin Trudeau e seus ministros na pandemia se juntaram ao protesto. Os manifestantes ocuparam o centro da cidade de Otava e declararam que não iriam embora até que todas as restrições e mandatos da COVID-19 fossem revogados. As autoridades expressaram preocupação com o impacto econômico dos bloqueios nas fronteiras.

Moradores e comerciantes da região se tornaram “reféns” da situação, e a liberdade deles de ir e vir foi totalmente comprometida. Cenas de desordem, cartazes desaforados dirigidos a Justin Trudeau e seu partido liberal, depredação de patrimônio publico…o caos tomou conta da capital do país e a polícia local não parecia estar fazendo frente a tamanha desordem. As imagens rodaram o mundo e o Canadá passou a ser manchete em vários países devido ao descontrole social provocado pela manifestação.

A partir daí a situação tomou um novo rumo. Foi em 14 de fevereiro que Trudeau decidiu invocar a Lei de Emergências pela primeira vez desde sua aprovação em 1988. Isso deu amplos poderes para as forças policiais retirarem os manifestantes e bloquearem suas contas bancárias fazendo com que a permanência deles ali se tornasse insustentável. Organizadores e manifestantes foram presos, os veículos removidos e os bloqueios existentes desmontados. Em questão de poucos dias o protesto foi totalmente dissipado, mas as consequências desse fato histórico no setor político e social do país ainda renderiam muitos outros desdobramentos, que se arrastaram até o final deste ano e na verdade ainda estão sem conclusão definitiva. O acionamento da “Lei de Emergência” foi bastante polêmico e considerado uma arbitrariedade pela oposição e outros críticos. No dispositivo legal dessa legislação está prevista a formação de uma comissão de inquérito de Emergência de Ordem Pública para que analise se o governo federal teve de fato razão em invocar a Lei de Emergências para acabar com a manifestação. No mês de novembro, durante seis semanas essa comissão presidida pelo Comissário Paul Rouleau ouviu moradores, policiais, manifestantes e políticos obre o que aconteceu no inverno passado. O depoimento de Justin Trudeau fechou os trabalhos do grupo e agora um relatório final sobre as conclusões deve ser divulgado no mês de janeiro de 2023.

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Pedido de desculpas do Papa Francisco

“Eu peço desculpas em nome da Igreja Católica”. A frase emblemática e histórica foi proferida pelo Papa Francisco em Maskwacis, Alberta, no primeiro evento oficial da chamada “viagem de peregrinação e penitência” que trouxe o pontífice ao Canadá em julho deste ano. Esse pedido de perdão era aguardado há anos por milhares de integrantes da comunidade indígena canadiana. Centenas daqueles que estavam no evento inclusive eram sobreviventes, ou familiares, de pessoas afetadas pelo Sistema de Escolas Residenciais, financiadas pelo Governo canadiano e administradas na sua maioria pela Igreja Católica que funcionaram no país entre 1870 e 1996.

Mais de 150.000 crianças indígenas foram separadas de suas famílias e levadas à força para essas escolas residenciais. Nesses locais as crianças eram espancadas por falarem suas próprias línguas e muitas foram abusadas sexualmente em um sistema que a Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá chamou de “genocídio cultural” e que até hoje marca essa comunidade no país. Durante a viagem, as desculpas do Papa provocaram fortes emoções e alguns elogiaram o gesto, tido como um primeiro passo para a reconciliação com o povo indígena, no entanto outros sobreviventes disseram que o discurso e as atitudes ficaram aquém das expectativas e que Francisco não se desculpou com clareza suficiente pela igreja como instituição.

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Casal real britânico visita Canadá e a morte da rainha

Em maio o casal real britânico, o então príncipe Charles e a duquesa de Cornwall, Camilla, fez uma viagem de três dias ao Canadá como parte das celebrações canadianas do Jubileu de Platina da rainha. Durante a estadia em solo canadiano, o casal visitou Newfoundland and Labrador, Ontário, e os Territórios do Noroeste. Além disso, a visita teve um foco especial na reconciliação com os povos indígenas, que o príncipe enquadrou como um “processo vital”.

O que acontece é que a cada vez que membros da realeza visitam o Canadá ressurge a polêmica sobre a atual necessidade de o país ainda estar vinculado a monarquia tendo a rainha como chefe de Estado. Os gastos que isso representa para os cofres públicos estão entre os principais pontos debatidos. Segundo informações obtidas pela imprensa canadiana por meio de pedidos de acesso a informações, pelo menos $ 1,4 milhão foram gastos com dinheiro dos contribuintes para arcar com as despesas e logística necessária para receber tais personalidades. Nas aproximadamente 57 horas em que Charles e Camilla estiveram no Canadá para a celebração foram gastos cerca de $25 mil por hora. Os números não incluem despesas cobertas pelos contribuintes britânicos.

Cerca de quatro meses depois outra notícia envolvendo a realeza britânica ganhou as manchetes mundiais e claro, teve repercussões aqui no país. Em 8 de setembro a rainha Elizabeth II morreu desencadeando uma série de protocolos oficiais por aqui, com a monarquia constitucional tendo um novo soberano: o rei Charles III. A mesma questão, da necessidade de manter os laços com a monarquia, voltou à tona à medida que diferentes pesquisas de opinião apontam sempre para a mesma direção: os canadianos são na maioria indiferentes a monarquia e não entendem o porquê de o país ainda estar vinculado a instituição. Nesse mesmo período alguns canadianos pareciam estar mais preocupados era com a possibilidade de um feriado na segunda-feira em que aconteceu o funeral da rainha, 19 de setembro, o que na maioria das províncias acabou não se concretizando.

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Apagão da Rogers deixa milhares de canadianos incomunicáveis

Naquele dia 8 de julho milhares de canadianos acordaram incomunicáveis. Uma falha no sistema da maior companhia de telecomunicações do país, a Rogers, deixou os canadianos sem acesso a internet e ligações telefônicas durante horas e em alguns casos até dias. Até mesmo o número de emergências 911 ficou fora de operação. A interrupção desencadeou uma série de falhas de sistemas e impediu pessoas de trabalharem, transações comerciais com o uso de cartões de débito de serem efetuadas, sem contar a interrupção do acesso a determinados serviços governamentais.

O prejuízo e a incredulidade dos canadianos diante da situação – afinal nos mostrou o quão dependentes somos de uma empresa em particular – levou a situação a ser debatida a nível federal com os altos executivos da empresa tendo sido chamados para prestar esclarecimentos a uma comissão parlamentar em Ottawa e serem obrigados a delinear medidas para garantir que isso não acontecesse novamente. Dias depois em uma carta para os clientes, o CEO da Rogers, Tony Staffieri, destacou um “plano de maior confiabilidade” da empresa em resposta à interrupção de serviço, anunciando um investimento de cerca de 10 bilhões de dólares nos próximos três anos em questões como supervisão das redes, testes e inteligência artificial.

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Reeleição nas esferas provincial e municipal

Tanto em Ontário quanto na cidade de Toronto podemos usar a expressão popular “tudo novo, de novo” para falar sobre as eleições das principais lideranças políticas neste ano. Nas eleições de junho para Premier de Ontário, Doug Ford, do Partido Conservador, foi reeleito com ampla maioria no governo. Segundo especialistas políticos foi a maneira como ele lidou com a pandemia de Covid-19 um dos trunfos dessa vitória, já que nesse período Ford teria se estabelecido como um líder equilibrado, que realizava conferências de imprensa diárias para informar o público e fazer vários anúncios de medidas políticas. Ford admitiu que a pandemia foi um de seus momentos mais difíceis como gestor público e embora os partidos de oposição tenham frequentemente criticado os PCs por suas decisões, ao fim isso não pareceu ter influenciado a opinião pública diretamente. Reeleito, Doug Ford estabeleceu como prioridade de seu governo a construção de estradas, moradias a preços acessíveis e a recuperação do sistema de saúde que passa por sérios constrangimentos em Ontário.

No final de outubro foi a vez de John Tory afirmar sua força diante do eleitorado de Toronto que o reelegeu para o terceiro mandato consecutivo. Se cumprir os quatro anos que tem pela frente ele se tornará o autarca que mais tempo esteve à frente da Câmara Municipal na cidade. Tory disse que pretende seguir trabalhando numa série de grandes projetos de infraestrutura, incluindo um plano de trânsito de $28 bilhões para a área da Grande Toronto que ele ajudou a negociar com o Governo de Ontário. Além disso a construção de mais moradias também é prioridade e para tanto vai poder usufruir dos poderes ampliados de autarca concedidos a ele e ao autarca de Otava através de uma lei apresentada pelo Governo Ford. A ideia é facilitar a construção de moradia acessíveis na cidade, desburocratizando o processo. Essa legislação gerou muitas críticas e foi classificada como antidemocrática pela maioria dos vereadores de Toronto e partidos de oposição.

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