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“Quem somos nós para definir o que é uma boa mãe”

Valda lopo

No próximo domingo celebramos aqui no Canadá o Dia da Mãe, mas na realidade a parentalidade não tira folgas. Quem é mãe, todos os dias desempenha esta função, seja para cuidar, apoiar ou consolar quando tudo corre mal. É um papel que apesar de não ser remunerado é um dos mais desafiantes e gratificantes na vida de uma mulher. Ter nos braços um ser humano que vai crescer e ter a capacidade de lhe transmitir valores e princípios que achamos serem essenciais para viver é de uma responsabilidade tremenda.

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Crédito: DR.

A maternidade não traz manuais e cada uma das mães tem de improvisar e seguir os seus instintos. Mas para a psicóloga Valda Lopo, existem ingredientes obrigatórios como o amor e o carinho. A Psicologa Valda Lopo, C.Psych.,  tem quase 30 anos de prática divididos entre o Brasil e o Canadá e e diretora da clínica de Psicologia Integration, localizada no 200 na Finch Ave West-Suite 215. Depois de trabalhar 13 anos para o Toronto Catholic District School (TCDSB) como psicóloga escolar, Valda Lopo reconhece que a pandemia afetou filhos e pais e que colocou muita pressão em cima da mulher porque ela teve de assumir todos os papéis em simultâneo dentro de casa: mãe, esposa, educadora, cuidadora e funcionária. Mas também é verdade que muitas mães com o teletrabalho passaram a ter mais tempo para estar com os filhos e estreitar a relação.

Milénio Stadium: O que é que uma mãe deve ser para um filho?

Valda Lopo: Um ambiente bom para uma criança crescer – a nível físico, intelectual e emocional- é um ambiente onde ela tenha respeito por si e pelo seu crescimento, seja tratada com amor, com carinho, com compreensão, seja disciplinada e seja respeitada no seu desenvolvimento em geral. Aí ela vai ter saúde mental e saúde física. Existem ambientes que promovem um desenvolvimento saudável de uma criança. Um ambiente onde a criança é tratada com amor, carinho, respeito, sem abuso emocional, sexual ou físico. Penso que a mãe que consegue criar este ambiente é uma boa mãe, mas quem somos nós para definir o que é uma boa mãe. Durante a pandemia fiquei muito sensibilizada com as mães que tiveram de tomar conta de filhos com deficiências intelectuais, como o caso de autistas, acho que elas merecem o nosso aplauso.

MS: Como é que é que deve ser a relação entre mãe e filho?

VL: A mulher catalisa todas as necessidades da criança, mesmo quando está sob muita pressão, como foi o caso da COVID-19. O desafio, e eu falo por grande parte das minhas pacientes, mulheres que eu admiro muito, a mulher foi obrigada a trazer para dentro da cozinha o seu trabalho e a escola dos filhos. No caso das mulheres imigrantes foi ainda mais difícil porque às vezes têm dificuldades com a língua e tiveram que ajudar os filhos na escola. Grande parte das mulheres deram conta do recado, mas muitas delas estão aqui sozinhas no Canadá e não podem contar com o apoio da família. Mas por outro lado a pandemia também foi uma grande oportunidade. Muitas mulheres disseram para mim que agora têm mais chance de estar com os filhos porque podem trabalhar a partir de casa.

MS: Quais são as principais queixas das suas pacientes que têm filhos? 

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Psicóloga Valda Lopo. Crédito: DR.

VL: As mulheres estão sobrecarregadas com os papéis de mãe, esposa e trabalhadora. Muitas mães às vezes ainda cuidam dos seus pais que são mais velhos. São muitos papéis debaixo do mesmo teto. Antes quando elas iam até ao escritório existia algum tempo de distração. As mães saiam de casa e deixavam os filhos na escola e só depois é que entravam no papel de funcionárias. Dentro de casa o papel ficou um pouco confuso porque todos os papéis decorrem debaixo do mesmo teto. Psicologicamente às vezes é difícil para a mãe poder dizer agora estou trabalhando, por exemplo se for professora, depois vou para a cozinha, agora eu sou esposa e depois vou cuidar dos meus filhos e ser mãe. Uma das recomendações que os psicólogos deram para as mães foi: estabelece uma rotina. Quando você começar a trabalhar você só trabalha porque trocar de papel o tempo todo causou muito estresse. Muitas mães entraram no meu escritório e disseram que não estavam a dar conta de tanta pressão. Os fatores de saúde mental são irritabilidade, agitação, sentimento de falha, medo, problemas para adormecer, problemas na relação conjugal, porque também acaba por afectar a relação da mulher com o seu parceiro, e isto sem falar do impacto no casal, estamos a focar mais na mulher e nos filhos.

VL: Nós sabemos que não é o tempo que uma mãe passa com o filho que faz a diferença, mas sim a qualidade do tempo. Hoje em dia por exemplo muitos pais estão com os filhos, mas passam a maioria do tempo no celular ou no computador. O meu conselho é se você pode poder passar meia hora com o seu filho, mas tempo de qualidade isso promove muito mais a saúde mental do que uma mãe que gasta cinco horas e mal conversa com o filho e cada um está no seu celular.

MS: Concorda com a criação de uma rede nacional de creches?

VL: O acesso a creches acessíveis em Toronto sempre foi um problema e nem todos as mães podem abdicar do seu emprego para ficar a tomar conta dos filhos. Claro que com a pandemia muitas mulheres ficaram a trabalhar a partir de casa e a tomar conta dos filhos ao mesmo tempo. Mas um dia vamos voltar ao modelo antigo e as mães vão regressar ao escritório e vão ser obrigadas a colocar os filhos em creches. O plano do governo federal de tornar as creches mais acessíveis é claro que é um plano bom e acho que ajudaria muito as famílias, sobretudo os que têm rendimentos baixos.

MS: Os pais devem ser os melhores amigos dos filhos?

VL: Os pais são alguém com quem os filhos podem partilhar ideias e conversar, porém, existe uma certa hierarquia onde os pais têm de ter um papel de cuidador e disciplinador. E quando digo disciplina não é autoritarismo, mas a criança precisa de limites. É claro que é bom serem amigos, mas desde que percebam que existem regras.

MS: Diria que a sociedade canadiana, em geral, dá o devido valor às mulheres que são mães?

VL: Acho que não, mas falamos muito mais quando chega o dia da mãe, isso é verdade. Acho que devíamos falar disto o ano inteiro. Mas julgo que uma forma de reconhecermos talvez seja esta rede nacional de creches que o governo federal quer criar. Mais acesso a creches seria um reconhecimento para com as mães e para com as famílias. Mas nós como sociedade geralmente somos assim, reconhecemos num dia especial, mas depois voltamos a esquecer e a tomar como garantido.

Joana Leal/MS

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