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Portugal quer vigiar covid como a gripe

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Mudança pode acontecer na primavera. Mas só a DGS pode tomar decisão de tratar doença como mais um vírus respiratório.

O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) está a trabalhar numa eventual integração da vigilância do SARS-CoV-2 nas redes-sentinela da gripe e outras infeções respiratórias. Uma mudança de estratégia, já recomendada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), que está ainda no plano teórico, cabendo a palavra final à Direção-Geral da Saúde (DGS). Uma transição que pode ter na primavera/verão o momento certo para ser feita.

A ideia, passada a vigilância de emergência atual, é passar a monitorizar o SARS-CoV-2 da mesma forma que fazemos há anos com a gripe e outras infeções respiratórias, como o rinovírus ou o vírus sincicial respiratório. Através quer das redes-sentinela, quer da rede de laboratórios.

Em 2020, o INSA, em conjunto com a DGS, criou uma nova rede-sentinela, suportada nas áreas de atendimento dedicados aos doentes respiratórios (ADR). “Um protótipo desenhado para monitorizar a gripe, mas que pode ser usado para um piloto para fazer essa transição”, explica, ao JN, Ana Paula Rodrigues, coordenadora da rede de médicos-sentinela. Sublinhando ser “uma reflexão mais teórica do que se tem vindo a falar, não sendo por isso um plano para o futuro, mas algo que pode ser adaptado para o futuro, até porque não é o INSA que coordena a vigilância para a covid [é a DGS], eventualmente poderá vir a ser”.

COMO FUNCIONA?

O sistema de vigilância da gripe, em Portugal, é suportado na rede de médicos-sentinela, serviços de urgência/obstetrícia, ADR, unidades de cuidados intensivos e pela rede de laboratórios (ler ao lado). “O que temos, desde sempre, é um modelo de vigilância sentinela, por amostragem, em que quando o utente vai ao médico de família ou ao hospital são colhidas algumas amostras para vigilância”, afirma a médica de Saúde Pública.

Desta forma, prossegue, “conseguimos conhecer os vírus que estão em circulação e as características clínicas dos doentes, informação que usamos também para a efetividade da vacina da gripe”. A que se junta a rede de laboratórios para o diagnóstico da gripe e que permite uma caracterização dos vírus e a sua relação com as vacinas que estão a ser administradas. Assim, os sistemas de vigilância asseguram uma componente epidemiológica e virológica.

MAIS UM VÍRUS RESPIRATÓRIO

O momento presente não é, de todo, o correto para fazer esta transição, por nos encontrarmos “numa situação pandémica de elevadíssima intensidade e com orientações de isolamento, identificação de contactos”, frisa Ana Paula Rodrigues. Mas há “alguns pressupostos a serem reunidos para que a transição possa ser feita”, concretamente a menor severidade da doença e a taxa de vacinação da população.

A determinada altura, “vamos passar desta situação pandémica para uma situação epidemiológica próxima da gripe”. E aí, sim, “se o SARS-CoV-2 passar a ser mais um vírus, faz sentido que a vigilância da gripe passe também a incluí-lo”. Aí chegados, a transição obrigará à mudança de “muitas orientações, como as de isolamento”, explica.

A época primavera/verão, “que nestes dois anos de pandemia tem sido mais tranquila”, pode ser “uma boa altura para testar a integração da vigilância de todos os vírus”. No pressuposto, explica a responsável do INSA, de que “nesta transição vamos ter que ter um período com os dois sistemas de vigilância a funcionar para os compararmos”.

Até lá, o INSA continua a trabalhar “num sistema mais robusto para quando a DGS decidir a transição as coisas estiverem prontas e em segurança”, conclui Ana Paula Rodrigues. Questionada pelo JN, a DGS não respondeu.

Sistema mais sustentável ao longo do tempo

Monitorização por amostragem vigia infeções ligeiras e graves e caracteriza vírus a circular.

Ao incluírem tanto uma vigilância epidemiológica como virológica, “os sistemas-sentinela são muito mais sustentáveis ao longo do tempo, porque as redes são mais estáveis”. Com representatividade demográfica e geográfica, permitem caracterizar não só os vírus em circulação, como novos vírus que possam vir a ser agentes de uma pandemia.

A caracterização é feita, ao JN, por Raquel Guiomar, responsável pelo laboratório de referência para o vírus da gripe e outros vírus respiratórios. “A nível internacional, é desta forma que é organizada a vigilância da gripe”, sublinha.

Para o efeito, são “selecionados os participantes para recolha de amostras de forma organizada, seguindo um protocolo, com um grande número de médicos [140] e serviços a seguirem os mesmos critérios”. Ao incluir informação quer dos cuidados de saúde primários quer dos hospitais, vigiam, assim, “tanto as infeções ligeiras como as mais graves”.

Amostras “representativas da população e da distribuição geográfica”, que, prossegue Raquel Guiomar, permitem caracterizar os vírus em circulação. Somando a informação recolhida via rede de laboratórios, é possível analisar “os vírus que estão a circular e os que foram contemplados nas vacinas que estão a ser administradas”.

Futuro passa por aqui

É, por isso, garante a responsável do INSA, “uma rede ótima” e que pode ser “uma das formas mais sustentáveis e com maior representatividade a nível nacional para no futuro se caracterizar o SARS-CoV-2”. Para esse efeito, terá de se integrar a sua caracterização virológica nas redes sentinela. De momento, ainda em emergência sanitária, faz-se “um diagnóstico em massa por uma rede alargada de laboratórios públicos e privados”.

Aproveitar todo este “know-how” – a rede de médicos-sentinela tem mais de 30 anos -, fortalecendo-o, pode ser então o passo seguinte para uma nova abordagem ao SARS-CoV-2. Tendo presente que os sistemas sentinela assentam em “redes já treinadas, com historial e recolha de informação” que permitem perceber, “em diferentes épocas, se estamos em epidemia e com que intensidade”.

Redes-sentinela

A vigilância da gripe e outras infeções respiratórias contempla a rede de médicos-sentinela, serviços de Urgência/Obstetrícia, Unidades de Cuidados Intensivos e ADR. Criada em 1989, a rede de médicos-sentinela conta hoje com cerca de 140 médicos de família distribuídos por todo o país.

Laboratórios

A rede de laboratórios para diagnóstico da gripe foi ativada em 2009, aquando da pandemia de gripe A, na altura com 20 parceiros. Atualmente, são já 43 os laboratórios do Serviço Nacional de Saúde, a que se juntam outros 34 de instituições universitárias a fazerem diagnóstico SARS-CoV-2.

JN/MS

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