Humor realidadeHumor realidade

Tudo isto existe, tudo isto é Fado

Gr®afico: Stella Jurgen

Chega julho e instala-se uma ilusão coletiva: achamos que o verão vai ser um renascimento pessoal, com livros lidos, projetos incríveis e casas organizadas. Mas chega agosto… e a maior conquista foi pôr gelo de limão na sangria. Os grandes planos? Esquecidos ao lado da salada russa e da bicicleta que agora é cabide. No fundo, o verão é como um PowerPoint da vida: muitas promessas, execução… nem por isso.

A tradição do “copy/paste”, com muito chouriço

Ah, as associações locais. Tão únicas. Tão originais. Tão… exatamente iguais umas às outras. Redefinem ca-lendários com um entusiasmo comovente, só para garantir que 20 festinhas acontecem – pasme-se – no mesmo fim de semana. Coincidência? Não, é arte. Planeamento de guerra. Quem marca primeiro ganha o direito de reclamar que “os outros é que copiaram!”. E o que encontramos nestas festas? Tudo igual, só mu-da o molho secreto de mostarda da Josefina. No palco, aquele DJ local ou aquele artista, que já tocava quando o Sócrates ainda era Primeiro-Ministro, e uma banda que tem mais glitter que a árvore de Natal da Junta lá da terra. As ementas rodam como carne no espeto. A travessa é a mesma – só muda o avental da D. Emília que comanda a cozinha como se fosse a NASA a lançar um foguetão. Tudo sob o olhar atento do pre-sidente, que está em todas as mesas ao mesmo tempo, oferecendo rifas e dizendo “isto é que é o verdadeiro espírito da comunidade”. E os discursos? Ah, os discursos! Sempre cheios de emoção reciclada e frases que já ouvimos muitas vezes: “É com muito orgulho que celebramos mais uma edição desta nossa querida festa que, ano após ano, reforça os laços da nossa comunidade, promove o convívio, e traz alegria”. Agradece-se à Liuna, e à vizinha Lurdes que mais uma vez emprestou as toalhas bordadas, e à equipa de voluntários que é a mesma desde 1980, só com mais dores nas costas. E no fim, claro, a afirmação épica: “Nós somos diferentes. Fomos pioneiros nisto.” Sim, porque copiar uns aos outros com convicção também é uma forma de inova-ção, não é? Mas no fundo… é isto que nos une. Essa bela capacidade de sermos todos diferentes… fazendo exatamente o mesmo. Viva a tradição! E viva o copy-paste com coração!

Touradas e guerras no Madeira Park

O nosso Milénio noticiou. A Casa da Madeira é um símbolo de cultura, tradição e, agora… vandalismo com sotaque de arraial. Porque nada diz “orgulho regional” como arrancar um banco do parque e fazer dele uma trincheira de guerra. Ao que parece, desta vez não são jovens rebeldes – são vândalos comunitários certifica-dos, com cartão de sócio e tudo. À noite, o Madeira Park transforma-se: de espaço verde a praça de touros clandestina, onde os touros são… amigos de camisola preta e ego inflado. E atenção: é tudo feito em nome da “tradição”. Dizem eles. No meio da festança, surge sempre o filósofo do grupo – aquele que discursa sobre “a liberdade no espaço público” e ao mesmo tempo urina no bebedouro dos cães e tira sinais e placas. E lá vem o outro, que culpando a juventude, apenas sacode a poeira…

Sem a Liuna, …. 

Se és membro de algum grupo comunitário, agradece à Liuna. Não hoje, mas todos os dias. Porque, sejamos sinceros: sem a Liuna, isto tudo já tinha vindo abaixo – e mais depressa que um andaime mal montado. A Liuna não é apenas um sindicato. É uma força vital. É como a liga da Justiça, mas com betoneiras, pás e mui-to suor. Eles constroem, reparam, aguentam e, no meio disto tudo, ainda suportam. Sem a Liuna, a comuni-dade não era bem uma comunidade – era só um monte de gente a tropeçar em buracos, sem telhado, sem chão e sem quem faça acontecer. O caos instalava-se. As obras paravam, os bairros ficavam às escuras e, so-bretudo, o churrasco ou a festa do fim-de-semana ficava adiado por tempo indefinido. A verdade é esta: sem Liuna, muitos desapareciam mesmo. Literalmente. Porque eles não só constroem os edifícios – constroem relações, seguram vizinhos, levantam bairros, fazem a base de tudo o que achamos garantido. São o cimento que une a comunidade – e se eles param, a estrutura racha. Por isso, quando virem alguém da Liuna, levan-tem o capacete em sinal de respeito. É porque se a Liuna fecha ou simplesmente muda de identidade na lide-rança, a coisa fica mal, para muitos lados.  E olha que não era só o barulho das obras que desaparecia – até muitos microfones se calavam! Porque sem a Liuna a segurar isto tudo, até os discursos de inauguração fica-vam sem som, os DJs das festas do bairro perdiam o ritmo e os altifalantes começavam a tossir. Não eram todos, nem era toda a gente, que fique claro. Mas, muitos microfones, coitados, iam mesmo abaixo. 

Portugal em 2025: um país sem problemas, excepto emigração

Portugal virou o paraíso: tudo funciona, até os professores sorriem e o IRS virou Pai Natal. Com os proble-mas sérios (supostamente) resolvidos, o país ocupa-se com o que importa: as novelas da bola e os gritos de Ventura sobre emigração – ao ponto de o Chega quase virar agência de viagens patriótica. No fim, sabemos que Portugal tem problemas gigantescos, mas debates minúsculos. Ora, Ventura, se és tão preocupado com a emigração: já pensaste em experimentar? Vais ver, André, que emigrar é uma experiência enriquecedora: conheces novos países, novas gentes e ainda podes levar o teu discurso na mala, para andar a pregar por lá também. Porque, convenhamos, Portugal é um país de emigração e a forma como estamos a falar disso devia meter vergonha aos agentes políticos do meu país. Portugal: país tão grande em problemas, mas tão peque-no nas discussões…

Calaram-se os críticos: a obra está no ar!

Sim, meus amigos, aí está ele – o futuro lar Magellan – ergue-se, firme, altivo e, finalmente, com alicerces! E não é só alicerce de betão! É alicerce de gente e de comunidade. Temos líder, Manuel Da Costa – um que sabe exatamente o que quer e para onde vai. Temos rostos – alguns cheios de esperança, outros cheios de tinta, cal ou poeira. Mas mais do que tudo… temos uma comunidade unida nisto. Por isso, que se calem os críticos e que falem os martelos! O Magellan está a nascer com o barulho bom de quem acredita, constrói e ri até dos imprevistos. Agora é oficial: a obra está no ar, e com ela, os sonhos também. Esta é uma obra de todos. E se algum dia perguntarem como começou, digam que foi com cimento, suor e uma senhora que jurava que o capacete não combinava com o outfit. Digam que foi com tijolos, ideias e pelo menos três cafés por metro quadrado. Que foi com calos nas mãos e gargalhadas na alma. Que foi de todos nós, porque o Lar Magel-lan não é só um edifício – é um monumento à teimosia feliz de quem acredita que juntos, até a parede mais torta endireita.

Terminando, e prometendo voltar no próximo mês, nem que seja só para reclamar de outra coisa, digo-vos: somos uma comunidade que promete muito, tropeça mais ainda, mas nunca larga nem perde a vontade de rir. Imperfeitos? Sempre. Barulhentos? Mais que as colunas da festa. Mas estamos de pé… até cair (sempre será assim!). Sejam felizes. Haja saúde. E se não houver, ao menos haja um bom petisco (os da Rosa’s Portu-guese Kitchen dizem ser bons). E que haja alguém com paciência para nos aturar.

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Back to top button