Natal: bacalhau, burros de presépio e a grande comédia familiar

Agora nos tornamos menos rudes, mais afáveis e generosos. Este é um mês marcado por hipocrisia, falsidade e falta de vontade verdadeira. O Natal é a época mais mágica do ano. Eu arrisco dizer que é, no mínimo, a época mais teatral. Passamos 11 meses a ignorar tudo e todos, a discutir silenciosamente com vizinhos e a fingir que não vemos o grupo da família no WhatsApp, mas chega dezembro e… puff! – o milagre natalício transforma todos em santos, diplomatas ou especialistas em logística familiar. É impressionante como a mesma pessoa que nos julgava gordo, agora diz: “Então, este ano vais comer só uma rabanada, querido?”
Começa logo pelo Pai Natal, esse ícone vermelho do consumismo que, coitado, a única dieta equilibrada que conhece é “um biscoito numa casa, 40 chocolates na seguinte”. Ele é a prova viva de que ninguém escapa ao materialismo: roupa de marca monopolizada, um trenó que deve ter mais quilometragem que um táxi dos anos 80, e renas que trabalham sem férias, sem sindicato e possivelmente sem seguro de saúde.
Enquanto isso, alegremente, a família inteira junta-se numa harmonia tão artificial que devia vir com etiqueta de prazo de validade. A tia que passa o ano a criticar o nosso peso, o nosso namoro, o nosso emprego e até o nosso corte de cabelo, chega ao dia 24 e exclama com ternura: “Meu amor, estás ótimo!” Claro que estamos, tia – é dezembro, e dezembro é o único mês em que todos usamos a mentira branca como tempero oficial. Mentira branca que, por sinal, engorda mais que o bacalhau cozido com batatas. Mentira branca, que tempera bem melhor que a pimenta, seja ela branca ou preta, ou no caso açoriano, bem vermelha.
E o vizinho? Esse mesmo – que passou o ano a estacionar no nosso lugar, a furar a parede às oito da manhã de sábado e a fingir que não ouvia quando gritávamos “Boa tarde!” no elevador? Pois bem, no Natal aparece ele, sorridente, oferecendo a melhor fatia do bolo de frutas. Aquela fatia que ninguém come, é verdade, mas ainda assim: o gesto vale. Aliás, o bolo de frutas é o verdadeiro símbolo do Natal – ninguém gosta dele, ninguém sabe quem o faz, ninguém o termina, mas ele aparece sempre. E o bolo-rei? Quantos de nós o comemos sem gostar? Quantos de nós preferíamos um belo “brigadeirão”? Mas lá está,… é tradição nem que a fava nos parta o dente.
E depois há o bacalhau. Esse mártir culinário que surge logo a 1 de Dezembro, qual visitante chato que chega demasiado cedo à festa e nunca mais vai embora. O bacalhau aparece em tudo: cozido, espiritual, com natas, à Gomes de Sá… é tanto bacalhau que, ao fim de uns dias, já ninguém aguenta olhar para ele. Ao menos se fosse só cheirar!? Parece um romance russo: pesado, repetitivo e cheio de sofrimento desnecessário. Mas lá está, é tradição – e tradição, no Natal, é aquilo que nos faz sorrir para não chorar enquanto engolimos mais uma lasquinha de “só para aproveitar”. O bacalhau é tão presente que, se algum dia houver uma greve do rabo (de bacalhau) o Natal perde o valor.
Para além das “musiquinhas de Natal e do Coro de S. Amaro de Oeiras”, agora, falemos da mesa de Natal. A abundância é tanta que parece que estamos a preparar refeições para alimentar um exército medieval. Peru, cabrito, sonhos, rabanadas, tronco de Natal, filhós, azevias… e ninguém toca, porque “é para as visitas”. A desigualdade entre barriga e comida chega a níveis históricos: metade da comida permanece intacta, enquanto metade da família já está a olhar para a segunda rodada de sobremesa. No final, invariavelmente, alguém diz com sinceridade quase religiosa: “Nunca mais faço tanta comida.” Mentira. Para o ano vai fazer igual e ainda acrescentar um tabuleiro de lasanha,… e mais um bolo rei, que poucos gostam, mas que está na mesa, porque dá um colorido especial à toalha bordada pela tia-avô que já morreu há vinte anos, mas neste dia nos lembramos dela.
Entre visitas, telefonemas e 80 mensagens iguais enviadas a todos, ainda temos os licores caseiros, que “são os melhores do mundo, de fato”, e os jantares de Natal, cheios, majestosos… e intocados durante horas, só à espera de aplauso das visitas. O Menino Jesus vê tudo isso e só quer fugir da gruta. Mas lá fora está frio, então ele permanece no quentinho das palhas, enquanto o burro, ali ao lado, cheio de fome, não pode comer nada. E somos nós, humanos, que todos os dias nos alimentamos de palha. Palha escrita, verbal, visual e emocional.
Ah, os burros do presépio. Não se enganem: eles não são só decoração. São testemunhas silenciosas de toda a nossa loucura natalícia, assistindo-nos a trocar presentes inúteis, a discutir sobre a altura ideal das luzes de Natal e a derramar molho de rabanada no tapete persa da sala. São burros, sim, mas mais espertos do que muitos humanos, porque pelo menos eles não fingem que gostam do bolo de frutas ou do licor com gosto a detergente. Burros somos nós que gastamos rios de dinheiro, e depois ficamos a contar os dias para chegar ao final de Janeiro.
E depois há a parte boa: pijamas, sofá, ninguém a chatear durante uma semana … não é isso que todos queríamos, no fundo? Sejamos sinceros! Eu que acredito em energia, a minha é toda “descarregada” nesta altura, ou melhor, é “aniquilada”.
Entre a encenação familiar, os excessos gastronómicos, as mensagens de WhatsApp copiadas e coladas para meio mundo, as visitas, os telefonemas e o bacalhau imortal, o Natal consegue aquilo que nenhum terapeuta, político ou grupo motivacional consegue: juntar as pessoas, fazê-las rir, comer, discutir baixinho… e comer outra vez. E como esquecer o “Sozinho em Casa”? Esse filme é praticamente o hino oficial do Natal para quem gosta de ver caos controlado e violência cartunesca ao mesmo tempo. Kevin McCallister é o herói incompreendido. “Sozinho em Casa” é o verdadeiro tutorial natalino: família some, Kevin vira engenheiro de guerrilha e dois ladrões insistem em ignorar todas as leis da física. No fim, o Natal é isso mesmo – caos, comida demais e a casa parecendo zona de guerra, mas tudo acaba bem. E se não acabar, sempre dá pra resolver com farinha, tinta e criatividade.
E talvez esteja tudo bem. Porque, por detrás do consumismo, do teatro, dos burros e das palhas, existe aquela centelha de humanidade que nos lembra que, apesar de tudo, pertencemos uns aos outros. Nem que seja apenas para partilhar os restos do bacalhau até ao dia 3 de janeiro, enquanto o burro do presépio nos olha com um misto de piedade e reprovação.
Feliz Natal – e boa sorte a fechar as calças depois da epopeia gastronómica. Porque, sejamos honestos, ninguém passa o Natal sem exageros e promessas que serão quebradas com entusiasmo.
Feliz Natal – o verdadeiro Natal: onde estás, Jesus? Onde está o verdadeiro sentido do Natal?
Quem não concorda comigo, que levante as duas mãos, tem esse direito, mas a sorrir, claro.







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