Humor realidade

Crónica ao contrário: HUMOR COM REALIDADE

Créditos: Stella Jurgen

Paciência a zero, hormonas a mil e homens com TPM

Dizem por aí que a menopausa é um portal místico, uma espécie de promoção involuntária para o cargo de “Sacerdotisa da Sabedoria Hormonal”. Os jornais anunciam dicas, sintomas e previsões. Mas e o restante do batalhão? E as mulheres que ainda estão ali, firmes, menstruando com a pontualidade de um relógio suiço, e fazendo ainda correr  “ribeiras de emoção”.  Essas também merecem manchete. Porque a mulher que ainda menstrua faz parte de um clube secreto – não porque seja discreto, mas porque ninguém quer falar sobre ele antes do café da manhã. É um clube onde o humor varia mais que cotação do dólar ou do ouro.

Afinal, há toda uma coreografia mensal: Primeiro, a TPM chega a mandar recado tipo parente que avisa “tou passando aí rapidinho”. De repente, já está sentada no sofá, de chinelo, reclamando da vida e pedindo chocolate. Depois, vem o momento CSI – Investigação Criminal: qualquer dorzinha é examinada com a seriedade de quem está tentando decifrar hieróglifos. “Será cólica, gases, ou apenas a minha alma pedindo demissão?”

E quando finalmente chega o fluxo, a mulher se transforma numa engenheira qualificada em hidráulica, planeamento estratégico, previsão meteorológica e logística pesada. Enquanto isso, o jornal lá, falando da menopausa. “Ondas de calor”, “sono”, “mudança de humor”, “libertação das amarras menstruais”. Que maravilha e claro que tem razão querer ajudar. Mas, e as outras? As guerreiras que ainda convivem com um útero que tem mais personalidade do que muito deputado? Ou que convivem com a força que tem mais vigor do que um jogador do Sporting pronto a vencer mais um campeonato.  Essas mulheres merecem medalha, feriado nacional e uma caixa de bombons com assinatura vitalícia. Porque a verdade é uma só: enquanto o mundo discute a menopausa, tem uma legião feminina vivendo o capítulo anterior com maestria, humor e uma paciência que deveria ser medida em megawatts.

E, cá entre nós… quando essas mulheres finalmente atravessarem o portal da tal sabedoria? Ah, vão entrar na menopausa com a classe de quem já encarou batalhas hormonais e saiu sorrindo (ou chorando – mas com estilo).

E, em verdade, convenhamos: há homens nesta comunidade que, se tivessem um calendário hormonal, ele estaria marcado a vermelho de segunda a domingo, 24/7. Aquilo não é mau humor, é um eclipse lunar permanente. Estão sempre com o período menstrual. E a TPM dos homens não sei se existe, mas que anda tudo muito sensível, irritadiço e pronto a fazer intriga por causa de um emoji mal colocado, lá isso alguns andam. 

Um diz “bom dia” e o outro responde como se tivesse acabado de receber uma multa de estacionamento. Outro lê um comentário neutro e age como se fosse uma crítica pessoal à árvore genealógica inteira. E depois nós é que temos de respirar fundo, alinhar os chakras e lembrar que não vale a pena discutir com alguém que claramente precisa de um snack, uma sesta, ou talvez um reset completo ao sistema operativo emocional. Enfim, já não há pachorra… mas olhem, pelo menos dá para rir, tipo uma comédia “masculina”.

Ainda há imensassssss mulheres prontas para a guerra e para a vida, com ou sem menopausa. Já os homens… bem, esses parecem estar em vias de extinção, em todos os sentidos. São campeões olímpicos do “medo” e mestres do “não assumir os próprios problemas de saúde”. As mulheres enfrentam tudo de frente; nós, homens, muitas vezes preferimos esconder-nos debaixo das saias delas… o que, no verão, diga-se de passagem, nos traz sérios riscos a um dos nossos sentidos mais preciosos: o olfacto. 

As desculpas para o sexo (versão portuguesa)

Há quem diga que o português é um povo modesto. Discordo. Quando chega a hora de inventar desculpas para evitar o sexo, somos verdadeiros génios da imaginação (elas e eles) – poetas, dramaturgos, e às vezes até engenheiros mecânicos. Comecemos pela clássica, a rainha-mãe das desculpas: “Tenho uma dor de cabeça.” Em Portugal, esta desculpa tem estatuto de património nacional. Serve para tudo: para não discutir política, para não ir ao jantar de família, e claro, para escapar a momentos de intimidade. 

A dor de cabeça portuguesa é tão versátil que já devia ser como o Fado, património nacional imaterial. Depois há as desculpas meteorológicas, que só funcionam realmente neste país: “Oh pá, está uma nortada terrível, não estou para isso agora”. A nortada! O vento! Como se o clima tivesse um botão específico chamado “desligar libido”. Seguimos para as desculpas fisiológicas, que variam entre o absurdo e o brilhante: “Comi demais ao jantar”. Esta é profundamente portuguesa, quase cultural. Porque sabemos como são os jantares portugueses: começam com sopa, acabam com sobremesa dupla e, entre uma coisa e outra, vivem 3 pães, 2 travessas e uma Tupperware de “leva mais, que sobrou”. Há também as desculpas tecnológicas, típicas dos tempos modernos: “Deixa-me só acabar esta série”. Claro. É sempre só este episódio. E depois mais um. E mais outro porque ficou parado. Quando damos por nós, o romance foi substituído por 6 episódios e um balde de pipocas. 

Uma das minhas preferidas é a desculpa patriótica: “Amanhã acordo cedo”.  Em Portugal, ou aqui, acordar cedo é argumento para tudo. É quase uma religião. Quem se levantar às 7h da manhã ganha automaticamente o direito de negar qualquer atividade humana depois das 22h. E finalmente, a mais artística de todas – a desculpa que vive entre a esperança e a gestão de expectativas: “Hoje não dá, mas amanhã logo se vê”.  É vago, é suave, e ao mesmo tempo não promete absolutamente nada. Um verdadeiro monumento à diplomacia portuguesa.

Com esta criatividade toda, não admira que sejamos bons a contar histórias. Nem sempre as vivemos… mas contá-las, isso ninguém nos tira. Atenção: entre sorrisos, quero dizer que as minhas crónicas não são sobre mim.

Diáspora à moda do Governo

É curioso, quase divertido, observar como os políticos açorianos falam da diáspora. Transformam-se em poetas de coração partido, mestres da lágrima ensaiada e do discurso choroso: “Ai, a saudade… ai, os nossos filhos espalhados pelo mundo…” Palavras tão dramáticas que até dá vontade de aplaudir, tirar selfies com bandeiras, e depois vender a história aos jornais como se fosse cinema. Broadway açoriana, versão política. Mas a realidade… ah, a realidade é outra história, bem menos romântica e muito mais cruel. Enquanto se enchem a boca de patriotismo sentimental, o novo plano e orçamento regional dos Açores decide cortar quase 40% dos apoios à diáspora. Quase metade do que servia para manter viva a ligação entre Açores e os Açorianos espalhados pelo mundo simplesmente desaparece. 

O resultado? Uma diáspora cada vez mais desamparada, enquanto no palco o drama continua: lágrimas ensaiadas e discursos emocionados. Nos bastidores, porém, a tesouraria trabalha a sério: corta aqui, corta ali, e pronto, a saudade continua bonita, mas o suporte… esse, que se lixe. E no fundo, não é apenas uma questão de euros ou orçamentos. É uma questão de respeito, de coerência, de confiança. A diáspora percebe rápido: para os políticos açorianos, o que interessa é parecer emocionado, não cumprir compromissos. 

Romulo Ávila/MS

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Back to top button