Entretenimento

Viver e morrer em Toronto

“Morre-se mal em Portugal. Em solidão, sem afeto e sem
compaixão, longe daqueles de quem se gosta, muitas vezes
em instituições  mal preparadas”.  – Jorge Soares • Presidente do CNEV (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida)

Aida Batista

Miguel Sousa Tavares, jurista de formação, jornalista, escritor e comentador político, dedicou a Toronto a sua página do Expresso, na edição de 1 de Dezembro, a que deu o título “Conversa em Toronto”, p. 8.
A partir da história de um casal – Jorge (minhoto) e Virgínia (açoriana da Ilha Terceira) -, e de conversas com outros, em quase tudo iguais a tantas que ouvi, o cronista escreve: “(…) Ninguém pense que a vida ali é fácil para qualquer português, venha dos Açores, do Minho, do Porto ou de Lisboa. É dura, muito dura: o inverno é terrível, a cidade imensa, o trabalho sem horários, a comida e a luz (aquilo de que nós tanto gostamos) são uma saudade sem remédio. Mas, no resto, vale a pena: pagam metade dos impostos pelo trabalho que nós pagamos e, em contrapartida, têm serviços públicos – escolas, centros de saúde, hospitais – de primeira categoria. Quando pergunto a Jorge pela sua relação com Portugal, responde-me que é português de corpo inteiro, mas só vem a Portugal para ver a família e matar saudades da cozinha portuguesa. E algum dia quererá voltar? “
De seguida, tece várias considerações críticas ao sistema português: o comportamento dos sindicalistas, a caça fiscal aos rendimentos do trabalho, a permissividade da nossa legislação laboral e social, a proteção aos medíocres em detrimento do mérito, o laxismo para com as “baixas” fraudulentas, a injustiça na aplicação do IRS, e tantas outras com as quais estou de acordo. Depois desta radiografia de Portugal (que é mais minuciosa do que o resumo que aqui faço), termina:
“Pois, Jorge, não volte não. Ultrapassados os Invernos e tudo o resto, é melhor ficar. Para nós, Portugal é comida e paisagem. Nem sequer nos preocupa nada que os que partiram voltem um dia. Preferimos importar mão-de-obra estrangeira e barata.”
Miguel – permita-me que o trate com esta intimidade, mas, quando alguém nos entra em casa todas as semanas, sentimo-lo como um familiar -, tive a felicidade de viver e trabalhar em dois países que, segundo as organizações internacionais, já foram considerados aqueles que melhor qualidade de vida ofereciam: Finlândia e Canadá. A minha primeira experiência foi na Finlândia, em 1989. Sabendo-se do fosso enorme que existia entre os dois países, a todos os níveis, poderá imaginar a paixão que senti desde o primeiro dia e que dura até hoje. No entanto, não segui a máxima de que “o amor é cego” e, pouco a pouco, dei por mim a concluir que nem tudo eram só qualidades.
Volvidos os oito anos na Finlândia, segui para o Canadá, onde trabalhei e convivi cinco anos com as gentes da comunidade portuguesa de Toronto. Por isso, tenho o privilégio de poder concordar com o retrato que, no seu artigo, faz das pessoas e do país. Contudo, de uma coisa tenho a certeza: os paraísos na terra não existem! Que o digam, todos os familiares de portugueses que, com direito ao subsídio de funeral, o perdem porque, no Ontário, os serviços responsáveis pela emissão narrativa de uma certidão de óbito levam cerca de três meses a fazê-lo. Repito: 3 meses!
Como tal demora colide com a lei portuguesa, que obriga a apresentá-la no prazo de um mês, calcule quantos milhares estão arrecadados nos cofres do estado e foram negados a todos quantos viram indeferidos os seus pedidos. Que tem feito as autoridades canadianas para agilizar um serviço que passa pela simples cópia de um documento? Até hoje, nada!
Tendo em conta a opinião de Jorge Soares, talvez se “morra melhor em Toronto”, mas as certidões de óbito padecem de uma burocracia quase sempre atribuída a Portugal, onde o mesmo documento se obtém na hora. Apesar do tétrico da situação, em alguma coisa havíamos de estar à frente!

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