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NAPA – Da Madeira para o mundo

Credito: DR

A banda que conquistou o Festival da Canção e os corações internacionais partilhou a sua visão sobre o sucesso inesperado, a vida de “Deslocado” e o futuro com um novo álbum.

A música portuguesa vive um momento de efervescência, mas poucos nomes mostram tanta autenticidade e emoção como os NAPA. Lourenço e Francisco, dois dos rostos da banda, falaram ao Milénio Stadium numa conversa intimista que atravessou os últimos anos de conquistas — desde a estreia nos Coliseus até ao impacto global do single que mudou as suas vidas. 

Com um pé no passado de dez anos de amizade e outro num futuro que se desenha entre Portugal e o Brasil, os músicos revelam que o segredo do sucesso pode estar, afinal, na saudade. O ano de 2025 ficará gravado na memória do grupo como o ponto de viragem. Foi o ano em que o país se rendeu a Deslocado, um tema que começou como uma partilha pessoal e se transformou num hino para milhares. Francisco recorda com gratidão o impacto desta composição: “Acho que esta música trouxe-nos mesmo imensa coisa. Às vezes é um pouco estranho pensar no pré-Deslocado e no pós-Deslocado. Permitiu-nos fazer disto carreira e tornar a música o nosso emprego dos cinco”. A canção, que venceu o Festival da Canção e levou a bandeira de Portugal à Eurovisão, não foi apenas um sucesso comercial; foi a validação de uma década de trabalho. Lourenço diz que a magnitude da recepção foi algo que nunca estava nos planos: “Acho que é impossível alguma vez imaginar que a música ia ter a escala que teve. Acho que há poucas músicas em Portugal que tenham tido esta dimensão e esta escala”. Um dos pontos mais fascinantes da carreira dos NAPA é a forma como a sua mensagem quebrou barreiras linguísticas. Embora cantada em português, a sonoridade de Deslocado encontrou eco em geografias inesperadas. 

A banda revelou um dado estatístico curioso: a Indonésia é, atualmente, o segundo país onde são mais ouvidos. Para os músicos, isto prova que a música é uma linguagem emocional que transcende o dicionário. “O sentimento que colocámos na música e a vontade com que a fizemos transparece e as pessoas recebem isso de uma forma muito positiva”, explica Lourenço. Francisco completa, referindo que a harmonia e os acordes carregam a narrativa: “O sentimento, mesmo para quem não percebe, sente-se; uma certa nostalgia e uma certa saudade… só ouvindo o instrumental”. Esta ligação é particularmente forte para quem vive longe de casa. Naturais da Madeira mas residentes em Lisboa, os membros da banda conhecem bem o sentimento de ser um “deslocado”. “Já sabemos histórias de pessoas que voltaram para as suas terras e foram de certa forma influenciadas pela música”, partilham com visível emoção. A experiência na Eurovisão é descrita como um “divisor de águas”. Mais do que a classificação final, o que ficou foi a aprendizagem e a exposição a um nível de produção massiva. Francisco admite que o grupo saiu transformado: “Crescemos muito como grupo e como artistas. Ganhámos muito estaleca, porque aquilo é, de facto, um palco enorme e uma exposição muito grande”.

 Apesar de a sua sonoridade divergir do habitual “estilo Eurovisão” — muitas vezes focado em efeitos visuais e ritmos eletrónicos — os NAPA orgulham-se de se terem destacado pela diferença. “Não ficámos bem classificados, mas agora somos a música mais ouvida da edição do ano passado”, nota Francisco, sublinhando que a autenticidade acabou por prevalecer sobre o espetáculo. Com o sucesso vêm novas oportunidades de colaboração. O grupo, que já trabalhou com nomes como Van Zee e Jovem Dionísio, prepara-se agora para lançar o seu terceiro disco de originais. Este novo trabalho promete elevar a fasquia, contando com gravações feitas no Brasil e colaborações com produtores de renome internacional. Lourenço levanta um pouco o véu sobre o cronograma: “Temos um single já basicamente a sair do forno, que há-de sair durante o próximo mês. E o álbum há-de sair mais para o final do ano”. Este disco representa uma fase de maior maturidade e profissionalismo, mas também traz consigo a pressão de manter o nível de excelência. “Temos aquela pressão de um grande sucesso e depois temos de mostrar o que valemos…sem nos desvirtuarmos”, confessa Francisco. 

Ao encerrar a conversa, os músicos não esqueceram aqueles que, tal como eles, sentem o peso da distância. Deixam uma mensagem especial para a comunidade portuguesa no Canadá e em todos os cantos do mundo: “Muito obrigado por nos acompanharem aí de tão longe e espero que continuem a ouvir a nossa música”. Para os NAPA, o palco não é apenas um lugar de performance, mas um espaço de celebração da amizade que os une desde a infância. O que querem que o público sinta? “Uma energia e uma amizade em cima do palco… espero que as pessoas sintam um bocado essa diversão”. Com a sinceridade de quem canta a própria alma, os NAPA provam que não é preciso traduzir a saudade para que o mundo a consiga sentir.

Paulo Perdiz/MS

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