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Era uma vez duas portuguesas no Fantasma da Ópera

Francisca Mendo e Lara Martins. Foto: Magazine

A história de amor assombrosa do musical mais popular do Mundo, visto por milhões desde a estreia em Londres há quase 40 anos, vai aterrar pela primeira vez em Portugal. E há uma cantora de Coimbra e uma bailarina do Porto no elenco da produção internacional. Lara Martins e Francisca Mendo há muito que dão cartas lá fora.

Francisca Mendo tinha 12 anos quando viu no grande ecrã pela primeira vez “O Fantasma da Ópera”, quando se apaixonou pelas músicas, pelas danças. Recorda esse dia no cinema com a nitidez de quem nunca mais o quis apagar da memória. Da mesma forma que recua ao dia em que, em Nova Iorque, se sentou na plateia da Broadway a chorar baba e ranho a assistir ao vivo ao musical adorado da infância. Longe, muito longe de imaginar que um dia iria fazer parte da produção internacional que está em digressão pela Europa. É bailarina, está a cumprir o sonho de uma vida. Ao contrário dela, Lara Martins não passou anos a sonhar com “O Fantasma da Ópera”, não cresceu embrulhada no universo dos musicais, foi num acaso que se lançou para uma audição para o espetáculo no teatro do West End, em Londres, há mais de dez anos. É cantora lírica, dona de uma carreira que atravessa o Globo e haveria de se tornar na artista que mais vezes desempenhou o papel da personagem Carlotta Giudicelli, uma das figuras principais do musical, em todo o Mundo.

Mas esta história pode começar por era uma vez um génio musical, conhecido apenas como “O Fantasma”, que vive nas catacumbas da Ópera de Paris e que fica hipnotizado pelos talentos e beleza da jovem soprano Christine Daaé. O romance de Gaston Leroux, que acontece na Paris do século XIX, transformou-se num musical pelas mãos do compositor inglês Andrew Lloyd Webber e, desde a estreia, em outubro de 1986, no West End, que é uma das produções mais vistas de sempre. Aclamado pela crítica, conquistou mais de 70 grandes prémios de teatro, já foi visto por mais de 160 milhões de pessoas. Continua em cena no West End (sempre esgotado, é a casa-mãe). E agora estreia-se em Portugal, estará no Campo Pequeno a partir de terça-feira, com artistas em palco que já estiveram no West End, também na Broadway, com cenários que nos transportam para a capital francesa de outro século, com 230 figurinos.

“Os figurinos são incríveis, são absolutamente extraordinários nesta produção.” Lara Martins sabe do que fala, conhece o musical de trás para a frente. “Estou muito feliz e até nervosa por finalmente poder partilhar com o público português esta personagem que já faço há tanto tempo lá fora.” Interpreta a diva da ópera Carlotta, que, na história, vai ser substituída pela novata Christine por quem o Fantasma se perde de amores. Comecemos pelo princípio, por Portugal, por Coimbra, a cidade onde nasceu. Lara sempre gostou de cantar, desde muito miúda, estava no liceu quando entrou para o conservatório, começou a estudar canto sem grandes ambições. E eis que aos 20 anos, estava já no curso de Direito, recebe uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar na famosa Guildhall School of Music and Drama, em Londres. “Fui sozinha, lançada aos leões. Ainda por cima naquela altura não havia muitos portugueses a irem estudar para fora, não era muito comum.” Primeiro veio o choque cultural, a dor de estar longe da família, depois o mundo de competitividade em que se viu inundada. Adaptou-se, acabou o curso com a mais alta classificação e assentou na capital britânica para nunca mais voltar. É freelancer, já participou em inúmeras produções de ópera, recitais, concertos. Europa, Austrália, Rússia, pisou as maiores salas e festivais do Mundo.

Só que a vida de casa às costas começou a pesar quando nasceu a primeira filha, hoje com 13 anos, e foi aí que apareceu o teatro musical. “Passava três semanas num lado, quatro semanas noutro, com uma filha pequena. E surgiu a oportunidade de fazer uma audição para a produção d’“O Fantasma da Ópera” que está no West End. Não cresci com o mundo dos musicais, o que me atraiu foi a estabilidade, poder estar em casa com a minha família, não ter de andar a viajar.” Estávamos em 2012, Lara era uma cantora lírica, voltou às aulas de canto, o estilo de musical é diferente, “não é completamente operático”, as técnicas vocais também. Ficou anos e anos a fazer o papel de Carlotta, encantou-se por este universo, “a nível dramático é muito desafiante”. Os contratos nestas produções são anuais, o de Lara era sempre renovado, uma e outra vez. Em 2018 sentiu que tinha de fazer uma pausa, “fazer a mesma coisa todos os dias durante tanto tempo é muito cansativo”. Mas os convites para voltar nunca pararam, às tantas surgiu uma nova produção do musical que iria estar em digressão, desta vez aceitou, as duas filhas – a mais nova tem oito anos – já estão mais crescidas. O espetáculo andou no último ano em tournée pelo Médio Oriente, com pausas pelo meio (e Lara vai fazendo mil e outras coisas nos entretantos, concertos com orquestras, espetáculos de teatro e música, alguns por cá, não pára, é meticulosa, organizada). Agora é a vez da tournée europeia, Portugal na rota. “É uma produção incrivelmente bonita. E levá-la a Lisboa deixa-me muito feliz. Mesmo que, provavelmente, o grande público nem vá saber que aquela pessoa ali a cantar ópera é portuguesa.”

Custa-lhe a falta de reconhecimento, “há imensos artistas que estão fora do país a fazer um trabalho incrível e em Portugal as pessoas nem fazem ideia de quem são”. Tanto há que ao seu lado está outra portuguesa, Francisca Mendo, a fã empedernida d’“O Fantasma da Ópera. “Olhar para a dimensão deste espetáculo, para os talentos que estão envolvidos e saber que há duas portuguesas no meio disto é maravilhoso”, confessa a cantora. Francisca já conhecia Lara, já a tinha visto no West End no papel de Carlotta, ganhou coragem para se confessar fã num almoço, há coisa de dois anos, que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez com artistas portugueses em Londres. A bailarina, 30 anos, pouco mais de um metro e meio, é a mais pequena do elenco do musical, faz questão de o dizer enquanto ri. Fala pelos cotovelos. Cresceu nas margens do Douro, o Porto é a cidade do coração, começou a dançar ballet tinha três anos. Não se lembra da vida sem dança, sem o Centro de Dança do Porto, onde esteve até aos 19 anos, altura em que pôs pés ao caminho além-fronteiras.

O sonho de uma vida

Na verdade, antes de procurar voos mais altos, Francisca ainda começou a licenciatura em Enfermagem, mas a carga horária começou a apertar e conciliar tudo ficou difícil, percebeu aí que não estava preparada para abdicar da dança, mesmo sabendo que “ser bailarina é muito bonito na teoria, mas na prática é um mundo muito precário”. Largou as amarras, desistiu do curso, foi trabalhar para amealhar, esteve na Disneyland Paris como bailarina, na Casa da Música como assistente de sala, deu aulas de dança. Ao cabo de um ano, enfiou-se num avião e foi estudar para Espanha, para o Institute of the Arts Barcelona. No final, pouco sabia do que iria fazer a seguir, lançou-se a uma audição em Londres para um espetáculo que ia percorrer Inglaterra, foi logo selecionada, os astros a alinharem-se, mudou-se para a capital britânica. E apaixonou-se por Londres, com “teatros a cada esquina, bailarinos por todo o lado, uns freelancers, outros a trabalhar em companhias, há um mercado que não existe noutras cidades”. Por lá ficou. Depois dessa primeira digressão, a vida passou a ser audições atrás de audições. Entre espetáculos trabalhava em museus, num ginásio, dava aulas de dança, fazia trabalhos de coreógrafa, era jurada em competições. “Era uma vida de freelancer, tinha muitos trabalhos, é preciso uma organização extrema.” Ainda fez uma tournée com “O Lago dos Cisnes” pelo Reino Unido, na época natalícia. “E veem-se muitas famílias no teatro, há muito essa tradição lá, coisa que admiro muito.”

Até que, depois de uma pandemia que se atravessou implacável pelo caminho, chegou “O Fantasma da Ópera”. Era julho de 2023, azar dos azares estava de férias no Porto quando viu o anúncio para o casting daí a poucos dias. “Sempre quis fazer este espetáculo. No meu primeiro ano em Londres já tinha feito audições para a produção que está no West End, tinha chegado às finais.” Candidatou-se, marcou logo voo para Londres. Fez as audições, adorou a coreografia, o coreógrafo, correu-lhe bem. O email haveria de chegar: ficou com o trabalho. “O meu trabalho de sonho. Depois de tanto investimento, de tantas audições, foi uma felicidade extrema. Mandei logo mensagem à Lara.” Ainda por cima era para fazer tournée, nas pausas podia voltar para o Porto, para junto da família, dos amigos, do namorado. O contrato é longo, vai estender-se até outubro de 2025, deu para respirar fundo, para fazer um intervalo no ritmo frenético de quem anda sempre a correr atrás do próximo trabalho. “As audições foram em julho e em setembro já estávamos no Dubai a trabalhar no musical com que tanto sonhei. No primeiro dia de ensaios pensei ‘uau, não me acredito que estou no meio destes artistas e que nem paguei bilhete para assistir a isto’.”

Francisca interpreta uma das bailarinas da Ópera de Paris, as amigas de Christine. “Antigamente as bailarinas viviam todas na ópera, cresciam juntas. Então, estamos sempre com a Christine. Dançamos ballet clássico, ballet moderno, com grande influência do jazz, também algumas partes contemporâneas. Tem o lado mais teatral e ainda cantamos, sempre em coro.” Só em figurinos conta sete, já ganhou prática nas trocas rápidas, mesmo com o caos em que se transformam os bastidores. O figurino do tutu branco é o preferido, também gosta do de morcego, com asas enormes, muito pesado, são alguns quilos de fato. “É uma produção mesmo gigante, grandiosa, nunca tinha estado num espetáculo tão grande. Somos cem pessoas, entre bailarinos, cantores, orquestra, o som, a luz. Há até uma equipa só para o candelabro.” São oito espetáculos por semana, várias cidades, Lisboa, claro está, será a mais especial para Francisca. Nunca lhe passou pela cabeça que o musical poderia passar por aqui, sabia que no segundo ano de digressão ia correr a Europa, mas quando viu que Portugal estava incluído nem queria acreditar. “É muito emocionante poder mostrar o meu trabalho aos meus amigos, alguns já não me veem dançar há dez anos, por estar fora há tanto tempo.”

“O Fantasma da Ópera” estará em cena no Campo Pequeno até 27 de outubro. E Francisca tem um desejo: “Espero que sirva também para mostrar ao público que há portugueses pelo Mundo a batalhar pelas artes”.

Magazine/JN/MS

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