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Uma estrada cheia de gente estranha: quatro rodas, mil personagens e a minha paciência no porta-luvas…

Cartoon by Stella Jurgen

Há dias em que uma viagem de carro não é uma viagem. É uma sessão de cinema. Só que sem bilhete, sem pipocas e com a possibilidade de alguém me bater na traseira. Entro no carro, ponho o cinto, ligo o motor e parto com a intenção simples e ingénua de chegar ao destino. É aí que começa o espetáculo. Porque o trânsito tem uma coisa maravilhosa: transforma pessoas perfeitamente normais em personagens de uma comédia que ninguém escreveu. Basta chegar ao primeiro semáforo. Olho para o carro da frente e vejo um casal a discutir. Não ouço nada, naturalmente, mas não é preciso. Há discussões que se entendem perfeitamente através dos gestos. Ela fala com as mãos. Ele olha para a frente com aquela expressão de homem que já percebeu que qualquer resposta será usada contra ele. Ela aponta para qualquer coisa. Ele levanta as mãos, num gesto de inocência. Ela cruza os braços. Ele olha para o relógio. É uma peça de teatro. Eu não sei o que aconteceu, mas tenho a certeza de que foi culpa dele. O semáforo fica verde e eles arrancam. A discussão continua. Há discussões que não obedecem aos semáforos. O trânsito pode parar; a discussão não.

Ao meu lado passa outro carro com a música aos berros. Não consigo perceber se é uma música ou um pedido de socorro, porque o grave faz vibrar o meu próprio volante. O condutor canta. E canta com uma confiança admirável para alguém que claramente não sabe a letra. Não sabe a letra, não sabe a melodia, mas sabe uma coisa: é artista. Canta olhando para o espelho retrovisor como se estivesse num videoclip. Talvez esteja convencido de que eu sou figurante.

Mais à frente vejo outro motorista a comer. Não estou a falar de uma bolachinha inocente no sinal vermelho. Não. Aquele homem montou um restaurante dentro do carro. Tem qualquer coisa parecida com um hambúrguer numa mão, batatas na outra e um molho que já parece ter adquirido vida própria. O volante está a ser usado como mesa, prato e provavelmente guardanapo. Penso que há pessoas que conduzem para chegar ao trabalho e há pessoas que fazem do carro uma extensão da cozinha.

Depois aparece uma das minhas imagens preferidas, desta vez na rua: uma senhora com uma camisola completamente salpicada de café do Tim Hortons. Aquilo não é uma mancha. É um mapa. Há café no peito, café no ombro, café na manga. Parece que o copo explodiu, mas, por alguma razão, continua inteiro na mão dela. Olho para ela enquanto atravessa a passadeira e penso que, se houver uma emergência médica no trânsito, aquela senhora já vem com o diagnóstico escrito na roupa: excesso de café. E continua a andar como se nada tivesse acontecido. Admiro-a.

Depois aparecem os atrasados. Esses reconhecem-se à distância. São os únicos capazes de transformar uma ida ao supermercado numa perseguição policial. Mudam de faixa como se o destino da humanidade dependesse daqueles quinze segundos. Ultrapassam pela esquerda, pela direita, por onde houver um espaço com mais de dois centímetros. Buzinam. Travão. Aceleração. Outra mudança de faixa. Mais uma buzina. E eu penso: “Este homem está atrasado.” Depois chego ao semáforo. E quem está parado exatamente ao meu lado? O mesmo homem. Olha para a frente com uma expressão de absoluta concentração, como se tivesse acabado de ganhar uma etapa do Grande Prémio do Canadá. Eu olho para ele. Ele não olha para mim. Talvez não queira admitir que fizemos exatamente o mesmo percurso, só que eu fui com calma e ele com a pressão arterial de um hamster.

Atrás aparece outro carro, este com passageiros que parecem ter desistido da ideia de usar bancos. Há pernas por todo o lado. Uma janela aberta. Um pé espetado para fora. Um pé. Eu olho. A pessoa olha para mim. Eu olho para o pé. Ela olha para o pé. Durante alguns segundos estabelecemos uma comunicação silenciosa. Eu não digo nada. Ela não diz nada. Mas o meu olhar pergunta claramente: “É mesmo necessário?” E o pé responde: “Para mim, é.”

Continuo a viagem. É então que o GPS decide entrar na conversa. “Em trezentos metros, vire à direita.” Tudo bem. Eu ouvi. Mas o GPS parece não confiar em mim. “Em trezentos metros, vire à direita.” Ao mesmo tempo, o carro ao lado aumenta a música. O casal da frente parece ter recomeçado a discussão. Há uma buzina algures atrás. Um bebé chora. Alguém acelera. E o GPS, tentando manter a ordem: “Vire à direita.” Eu baixo o volume da música. “Vire à direita.” Começo a achar que o GPS está irritado comigo. Finalmente viro. “Recalculando.” Aquela palavra tem sempre um certo julgamento. “Recalculando.” Nunca é dita com carinho. O GPS podia dizer: “Tudo bem, acontece.” Mas não. Diz “Recalculando”, como quem acaba de descobrir que entregou o carro a um incompetente.

Mais adiante, reparo num motorista que olha para mim. Olho para ele. Ele continua a olhar. Eu continuo a olhar. E imediatamente nasce entre nós uma desconfiança que nenhum dos dois consegue explicar. Tenho a certeza de que ele acha que eu fiz alguma coisa. Ele provavelmente acha o mesmo de mim. Nenhum de nós sabe o quê. Mas fez. No trânsito, basta um olhar de três segundos para nascer uma rivalidade.

Depois encontro aquele motorista que anda vinte quilómetros abaixo do limite. Vai tranquilo. Sereno. Sem pressa. Parece estar a fazer uma meditação guiada enquanto conduz. À frente dele já há uma fila de carros. Atrás dele, outra. Mas ele não se incomoda. Não tem pressa. Provavelmente também não terá quando chegar a casa. É uma pessoa que vive num fuso horário próprio. Eu olho para o relógio. Olho para a estrada. Volto a olhar para o relógio. Não funciona. O trânsito não tem sentimentos.

E quanto mais tempo passo na estrada, mais personagens aparecem: o homem que discute sozinho com o carro da frente, o que bate no volante, o que buzina por dois segundos de atraso e o que conduz com uma calma invejável.

No meio disto tudo, vou sozinho no meu carro, a observar. Percebo que o trânsito é uma espécie de teatro gratuito. Cada carro tem uma história: há quem vá atrasado, zangado, apaixonado, a cantar ou simplesmente a tentar sobreviver aos outros.

Ah, ia-me esquecendo: no trânsito, há quem quase bata na traseira do carro da frente distraído com outras “traseiras” no passeio. Há também os enamorados pela pessoa ao lado, tão perdidos no olhar que quase provocam um acidente. E, noutro carro, misteriosamente, aparece uma mulher ao lado do companheiro, vinda sabe-se lá de onde — provavelmente do fundo do carro. Ou então estava só a apanhar a caneta ou o telemóvel que caiu para lá, numa verdadeira operação de contorcionismo, sempre com o cinto posto, claro. Que esforço!… passar 15 minutos junto ao porta-luvas, de cabeça baixa. No fundo, essa é a beleza do trânsito: durante alguns quilómetros, desconhecidos partilham a mesma estrada, os mesmos semáforos e a mesma irritação. E, por alguns minutos, somos todos iguais.

Quando finalmente chego ao destino, estaciono, desligo o motor e fico uns segundos em silêncio. Que paz. Nenhuma buzina. Nenhum GPS. Nenhuma discussão. Nenhum pé pendurado. Nenhum homem a comer hambúrguer enquanto conduz. Nenhuma senhora coberta de café. Respiro fundo. Abro a porta. Saio do carro. E, nesse preciso momento, ouço alguém no estacionamento: “Ó AMIGO (Hey, buddy….!) ESSA VAGA É MINHA!” Volto a fechar a porta. Afinal, a viagem ainda não acabou e o chouriço, esse, já grelhou com o calor mesmo antes de chegar ….

Romulo Ávila/MS

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