Paulo Neves: O Diálogo entre a matéria e o escultor

Reconhecido como uma das figuras incontornáveis da escultura contemporânea portuguesa, o artista Paulo Neves apresenta agora a sua mais recente exposição na vila de Mira, uma mostra singular que desafia as fronteiras da matéria. A exposição, desenhada para este espaço, é composta por três núcleos escultóricos circunferenciais, desenvolvidos a partir da relação íntima entre a madeira e a pedra — materiais que se assumem como a essência absoluta da sua linguagem plástica e da sua identidade e um manifesto sobre o peso, a textura, a memória e o tempo.
Desta vez, o escultor traz a público peças nascidas de matérias-primas com uma forte ligação territorial, oriundas do Alentejo, mais concretamente da histórica e rica zona de Estremoz. Trata-se de uma azinheira que secou naturalmente, tombada pelo tempo, e de restos de mármore recuperados de desperdícios industriais. Estes elementos, que para muitos teriam atingido o fim do seu ciclo de utilidade, ganham uma nova vida, dignidade e dimensão poética através do olhar atento e das mãos experientes do artista. No espaço expositivo, o mármore reluzente e a madeira densa não se anulam; pelo contrário, celebram uma simbiose perfeita, onde o mineral e o vegetal se completam. O processo criativo de Paulo Neves está longe de ser um exercício puramente conceptual. Pelo contrário, é um confronto físico, um corpo a corpo diário com as resistências dos materiais. Paulo Neves contextualiza a origem da exposição e partilha a sua intenção de atrair público para a região: “Olha, o que eu trago aqui hoje é madeira e pedra, ambos da zona de Estremoz, do Alentejo. Que é uma azinheira que secou e é restos de mármore. Pronto, é uma… uma exposição que tem a ver com o meu trabalho, com aquilo que eu tenho vindo a desenvolver atrás. E só espero que as pessoas venham cá, porque, apesar de ser um lugar pouco visitado, acho que as pessoas deviam vir mais vezes aqui a este Atrium Raul Almeida em Mira. Por isso mesmo é que eu vim montar a exposição.” Esta declaração do artista revela uma profunda preocupação não só com o fazer artístico, mas também com a descentralização do acesso à cultura, levando as suas criações para fora dos grandes centros urbanos.
Sobre a relação visceral de forças no momento da criação, o escultor complementa de forma poética e concisa: “Não, é… foi sempre a relação entre… isto é sempre a relação entre o material e eu, eu e o material. É desta luta que depois surgiu… surgiu esta exposição.” Esta “luta” a que o artista se refere é visível em cada detalhe deixado pelas ferramentas, em cada superfície polida que contrasta com as áreas deliberadamente mantidas em bruto. Nesta exposição em Mira, os materiais ganham uma dimensão quase orgânica e espiritual. As pessoas são levadas a esquecer a rigidez física dos blocos; a ilusão criada é a de que as peças se encontram em constante mutação, explorando com mestria as tensões eternas entre a força e a delicadeza, a permanência do mineral e a transformação do biológico. O reconhecimento do génio de Paulo Neves não se limitou ao território nacional. Foi sobretudo durante a marcante década de 90 que o escultor consolidou a sua maturidade artística e técnica, alcançando um merecido prestígio internacional através de uma obra singular, marcada por uma forte intensidade expressiva.
Quando questionado sobre a sua marcante passagem por terras canadianas e o impacto que essa viagem transatlântica teve no seu percurso pessoal e artístico, o escultor não escondeu a nostalgia e um desejo genuíno de regressar àquelas paragens. Com enorme sensibilidade, Paulo Neves recordou essa etapa da sua vida: “Oi, foi tão bonito! Gostei muito. Gostava de voltar. A sério que gostava muito de voltar. Foi uma aventura, mas foi uma boa… uma boa aventura, sim. E recordo o Sr. Manuel DaCosta, não é? Que foi uma pessoa fantástica, que me recebeu de braços abertos. Estou… estou muito grato”. O ritmo de trabalho no seu atelier não abranda. O escultor mantém a energia e a paixão de sempre, dividindo o seu quotidiano produtivo entre a execução de grandes encomendas para espaços públicos — onde a sua arte ganha uma dimensão monumental e urbana — e a criação de peças mais intimistas para colecionadores particulares. Com uma agenda constantemente preenchida e solicitações que chegam de várias latitudes, o criador confessa a dificuldade que tem sentido em gerir o tempo disponível para finalizar uma grande exposição individual planeada para Lisboa.
Confrontado com a escala dos seus projetos atuais, o artista partilha o seu estado de espírito e os seus planos de rutura material: “Há muito trabalho, sim. Felizmente há muito trabalho, sim, graças a Deus. Montes de projetos… Olha, eu tenho que fazer agora uma… preparar uma exposição, mas só que não tenho conseguido tempo para ela, que é para Lisboa. Mas tenho tido… tenho tido encomendas, coisas para… públicas, coisas particulares… Mas a próxima exposição talvez seja uma exposição só com ferro. Estou a trabalhar nesse sentido.” Esta revelação de uma futura transição para o ferro representa um momento de viragem e audácia na carreira de Paulo Neves.
Depois de passar décadas a domar a madeira e a esculpir a pedra — dois materiais essencialmente subtrativos, onde o artista retira matéria para encontrar a forma —, a passagem para o ferro abre as portas ao mundo da soldadura, da maleabilidade térmica e da adição de elementos.
Paulo Neves continua a lançar um convite irrecusável ao público: o de parar, observar em silêncio e mergulhar profundamente num diálogo sensorial, tátil e artístico absolutamente único.
É um universo fascinante onde a matéria bruta, tocada pela genialidade e pela sensibilidade humana, teima em não calar a sua voz e em ganhar, perante os nossos olhos, uma vida própria e eterna.
Paulo Perdiz/MS







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