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O Último acorde dos Sepultura

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O Rock in Rio Lisboa de 2026 foi o cenário escolhido para uma das despedidas mais aguardadas e emotivas do heavy metal mundial. Após mais de quatro décadas na estrada, os Sepultura, a maior banda de metal da história do Brasil, está a realizar a sua Farewell Tour (digressão de despedida). 

Num ambiente carregado de nostalgia e energia elétrica, o guitarrista Andreas Kisser concedeu uma entrevista franca e profunda, refletindo sobre o passado, a atualidade e a imensa história da banda que ajudou a colocar o Brasil no mapa da música pesada global. Ao contrário do que muitas vezes acontece em finais de ciclo de grandes bandas, o ambiente nos Sepultura é de celebração e não de melancolia. Questionado sobre o decorrer desta última volta ao mundo, Kisser não escondeu o entusiasmo. “Sensacional. Nós planeamos isto durante muito tempo: fazer esta despedida para podermos curtir, para celebrarmos. É um momento muito especial da nossa história, talvez a nossa melhor tour.” O músico sublinhou a importância de passar por Portugal nesta fase final, relembrando a forte ligação que une a banda ao público português desde a sua primeira icónica atuação em solo nacional, em 1990, durante a promoção do álbum Beneath the Remains e transição para o Arise. “Lembro-me que estava muito emocionado por vir a Portugal pela primeira vez. Há essa conexão cultural com o Brasil e a vontade de conhecer o lugar, de tocar para os fãs”, recordou com carinho, evocando passagens marcantes por Cascais, Porto e edições anteriores do Rock in Rio. A etapa europeia da digressão tem superado todas as expectativas da banda. Depois de um ano de 2025 focado em concertos em nome próprio (headline), o ano de 2026 tem sido dominado pelos grandes festivais de verão, partilhando o palco com os maiores nomes da música contemporânea. Um dos fenómenos mais interessantes notados por Andreas Kisser nesta reta final é a surpreendente renovação do público. O guitarrista apontou que muitas pessoas estão a ver o Sepultura ao vivo pela primeira vez. Não se trata necessariamente de uma questão de idade, mas sim de pessoas que, por vários motivos, acompanharam a carreira do grupo durante anos mas nunca tinham tido a oportunidade de presenciar a descarga de energia em palco. Esta despedida tem funcionado, assim, como um catalisador que “tem tirado muita gente de casa”. Olhando para a bagagem acumulada ao longo de 40 anos de carreira e 18 meses de uma intensa digressão de despedida, Kisser afirma que a aprendizagem é diária, mas que a grande vitória dos Sepultura foi a sua integridade. 

A banda formou-se em 1984, ainda sob o espectro da ditadura militar no Brasil, e cresceu num ambiente de viragem política e social. Os Sepultura celebrizaram-se pela introdução pioneira de elementos da cultura indígena, ritmos brasileiros e até influências orientais no universo rígido do heavy metal. 

Quando questionado se se consideram precursores da internacionalização da música pesada brasileira, o músico assume o papel histórico com orgulho: “Os Sepultura, sem dúvida, são dos pioneiros. Uma banda que começou em 1984… Nós nunca imaginámos o que poderia acontecer. Mas uma coisa é certa: sempre fomos muito verdadeiros e fiéis ao que queríamos fazer.” Kisser recordou as pressões que a banda sofreu ao longo dos anos para suavizar o som, fazer concessões comerciais ou adotar estilos mais populares na rádio brasileira para gerar receita imediata. A recusa em ceder a essas pressões foi, segundo o músico, o que manteve a banda unida e artisticamente relevante, permitindo experiências audazes como o álbum Roots, a colaboração com Carlinhos Brown ou a introdução do berimbau no heavy metal. Numa época marcada por uma forte polarização política global, o Sepultura, historicamente associado a uma postura de contracultura e contestação do sistema, mantém a sua coerência através da arte. 

Andreas desvalorizou as pressões para que a banda se alinhe rigidamente com discursos partidários de esquerda ou de direita, defendendo que o papel do grupo está dito nas suas letras e na música. “A música vem para unir”, afirmou, lamentando o clima atual onde as pessoas parecem “mais querer gritar do que ouvir”. Para o músico, a contestação faz-se no dia a dia através da cidadania responsável e da expressão artística livre, rejeitando qualquer tipo de censura ou cedência a agendas externas. Afastando-se de análises críticas sobre o estado do rock brasileiro em geral, Kisser preferiu destacar a vitalidade e a riqueza do heavy metal atual, caracterizando-o como o estilo musical mais democrático e inclusivo da atualidade. 

O músico apontou, com particular satisfação, a crescente e forte participação das mulheres em bandas de metal no Brasil, alcançando carreiras internacionais de sucesso, bem como a aceitação histórica de figuras homossexuais proeminentes no género, como Rob Halford (Judas Priest), demonstrando que o público do metal abraça e respeita as diferenças. Com o encerramento definitivo das atividades da banda marcado para o dia 17 de novembro de 2026, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, o foco atual está em desfrutar de cada segundo no palco. 

A banda tem aproveitado para celebrar o presente, incluindo no alinhamento três temas do seu EP mais recente, gravado com o baterista Greyson Nekrutman, cuja energia trouxe uma nova vibração ao grupo nesta reta final. Quanto ao dia seguinte ao último concerto, Andreas Kisser demonstra uma serenidade total. Sem espaço para arrependimentos, o músico recordou que a decisão de terminar foi planeada minuciosamente ao longo de dois anos antes do anúncio oficial, envolvendo discussões profundas com as famílias, equipa técnica e agentes. Para o futuro, Kisser planeia dedicar-se a vários dos seus projetos paralelos já existentes, como as bandas De La Tierra e Kisser Clan, o seu programa de rádio em São Paulo e as suas causas sociais. O músico está ativamente envolvido no movimento Mãe Triste e Patfest, que promovem a discussão sobre a morte e os cuidados paliativos, bem como na associação cívica Eu Decido, que luta pela legalização da morte assistida no Brasil. Os Sepultura despedem-se assim dos palcos no auge da sua forma, deixando um legado inabalável de independência, inovação e peso que continuará a ecoar nas próximas gerações de metaleiros por todo o mundo.

Paulo Perdiz/MS

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