O Regresso de Raquel Tavares

No universo do fado, onde a saudade é a moeda de troca e a emoção é o oxigénio, Raquel Tavares sempre foi uma artista na linha da frente. No entanto, houve um momento em que o silêncio pareceu ser a única saída. Afastada dos palcos por um período necessário de introspecção e exploração, a fadista regressa com uma nova aura e com nova energia. Numa conversa reveladora ao Milénio Stadium, Raquel Tavares partilhou o seu percurso de redescoberta, a influência da televisão e da representação na sua arte, e a forma como hoje vê o palco: não como um fardo de expectativas, mas como um regresso a casa.
A conversa começou com um agradecimento caloroso à comunidade portuguesa no Canadá. Raquel Tavares recordou com carinho a sua passagem pela Casa do Alentejo, sublinhando a forma única como os portugueses na diáspora recebem os seus artistas. “A comunidade recebe-nos com um carinho que é mesmo deles”, afirmou, notando que estas plataformas são essenciais para encurtar distâncias e fazer com que quem está longe se sinta “um bocadinho mais perto” das suas raízes. Este sentimento de pertença e a “saudade refletida na forma bonita como nos tratam” são, para a fadista, memórias inesquecíveis que moldam a sua relação com o público. A paragem musical de Raquel Tavares não foi um vazio, mas sim um período de preenchimento por outras formas de arte.
Questionada sobre o que a surpreendeu durante o tempo em que esteve longe dos palcos, a fadista foi assertiva: “Surpreende-me isto de nós não termos que nos contentar de ser uma única coisa.” Embora o fado seja a sua identidade primária desde que se lembra, Raquel sentiu a necessidade vital de perceber o que era a vida para além de ser fadista. Nesta procura encontrou felicidade e realização na televisão e na representação. “Eu fui muito feliz a fazer televisão, e a representar, e em todos os projetos a que me dediquei”, confessou. Esta experiência permitiu-lhe conhecer outras facetas e enfrentar desafios que a tiraram da sua zona de conforto. No entanto, a essência acabou por falar mais alto: “Aquilo que nós somos de raiz fala um bocadinho mais alto… e eu tenho saudades acima de tudo de cantar para as pessoas.” Os três anos dedicados à televisão, especialmente aos programas em direto, dotaram Raquel Tavares de ferramentas preciosas que agora leva para o palco. A fadista destacou a “capacidade de improviso” e a agilidade mental necessária para lidar com o inesperado. “A televisão em direto obriga-nos a ter… alguma coisa para dizer na ponta da língua nos momentos mais mortos”, explicou. Esta vivência permite-lhe agora uma maior interação com o público, utilizando o improviso para cativar a audiência de forma imediata. Cantar fado exige uma exposição emocional imensa, algo que pode levar à exaustão. Aos 41 anos, Raquel Tavares sente que a idade lhe trouxe um equilíbrio necessário. “Quando somos mais novos acabamos por ser todos muito mais intensos, muito mais impulsivos e viver tudo muito mais à flor da pele”, refletiu.
Hoje, a fadista consegue expor-se emocionalmente no palco sem permitir que essa intensidade a afete negativamente fora dele. “Eu uso-os ali, naquele momento… mas fica ali. É basicamente como representar.” Esta capacidade de “cortar” a cena e regressar à sua vida quotidiana, sem carregar o peso das emoções dolorosas que o fado muitas vezes evoca, é uma das grandes vitórias da sua maturidade artística. Sobre o seu novo trabalho, lançado em dezembro, e o regresso aos ensaios, Raquel Tavares descreve a experiência como algo “orgânico”.
O seu primeiro concerto em Barcelona, após o interregno, foi marcado não pelo nervosismo, mas por uma sensação de familiaridade absoluta. “Subi ao palco e era como se nunca tivesse saído dali… voltar aos fados e voltar ao palco é voltar a casa.”
A fadista expressou profunda gratidão pela generosidade do público, que a esperou e a recebeu de braços abertos. Este apoio validou a sua decisão tanto de se afastar como de regressar. “Gosto de fazer isto e sinto que sou capaz”, afirmou com renovada confiança. Numa indústria musical muitas vezes focada no sucesso imediato e na popularidade, Raquel Tavares mantém uma postura de independência. “Eu só voltei à música, não voltei à indústria”, declarou. Para a fadista, a prioridade agora é o divertimento e a entrega artística, livre da pressão comercial. Se um projeto não lhe trouxer alegria, prefere nem sair de casa.
O seu mais recente álbum é um testemunho desta filosofia: um disco de fado tradicional, fiel às suas raízes e àquilo que mais gosta de cantar. A dualidade entre os grandes palcos e a intimidade das casas de fados é uma constante na sua carreira. Raquel confessou que, embora adore a imponência e a energia do Coliseu de Lisboa, é na casa de fados, em Alfama, que o nervosismo fica maior “Onde eu fico nervosa e continuo a ficar é mesmo na casa de fados. É cantar para os meus pares”, revelou. Para ela, cantar perante outros fadistas e músicos é como um atleta jogar no estádio do seu clube: é preciso provar que se pertence àquele lugar.
A proximidade e o respeito pela tradição fazem das tascas e coletividades os locais onde a exigência emocional é mais palpável. Observando a nova geração de fadistas, Raquel Tavares mostra-se otimista e encorajadora. Considera essencial que a música evolua e tenha contemporaneidade, mas deixa um conselho vital aos mais jovens: preservar e conhecer a raiz. “Não há como modernizar um estilo se não o conhecer de raiz. Eles têm que o conhecer primeiro para depois poderem então modernizá-lo e contemporizá-lo.” Para Raquel, o fado subsiste porque é forte e bonito, e é esse alicerce que permite todas as inovações futuras.
Quanto ao futuro, os planos de Raquel Tavares são simples e focados no presente: “Cantar, cantar… depois também quero ver se canto.” Após dois anos de vida vividos dia após dia, a fadista abdicou de grandes planos que, no passado, não correram como esperado.
Atualmente, marca concertos de forma ponderada, escolhendo onde, com quem e para quem quer atuar. O objetivo é a felicidade e a capacidade de emocionar quem a ouve. Citando a expressão brasileira, Raquel Tavares deixa-se levar pela vida, focada na arte sonora que a define e na liberdade de ser, acima de tudo, uma mulher que reencontrou a sua voz.
Paulo Perdiz/MS
Ouça o podcast na Camões Radio com Raquel Tavares, clique AQUI







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