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Liberdade do piano a Solo

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Dezenove anos depois de “Canções e Fugas”, o mestre do piano português quebra o hiato com um novo álbum, revelando como o fado, a pandemia e o improviso sem rede moldaram a sua nova paisagem sonora.

Há quase duas décadas, o panorama do jazz e da música erudita em Portugal era marcado por um lançamento que definiria novos horizontes para o piano solo: “Canções e Fugas”. Hoje, dezanove anos depois, o mestre do piano, Mário Laginha, regressa ao formato que o consagrou como um dos mais sensíveis intérpretes e compositores da sua geração. Numa entrevista exclusiva, o músico partilhou os detalhes deste novo capítulo e como a estrada, o tempo e até o fado moldaram as suas mãos. A pergunta inevitável: porquê esperar quase vinte anos para um novo disco a solo? Para o músico, não se tratou de uma ausência, mas de uma proliferação de diálogos. “Foram aparecendo tantos projetos muito atraentes, coisas que eu queria muito fazer e que fui fazendo. Fui adiando”, explicou. O empurrão final, curiosamente, veio de casa. Laginha revelou que a sua esposa foi a grande impulsionadora para que ele se fechasse novamente em estúdio: “Houve um momento em que pensei: eu não posso adiar mais. Mesmo a minha mulher dizia-me: ‘Tu tens que gravar, tens que gravar!’ E eu gravei”. Um dos pontos mais fascinantes da evolução de Mário Laginha é a sua relação com o Fado, especificamente através da sua colaboração de longa data com o fadista Camané. 

O pianista admitiu que, durante muito tempo, manteve uma distância cautelosa em relação ao género nacional. “Houve muitos anos em que eu não gostava de fado. Depois comecei a gostar”, confessou. Esta mudança não foi apenas de gosto, mas de técnica e alma. 

Laginha descreveu como a convivência com o fado “derrubou um muro” interno, permitindo que novas sonoridades permeassem o seu jazz. “Acho que tudo o que uma pessoa faz musicalmente vai sempre transformando ligeiramente aquilo que se é. Ter tocado muito com o Camané… eu deixei que essa influência começasse a aparecer”. Essa influência é visível naquilo que o músico chama de “ornamentação”. Se outrora o seu estilo era puramente “jazzístico”, hoje as suas mãos procuram as subtilezas das cordas da guitarra portuguesa. “Antigamente era uma ornamentação muito jazzística. Agora, acho que é mais influenciada pelos trilos das guitarras. É o tipo de ornamento… esse tipo de som é muito a influência do fado que deixei entrar”. Ao comparar o novo trabalho com o antecessor, Laginha estabelece uma distinção clara entre o rigor matemático e a liberdade criativa. Enquanto em “Canções e Fugas” o título denunciava uma estrutura quase barroca inspirada em Bach, onde tudo era escrito “da primeira à última nota”, o novo disco respira de outra forma. “Este é um álbum mais livre. No outro, as fugas eram todas escritas. Aqui não há isso. Não há nenhum tema todo escrito do princípio ao fim. Há temas que estão escritos, mas depois têm espaço para improvisar”, explicou o pianista. 

O processo de criação de “Jardim” teve o seu click num período de isolamento global. Durante a pandemia, o piano tornou-se o seu refúgio e o seu interlocutor principal. “Durante o Covid, escrevi bastante música para piano. Estava eu e todos em casa, e aproveitei para escrever. Depois comecei a sentir que tinha reportório e disse: ‘É agora’. Fechei as datas no estúdio e gravei”. Para os puristas do jazz, Laginha reservou uma surpresa neste disco: o improviso total. Para além dos temas estruturados, existem cinco faixas que nasceram do vazio absoluto. “Sentei-me ao piano, pedi para porem a gravar e o que eu toquei ficou. Há cinco desses no disco”, revelou, sublinhando a coragem de se expor sem rede. Essa coragem traduz-se também numa nova postura em palco. Se há dezanove anos a solidão do piano solo trazia uma tensão quase palpável, hoje o músico sente-se mais em paz. “Sinto-me mais liberto e mais descontraído. No momento de subir ao palco, quero fazer o melhor que posso, e há sempre um nervoso miudinho, mas agora comunico com mais facilidade. Sinto-me mais depressa liberto dos nervos e com prazer em estar a tocar”. Mário Laginha recusa-se a ditar o que o público deve sentir. Quando questionado sobre que “filme” as pessoas deveriam criar nas suas cabeças ao ouvir as suas novas composições, a resposta foi de uma abertura democrática: “As pessoas fazem sempre bem em imaginar, porque cada pessoa, ao ouvir uma música, há de construir a sua própria história, que tem a ver com as suas memórias. Portanto, que cada um crie a sua própria história”. Aos que pensam que o regresso ao piano solo significa uma redução de ritmo, o pianista prova o contrário. 

A agenda de Laginha para 2026 é um testemunho da sua relevância internacional. “Daqui a duas semanas vou tocar com um pianista arménio e um estónio na Arménia, num concerto a três pianos em Erevan”, partilhou com entusiasmo. Além disso, uma digressão pela América Latina está já no horizonte para setembro, abrangendo países como o Brasil, Argentina e Equador, sem esquecer os inúmeros concertos em solo português que continuam a esgotar salas. Mário Laginha termina a conversa reforçando que o seu “retorno” não é um regresso ao passado, mas uma chegada a um sítio novo. É a prova de que o piano, embora tenha o mesmo número de teclas, oferece infinitas paisagens para quem, como ele, nunca para de caminhar.

Paulo Perdiz/MS

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