Susana Vieira: A diva brasileira e Shakespeare

As telenovelas brasileiras nos canais de televisão portugueses trouxeram, ao longo das últimas décadas, alguns dos rostos mais conhecidos do Brasil até ao público nacional. Entre eles, uma figura se destaca pela longevidade da carreira, pela irreverência e pela capacidade de se reinventar: Susana Vieira. A atriz, com mais de cinco décadas de carreira e papéis icónicos em produções como “Senhora do Destino” e “Mulheres Apaixonadas” no início dos anos 2000, regressa a Portugal, mas desta vez fora do ecrã, para um encontro surpreendente com a dramaturgia clássica. Aos 82 anos, e provando que a idade é apenas um detalhe para o seu dinamismo, a atriz prepara-se para subir a vários palcos portugueses com o espetáculo “Lady”.
Uma digressão que levará a sua força carismática por muitas salas portuguesas. Susana Vieira, nome artístico de Sónia Maria Vieira Gonçalves, construiu uma das carreiras mais sólidas e reconhecidas da novela brasileira, com mais de 70 produções televisivas no seu currículo. Desde que ousou entrar no universo artístico na década de 1960, a atriz brilhou em teleteatros, novelas na Tupi, Excelsior e Record, antes de se tornar uma das maiores estrelas da TV Globo a partir dos anos 70. A sua marca registada reside na criação de personagens femininas fortes, à frente do seu tempo e, muitas vezes, polémicas. Ela foi a ambiciosa babá Nice em “Anjo Mau” (1976), a romântica Marina em “A Sucessora” (1978), a inesquecível vilã Branca Letícia de Barros Mota em “Por Amor” (1997) – uma personagem que, anos depois, se tornaria um fenómeno de memes na internet devido à sua personalidade excêntrica. Em Portugal, a sua popularidade solidificou-se no início do milénio com novelas que abordavam temas sociais relevantes.
Em “Mulheres Apaixonadas” (2003), a atriz deu vida a Lorena, diretora de escola que protagonizou um debate sobre tabus ao envolver-se com um rapaz mais jovem, Expedito. A própria Susana Vieira relembrou que a personagem de Manoel Carlos foi uma das primeiras a defender essa causa feminista na TV, abrindo caminho para que a mulher madura vivesse um romance com um parceiro mais novo, algo que a sociedade, na época, ainda via com reserva. O auge dessa ligação com o público internacional, contudo, veio com a guerreira Maria do Carmo em “Senhora do Destino” (2004), o papel central que se tornou um dos maiores sucessos de audiência da TV Globo. Maria do Carmo, uma mãe nordestina incansável na procura pela filha raptada, consolidou Susana Vieira como uma “diva” da televisão, admirada pela sua entrega generosa e carisma inigualável.
A resiliência de Maria do Carmo, uma mulher que perde a filha logo no início e passa anos na procura da justiça e do reencontro familiar, espelha a própria força da atriz na vida real. Susana Vieira, que tem ascendência portuguesa, superou desafios pessoais. Essa capacidade de dar a volta por cima sem nunca sair do radar da tv ou do público é, por si só, o maior legado que a atriz oferece ao seu público. É com todo este repertório de vida e arte que a atriz se lança agora no teatro, num monólogo singular que junta a sua biografia com o universo de William Shakespeare. A peça “Lady” é mais do que um espetáculo; é um cruzamento entre a ficção e a realidade, onde a personalidade vibrante de Susana Vieira encontra a sombra ambiciosa de Lady Macbeth. A ideia do monólogo nasceu de uma colaboração anterior com o produtor Edgard Jordão (que descreve “Lady” como “um espetáculo emocionante e singular”) na versão brasileira de “Shirley Valentine”. O texto inédito, escrito pela dramaturga Vana Medeiros, é inteligentemente construído em metalinguagem: a atriz interpreta uma artista que se prepara nos bastidores para encenar Lady Macbeth e, nesses momentos de espera, conversa com o público. É neste intervalo entre a preparação e a entrada em cena que “Susana Vieira” persona revisita os episódios da sua própria vida — as alegrias, as mágoas, as polémicas e os seus infortúnios — num registo que alterna entre o drama e o humor deliciosamente cáustico.
Com 90 minutos de duração e encenação da atriz e realizadora Leona Cavalli, o espetáculo tem sido um sucesso de crítica no Brasil, sendo aclamado como uma obra que permite a Susana Vieira ser, essencialmente, ela mesma: uma diva a “divar” no completo domínio do palco. Os críticos destacam a forma como a peça costura a trajetória da atriz com os trechos da tragédia shakespeariana, sem cair na paródia, mas utilizando a maldade da rainha escocesa como mote para a atriz soltar o verbo e fazer uma reflexão hilariante sobre temas como a condição feminina, o envelhecimento e a natureza da representação.
A atriz, que também é conhecida por ser irreverente e “sem papas na língua” na vida pública – seja por polémicas amplamente exploradas pela mídia, como o fim do seu casamento com o policia Marcelo Silva, ou por momentos espontâneos que viraram meme, como ao tirar o microfone de uma repórter em direto no Vídeo Show —, usa toda essa entrega generosa e carisma magnético para hipnotizar a plateia. Em “Lady”, essa personalidade indomável é canalizada para o palco, onde a atriz assume a total liberdade de rir de si mesma e confrontar a imagem pública que construiu, solidificando a sua posição como uma artista que jamais aceitou ser aprisionada a caixinhas sociais.
O público português terá agora a oportunidade de ver de perto a Diva Imortal que marcou a teledramaturgia em solo nacional, num espetáculo que celebra a vida e a arte de uma atriz que nunca teve medo de ser livre, independente e, sobretudo, nunca saiu do radar, confirmando a sua promessa de se manter ativa e a trabalhar até aos 100 anos.
Paulo Perdiz/MS







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