Rui Reininho: Entre os GNR e a mística do Nepal

Numa conversa franca com o icónico vocalista dos GNR, falámos da criação do seu álbum a solo “20.000 Éguas Submarinas”, as suas influências esotéricas e a relação de décadas com a banda que mudou o rock português.
Rui Reininho é, sem dúvida, uma das figuras mais importantes do panorama cultural português. À frente dos GNR há mais de 45 anos, habituou o público a um jogo constante de palavras, ironia e uma presença de palco que varia entre o ser refinado e o provocador. No entanto, quando se afasta da “casa mãe” para os seus projetos a solo, Reininho revela uma faceta distinta: mais introspectiva, experimental e profundamente ligada a uma espiritualidade que não cabe em fórmulas pop do Grupo Novo Rock (GNR). Encontramo-nos com o músico no Cineteatro Messias, na Mealhada; o pretexto é a sua digressão a solo e o álbum 20.000 Éguas Submarinas. Sempre vestido como um eterno adolescente e com o brilho lúcido nos olhos, Reininho transporta-nos do topo das montanhas do Nepal até às profundezas do mar, numa viagem que é tanto musical quanto existencial. A primeira questão foi: de onde surge um título tão diferente como 20.000 Éguas Submarinas? A resposta, como tudo em Reininho, não é linear. “A coisa foi inventada a quase 4.000 metros de altitude”, começa por explicar, com a voz pausada de quem recorda como um “estalo” intelectual, uma ideia brilhante ou uma descoberta inesperada que surgiu de forma repentina. “Foi ali numa viagem para o Nepal que pensei: é este o disco que quero fazer.”
O músico, que desde 2002 se tem dedicado ao estudo dos gongos e de sonoridades exóticas, sentiu a necessidade de materializar essa procura num objeto artístico. “Sempre tive este fascínio pela música um bocado esotérica. O Nepal foi o gatilho. Estar lá em cima, perto do céu, fez-me querer mergulhar fundo.” O projeto não foi uma ideia solitária, Reininho contou com a colaboração de Paulo Borges, músico açoriano com quem partilha uma visão estética muito própria. “O Paulo viveu muitos anos no Canadá, é um homem de São Jorge, nos Açores. Juntos, construímos este conceito. É uma ideia que tenho: se esta ‘balbúrdia’ aqui na terra continuar assim, vamos ter de voltar todos para o mar”, desabafa, entre risos e uma ponta de seriedade crítica. Em 2027, Rui Reininho celebrará um marco impressionante: 50 anos desde a sua primeira gravação. O disco de Anar Band, lançado em setembro de 1977, foi o ponto de partida de uma carreira que se confunde com a história do rock em Portugal.
O grupo explorava sonoridades de jazz experimental e electrónica precoce. “Pensei para comigo: agora é a altura de eu fazer tudo o que me apetece”, confessa. Depois de 45 anos de uma “vida muito constante” com os GNR — interrompida apenas pelos confinamentos forçados da pandemia —, o músico sente que este é o momento da liberdade total. “Sobra-me tempo e, felizmente, sobram-me ideias para estas coisas. 20.000 Éguas Submarinas é um exercício de libertação, um mergulho em experiências que a estrutura de uma grande banda nem sempre permite explorar.” O espetáculo que apresenta agora é o reflexo dessa evolução. No palco, Reininho faz-se acompanhar por amigos de longa data, como Alexandre Soares — um dos fundadores dos GNR — e Rui Maia (X-Wife). “É muito bom estar aqui com amigos próximos.
O Alexandre inventou os GNR, o Rui Maia inventou sabe-se lá o quê… e temos também um jovem que se estreia connosco hoje. Estes espetáculos não são fáceis, dependem muito da energia do público. Nós damos tudo deste lado, mas precisamos de sentir o que vem do outro lado.” É impossível falar com Reininho sem mencionar os GNR, a banda é a sua pele, mas os seus discos a solo são a sua alma mais nua. Perguntamos como é que a banda influencia o seu trabalho atual. “Eles fizeram-me companhia durante todos estes anos. Mantiveram-me vivo e ao vivo. Se não tivesse tido aquele companheirismo e aquela cumplicidade, hoje se calhar era um desgraçado.” No entanto, o público que o segue nestas incursões solitárias nem sempre é o mesmo que enche estádios para ouvir ‘Dunas’ ou ‘Sangue Oculto’. “Sinto que há gente que acompanha por gostar da personagem, outros porque gostam sinceramente da música e outros porque colecionam. Hoje em dia perdemos muito o controlo com as plataformas digitais”, reflete. Reininho não esconde o seu descontentamento com o modelo atual da indústria: “O que recebemos de certas plataformas não dá para as palhetas. E olhem que eu nem toco palheta, senão nem dinheiro para isso teria!” Ainda assim, a ponte entre os dois mundos existe. No concerto a solo, Reininho inclui temas dos GNR, mas com roupagens novas. “Vamos fazer duas canções, por sugestão do Alexandre Soares. Vamos tocar o ‘Piloto Automático’ e a ‘Sete Naves’, que são músicas que co-compusemos. Respeito muito esse legado e gosto de o trazer para esta atmosfera mais intimista.” Reconhecido como um dos melhores letristas de Portugal, Reininho encara a escrita com uma mistura de disciplina e sofrimento físico. “Agora passou a ser doloroso outra vez por causa das artroses”, brinca, mas com um fundo de verdade. “Voltei a escrever a lápis. Parece que vou ter uma prenda de Natal, um Remarkable, para ver se a coisa é transcrita logo para o papel de forma arrumadinha.” Para ele, escrever é um exercício diário, quase uma ginástica mental. “Faço ginástica para as pernas e outra para a cabeça. É um esforço necessário.” Esse esforço resultou recentemente num disco lançado no dia do seu próprio aniversário, gravado com a Orquestra Jazz de Matosinhos. “Foi uma surpresa agradável para mim. Fico muito feliz por saber que as pessoas ainda têm interesse no que eu faço. Isso faz-me muito feliz.”
A conversa termina com uma mensagem para a comunidade portuguesa no estrangeiro, particularmente no Canadá e Estados Unidos. Reininho recorda com carinho a sua passagem por Toronto e a amizade com Andy Torrence. “Gostei muito daquela cidade. Vocês são os ‘americanos bons’, os americanos do bem”, diz, com o seu humor característico. Apesar de não planear uma digressão extensiva por Portugal — “já enjoa um bocadinho o litoral Porto-Lisboa” —, Reininho continua a magicar projetos. “Tenho ali um cartaz que diz ‘A Grande Fantochada’. Vou ver se invento uma coisa mais… operática. Sou pobrezinho, mas tenho ideias.” Rui Reininho continua a ser um navegador de águas profundas. Quer seja no topo do Nepal ou no palco de um cineteatro, a sua bússola aponta sempre para a autenticidade, mesmo que o caminho seja feito de ironia e de éguas que galopam debaixo de água.
Paulo Perdiz/MS







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