Richie Campbell: A afirmação da música moderna portuguesa

Numa entrevista reveladora, o artista reflete sobre a sua evolução, a importância das suas raízes em Lisboa e Jamaica, o seu impacto no panorama musical e o apelo à comunidade na Diáspora. Ricardo Dias de Lima Ventura da Costa, mais conhecido como Richie Campbell, nasceu em Caxias, em 1986, a sua origem e o seu percurso singular marcam-no como um dos artistas mais influentes e bem-sucedidos da cena musical portuguesa, especialmente a partir da década de 2010. É um músico autodidata, que começou com o seu próprio estilo, misturando referências que iam desde o Reggae ao R&B, passando pelo Dancehall. Esta fusão de géneros, na altura inovadora no contexto nacional, permitiu-lhe rapidamente destacar-se.
A sua ascensão foi meteórica, construída sobre uma base sólida de dedicação e uma clara visão artística. Richie Campbell não se limitou a replicar o que se fazia; ele criou uma sonoridade própria, que falava a uma nova geração e que tinha a ambição de ser universal. O reconhecimento de que é um dos líderes da “nova geração” é hoje uma afirmação concreta, como o próprio reconhece, posicionando-se como parte da “primeira geração de música moderna” em Portugal. Este título não é apenas uma descrição da sua cronologia, mas um reconhecimento do seu papel pioneiro na introdução e popularização de géneros urbanos e jamaicanos no mainstream português. O artista sente esta responsabilidade e a necessidade constante de inovar para manter a sua relevância.
A sua carreira é uma procura incessante pela validação através do trabalho: “A afirmação é todos os dias. Eu sinto que tenho de voltar a provar às pessoas que vale a pena virem aos meus concertos, vale a pena ouvirem as músicas.” Esta mentalidade de constante aperfeiçoamento é a chave para a sua longevidade e sucesso. A carreira de Richie Campbell é um testemunho da sua “constante evolução”. A sua discografia, que conta com projetos cruciais como Focused (2012) e In the 876 (2015), demonstra uma clara progressão e uma recusa em parar num único registo: “Eu tento sempre mudar de álbum para álbum e de projeto para projeto alguma coisa para justificar também o tempo que eu já estou aqui e continuar a surpreender as pessoas e para as pessoas quererem sempre, terem sempre vontade de me ouvir, porque eu trago alguma coisa de novo.”
Cada lançamento é um novo desafio, uma forma de se posicionar e de manter o interesse do público e da crítica. Esta evolução não é apenas estética, mas também técnica. O álbum de 2017, Lisboa, por exemplo, representou uma “mudança muito grande de género” para o artista; neste trabalho, Richie Campbell mergulhou na essência da sua cidade natal, traduzindo o ambiente da capital para o seu estilo. Este trabalho não só lhe deu maior projeção nacional, como também serviu de alicerce para uma sonoridade mais madura. A recente mixtape “Lisboa” e o álbum Originais (2024), são exemplos dessa procura pela perfeição e pela aproximação da sua visão artística. Estes trabalhos são, na sua essência, um exercício contínuo para refinar a forma como a música se manifesta: “Eu sinto que estou um bocadinho mais próximo do que eu quero passar às pessoas e eu acho que nós como artistas estamos um bocado sempre nessa busca de conseguir aperfeiçoar e mostrar cada vez mais e melhor a ideia que nós temos na cabeça, transmiti-la às pessoas, porque tudo o que nós fazemos fica sempre um bocado aquém das ideias que nós temos na nossa cabeça.” A identidade musical de Richie Campbell assenta numa parceria geográfica e cultural. Se, por um lado, as suas raízes estão profundamente ligadas a Lisboa, onde cresceu, por outro, a Jamaica assume um papel crucial como fonte de inspiração e criatividade. O facto de ter crescido em Lisboa torna inevitável a presença da cidade na sua música. Grande parte das suas influências primárias são oriundas do ambiente e da cultura lisboeta.
O artista consegue absorver o pulsar da cidade e traduzi-lo para a sua expressão artística, quer seja nas letras, quer na instrumentação. Para quem é de fora, essa “sonoridade de Lisboa” torna-se facilmente identificável, sublinhando a forma como o local de origem molda a voz do artista. A Jamaica é descrita por Richie Campbell como o país que mais o inspira do ponto de vista criativo e onde mais gosta de passar tempo. Este fascínio não é apenas recreativo, mas sim uma profunda conexão com as origens dos géneros que o definem. O Dancehall e o Reggae são a espinha dorsal da sua música, e a Jamaica é uma fonte inesgotável. Esta ligação é tão forte que o álbum In the 876 é uma homenagem direta à ilha, com o número “876” a ser o indicativo telefónico do país. A gravação deste álbum em Kingston, para além de Lisboa, solidificou esta relação e permitiu-lhe incorporar uma autenticidade sonora que só é possível através da imersão cultural. Esta fonte enriquece a sua música, conferindo-lhe uma credibilidade internacional raramente vista em artistas portugueses do seu género. Richie Campbell é um artista que valoriza a colaboração e a troca de ideias, um princípio fundamental para a evolução do meio musical. Acredita que todos ganham no intercâmbio entre artistas, independentemente da experiência: “Eu sinto que sempre que um artista troca ideias com outro artista, seja esse artista mais experiente, menos experiente, toda a gente ganha. Eu tenho a aprender com os artistas mais velhos, como tenho a aprender com os artistas mais novos também.” A sua própria história é um exemplo de sucesso construído com a ajuda de outros. Ao longo dos anos, colaborou com inúmeros artistas, tanto nacionais como internacionais, enriquecendo o seu próprio trabalho e elevando o perfil dos seus colaboradores. Richie Campbell tem levado a sua música além-fronteiras e é um nome respeitado nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. A sua popularidade é reconhecida pela nomeação e convite para atuar na 14.ª edição dos Prémios Internacionais de Música Portuguesa (IPMA), um evento que celebra a música lusófona na Diáspora. Esta atuação, prevista para abril de 2026 em Providence, EUA, ao lado de nomes como Calema e D.A.M.A., é a prova do seu alcance e da sua importância para os portugueses que vivem fora do país. É precisamente a comunidade na Diáspora o alvo do seu apelo mais direto e apaixonado: “Chamem-me para eu ir tocar ao Canadá, nunca me chamaram. Quero ir tocar ao Canadá, quero ir tocar a todo o lado onde há portugueses e partilhar a nossa música.” Este desejo de se ligar com os portugueses no exterior é um reflexo do reconhecimento, do apoio que recebe e da missão de partilhar a cultura musical portuguesa moderna. Richie Campbell não é apenas um músico; é um motor de mudança no panorama musical português. A sua capacidade de fundir as suas raízes em Lisboa com as influências jamaicanas, aliada a uma constante busca pela evolução e pela perfeição, cimentou o seu lugar como um artista de referência. A sua carreira demonstra que o sucesso é fruto de uma combinação de talento, dedicação e uma clara visão de futuro. O artista promete continuar a trabalhar e a surpreender, mantendo a autenticidade que o define e a ambição de levar a sua música a todos os palcos onde haja portugueses, sobretudo aqueles que ainda não o receberam, como o Canadá. A sua história é uma inspiração para as novas gerações, provando que a música portuguesa tem a capacidade e o potencial para ser verdadeiramente global.
Paulo Perdiz/MS







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