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Portugal finalmente aprendeu a ouvir-se

Credito: DR

Do Hip Hop ao Pimba, 2025 é o ano em que os portugueses deixaram os sucessos estrangeiros de lado para celebrar o que é nosso. Durante o último ano aqui no Arte Sonora destacamos muitos artistas. O que vimos em 2025 não foi apenas música de melhor qualidade; foi, acima de tudo, uma nova forma de os portugueses consumirem o que os nossos artistas criam. Hoje, Portugal vive uma proximidade com os seus músicos que não se via há décadas. Já não ouvimos rádio apenas por ouvir. Somos agora ouvintes atentos e, acima de tudo, orgulhosos do que se canta em português. 

Esta mudança começou na internet, mas espalhou-se por todo o lado. Este ano, o streaming em Portugal atingiu números nunca vistos, mas com um detalhe importante: o domínio é nacional. Se antes as tabelas do Spotify eram ocupadas por artistas americanos ou ingleses, agora o topo é de nomes como Dillaz, Slow J ou Ivandro. Os portugueses perceberam que a sua vida — as ruas de Lisboa, os bairros do Porto ou a calma do interior — é muito melhor contada e cantada pelos nossos artistas. Mas nem tudo é digital, curiosamente, nunca se comprou tanto vinil e edições especiais em Portugal como agora. As lojas de discos voltaram a ser pontos de encontro. Ter o álbum da Carminho ou de uma banda de rock português em vinil tornou-se um símbolo de apoio direto ao artista. 

Queremos tocar na música e guardá-la como um objeto de arte. Ao mesmo tempo, o público português apaixonou-se pelo “palco”; as salas de espetáculo, como o Coliseu do Porto ou o Campo Pequeno, esgotam com meses de antecedência para artistas da casa. As pessoas querem estar lá, cantar as letras do início ao fim e fazer parte da festa. Para perceber esta mudança, temos de olhar para todos os estilos, em 2025, todos têm o seu lugar. O Hip Hop e o R&B dominam as cidades, mas a música “Pimba” continua a ser o grande motor das festas pelo país fora. Hoje, o Pimba já não é visto como um estilo “menor”, é a música que une as pessoas nas romarias e arraiais. Artistas como Quim Barreiros, Augusto Canário ou Emanuel continuam a ser os que mais quilómetros fazem na estrada. Em 2025, até artistas do Rock e da Pop começaram a colaborar com músicos populares, reconhecendo a sua capacidade de falar diretamente com o povo; vimos isso com os D.A.M.A que lançaram temas que se aproximam da música tradicional e popular, tais como: “Sozinha”: uma nova versão do grande êxito de Ágata (ícone da música pimba), interpretada em conjunto com a própria cantora. 

No Fado, a mudança também é clara, já não é só música para turistas. O fado hoje é moderno e ouve-se em qualquer lugar: no carro, no trabalho ou em casa com amigos. Artistas como Carminho ou Gisela João levaram o fado para os grandes auditórios, misturando a tradição com sons novos e eletrónicos. Já o Rock e a Música Alternativa mantêm fãs muito fiéis. Bandas como Linda Martini ou Capitão Fausto têm seguidores que compram tudo o que eles lançam e não perdem um concerto. É um sinal de resistência contra a música “comercial” que vem de fora. Não podemos esquecer a força da música que vem de Angola, Cabo Verde e Brasil. O Kizomba e o Afrobeat fazem parte do nosso dia a dia, seja na rádio ou nas discotecas. Em Portugal, já não distinguimos o que vem de Luanda ou da Margem Sul; consumimos o ritmo e a língua com a mesma naturalidade. Esta mistura tornou o nosso mercado muito mais rico e interessante. Outra grande vitória de 2025 é o fim do preconceito. Hoje, é normal ver pais e filhos no mesmo concerto de rap; tornamo-nos ouvintes “omnívoros”: podemos ouvir o trap de Lon3r Johny de manhã e a poesia de Mazgani à tarde. 

É perfeitamente aceitável ter na mesma lista de reprodução o Jazz de Mário Laginha e o sucesso de festas da Rosinha. Esta liberdade de escolha mostra que o público português está mais maduro. As redes sociais, como o TikTok e o YouTube, também ajudam muito. Um vídeo viral pode transformar um artista desconhecido num sucesso nacional num instante. Além disso, o impacto económico é real: os festivais de música por todo o país ajudam a dar vida ao comércio e ao turismo, levando as pessoas a viajar para verem os seus ídolos. Claro que há desafios, com tanta música a sair todos os dias, é difícil para os artistas manterem-se relevantes durante muito tempo. O mercado está muito rápido. No entanto, a tendência é positiva. Os portugueses estão a ouvir mais, a variar mais e a apoiar o que é feito em Portugal. Consumir música em Portugal hoje é um ato de identidade. Percebemos que, ao apoiar os nossos músicos, estamos a valorizar a nossa própria história. Portugal não está apenas a ouvir; Portugal está a vibrar na mesma frequência que os seus artistas. O Pimba traz-nos a alegria, o Fado a alma, o Hip Hop a voz e o Rock a atitude. 

Agora que 2025 chega ao fim, fica a certeza de que a música portuguesa não é uma moda passageira. É um movimento imparável, uma força cultural que se afirmou com uma maturidade sem precedentes. Saímos deste ano com o eco dos aplausos em salas cheias, do Coliseu aos festivais de verão, e um orgulho enorme na nossa voz — uma voz que hoje fala todas as línguas e toca todos os géneros. Mas o fecho deste ciclo é apenas o ensaio para o que aí vem. 

A Arte Sonora já está de olhos postos no horizonte, com a convicção de que o melhor ainda está por escrever. Esperamos que 2026 traga ainda mais sucessos, que a inovação tecnológica se cruze com a tradição das nossas raízes e que a nossa música continue a crescer sem limites geográficos. Portugal está pronto para continuar a fazer história nos palcos, e a Arte Sonora espera ansiosamente por estes grandes nomes que prometem definir o próximo ano. Queremos ser um espaço  onde se escreve os novos álbuns, onde se entrevista e onde se celebra o talento daqueles que elevam principalmente a bandeira nacional. O futuro será bom, e nós estaremos aqui para o escrever.

Paulo Perdiz/MS

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