O Enigma de Israel: Henrique Cymerman no Milénio Stadium

O jornalista e historiador Henrique Cymerman visitou Portugal para uma série de apresentações do seu novo livro, uma obra que surge como um imperativo de clarificação face aos acontecimentos traumáticos e complexos de 7 de Outubro de 2023. Em conversa exclusiva no Milénio Stadium, Cymerman partilhou a génese da sua mais recente publicação, descrevendo o momento exato em que percebeu a dimensão histórica e a urgência de contrariar a maré de desinformação que se seguiu.
Com uma vasta carreira como correspondente internacional para veículos como a SIC (Portugal), La Vanguardia (Espanha) e GloboNews (Brasil), o correspondente, que é também professor na Universidade Reichman em Israel, tem dedicado as últimas décadas à cobertura da região do Médio Oriente. Recentemente, a sua notória influência diplomática foi reconhecida: em 2023, foi nomeado pelo Papa Francisco Embaixador pessoal para o Diálogo Mundial e solução de conflitos. Além disso, Cymerman é fundador e presidente da Câmara de Comércio e Inovação Israel-Países do Golfo e participou ativamente nos Acordos de Abraham. Cymerman sublinhou que a sua obra nasce da convicção de que o ataque terrorista daquela manhã foi, possivelmente, o maior da história mundial, e que a resposta a essa violência passaria inevitavelmente pela manipulação narrativa e pelo revisionismo histórico. O desafio, segundo Cymerman, reside em explicar ao público a profundidade e a complexidade de um conflito que, paradoxalmente, é o mais noticiado, mas o menos compreendido no mundo. Esta incompreensão é amplificada pela era digital, transformando-o no que ele define como o primeiro “Conflito do TikTok”, onde a informação é consumida em fragmentos de 15 a 30 segundos, uma duração manifestamente insuficiente para apreender a realidade multifacetada de Israel. A entrevista focou-se na necessidade de resgatar o contexto e a história para além dos estereótipos, procurando as bases para uma paz duradoura.
Milénio Stadium: Correu bem a promoção do seu livro em Portugal?
Henrique Cymerman: Eu acho que superou todas as minhas expectativas. O que está a acontecer em relação ao Médio Oriente é uma coisa verdadeiramente incrível. O grau de cobertura, de envolvimento, de interesse e, também, de desinformação em muitos aspetos, é enorme — como eu nunca tinha visto, e eu sou correspondente há muitos anos. Isto demonstra que há um interesse e uma proximidade muito grande em relação ao Médio Oriente.
M.S: Qual foi o momento que o levou a escrever este livro?
H.C: Foi na manhã do dia 7 de Outubro. Comecei a entender na realidade que era o maior atentado terrorista da história — talvez mundial. Quando percebi isso, disse: “É preciso explicar.” Entendi imediatamente que ia começar uma campanha de desinformação, de revisionismo, de gente que ia dizer que isto nunca existiu. E aí decidi escrever o livro.
M.S: Este é o conflito com mais informação, mas que menos se entende?
H.C: É o conflito com mais quantidade de informação e que menos se conhece. É impressionante, mas é assim. E há um grau de desinformação enorme. Estamos a viver um conflito que eu diria que é o primeiro conflito do TikTok, no qual os jovens se informam através de filmes de 15, 30 segundos, e isso é impossível. É preciso perceber que estamos a falar de uma realidade muito complexa.
M.S: Qual o maior desafio ao escrever, sendo jornalista, historiador e com raízes no conflito?
H.C: O maior conflito foi resumir quais são realmente os pontos de mais ignorância, por um lado, e de mais estereótipos, pelo outro. Tentei responder a essas duas perguntas, e pensar ao mesmo tempo em possibilidades: de onde nos pode levar o processo de paz. Não há outra alternativa. É preciso continuar a pensar na paz, apesar da dor e do luto.
M.S: Sobre a diplomacia da fé: qual a sua importância para a paz?
H.C: Entendo hoje em dia que há um elemento muito importante da religião neste conflito. Não se trata só de uma questão de real estate, de imobiliária, é uma questão de crenças religiosas. Uma das conclusões que tirei, e que falava muito com o Papa Francisco, é que é preciso educar para a paz.
M.S: Qual é o enigma de Israel?
H.C: Dizia Ben-Gurion, o fundador de Israel, que num país como Israel, quem não acredita em milagres, não é realista. Eu acho que Israel é um grande milagre, mas às vezes é preciso ajudar a que esse milagre vá para a frente. Estou convencido que se eu tivesse que apostar, eu apostaria pelo futuro de Israel.
M.S: Uma mensagem final para a comunidade portuguesa no Canadá e América do Norte.
H.C: Que não se esqueçam nunca de Portugal, que não se esqueçam nunca das raízes. Que eduquem os jovens nessas raízes. Eu, quando venho a Portugal, como bacalhau e caldo verde em tal quantidade que se me fizessem análises de sangue, saía bacalhau! Mas temos que manter os vínculos a sério. Não só através da gastronomia, muito mais através da cultura, através da língua, ensinar às próximas gerações a língua. Portugal tem hoje uma reputação internacional muito grande. É muito importante que a comunidade portuguesa reforce esses vínculos com a Metrópole.
Henrique Cymerman reforçou a sua aposta no futuro de Israel, classificando o país como “um grande milagre” que, no entanto, necessita de ser ativamente cultivado e defendido. O jornalista fez questão de sublinhar que a persistência no diálogo e a busca por soluções pacíficas continuam a ser a única via, mesmo que desafiadas pela escala de violência e desinformação que caracteriza a cobertura atual. A sua experiência de convivência e diálogo, nomeadamente com o Papa Francisco, reforça a convicção de que a religião — muitas vezes vista como causa de divisão — deve ser mobilizada como um motor para a paz, através da educação. Dirigindo-se à vasta comunidade portuguesa residente no estrangeiro, Cymerman concluiu com um apelo emocionado à preservação da identidade lusófona: um convite para que não se diluam os laços com a “Metrópole”, Portugal, que tem vindo a conquistar uma reputação internacional crescente, deixando de ser um “cantinho da Europa” para se afirmar globalmente. Reforçar esses vínculos passa, segundo ele, pelo ensino da língua e da cultura às gerações mais jovens, garantindo que o legado português se mantenha forte para além da gastronomia. Este reforço dos laços é visto não só como um ato de memória, mas como uma necessidade cultural para o futuro.
Paulo Perdiz/MS







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