Joaquim de Almeida: O Embaixador do Cinema Português

Num dia magnífico, Joaquim de Almeida recebeu a equipa do Milénio Stadium para uma conversa sobre a sua carreira, os sacrifícios da vida como ator e o estado atual do cinema. Prestes a embarcar para os Ipma Awards 2026, o ator, que é um dos rostos mais reconhecidos da cultura portuguesa no estrangeiro, refletiu sobre o seu percurso desde os tempos de um “mau aluno” em Lisboa até se tornar uma presença incontornável em Hollywood.
A história de Joaquim de Almeida no cinema não começou por uma urgência, mas sim por uma sucessão de acasos e rebeldias. Vindo de uma família de oito irmãos, com um pai proprietário de laboratórios farmacêuticos, o destino esperado seria a ciência ou a medicina. Contudo, após chumbar no 5.º ano de ciências e perceber que o ambiente laboratorial não era para si, Joaquim encontrou a sua vocação numa viagem de Interrail em Paris. Ao ver uma amiga a ensaiar num teatro, foi convidado a ler o papel de um ator doente. “Percebi logo que isto era o que eu fazia todos os dias”, recorda. O regresso a Portugal levou-o ao Conservatório Nacional, que acabou por fechar após a Revolução de 25 de Abril, empurrando-o para Viena de Áustria e, finalmente, para Nova Iorque. O sucesso em solo americano não tardou. Através de uma diretora de casting da Paramount, Joaquim conseguiu as suas primeiras audições sérias, garantindo um papel no filme The Soldier. Com o primeiro grande cachet, a sua prioridade foi pragmática: comprar o trespasse do seu loft, um investimento que manteve até 2004.
Ser o “primeiro português em Hollywood” trouxe-lhe responsabilidade, mas Joaquim sublinha que a verdadeira dificuldade não é chegar, mas sim manter-se. Com cerca de 165 créditos em cinema e televisão, o ator recorda que o reconhecimento em Portugal demorou a chegar. Foi apenas após o sucesso de Perigo Iminente (Clear and Present Danger), ao lado de Harrison Ford, que o público nacional se rendeu à evidência de que Joaquim de Almeida era uma estrela global. Conhecido nos Estados Unidos pelos seus papéis de antagonista, Joaquim explica que o seu segredo reside na humanização. “Os seres humanos têm emoções. O mau que é mau só por ser mau não tem piada”, afirma, recordando a cena em 24 Horas onde, após matar o próprio irmão, deixa cair uma lágrima. A sua versatilidade linguística — trabalhando em português, inglês, espanhol, francês e italiano — é uma das suas maiores ferramentas. Para Joaquim, saltar entre línguas não é confuso; pelo contrário, ajuda a separar as personagens. “É muito mais fácil estar a fazer um filme numa língua e preparar outro noutra, porque assim as coisas não se misturam”. Ao longo de décadas, Joaquim partilhou o ecrã com nomes como Michael Caine, Gene Hackman e Sandra Bullock. Para ele, trabalhar com os grandes é sempre mais fácil: “Os grandes atores são muito mais seguros de si mesmos”. Por outro lado, admite alguma dificuldade em lidar com jovens atores que, com apenas dois ou três trabalhos, mostram uma arrogância desmedida.
Sobre os grandes blockbusters, como Velocidade Furiosa 5 (Fast Five), o ator é sincero: aceitou o papel pelo impacto financeiro e pelos direitos de autor (residuals), mas acabou por se divertir imenso nas filmagens em Porto Rico e Atlanta, interpretando personagens que são “um bocadinho maiores que a vida”. Questionado sobre o estado do cinema em Portugal, Joaquim é direto: “Não há muita indústria”. Lamenta a falta de meios e o facto de os subsídios parecerem ir sempre “para os mesmos”, embora elogie produções recentes como Rabo de Peixe, que teve um orçamento mais robusto. Relativamente ao futuro e à Inteligência Artificial, o ator confessa algum receio, especialmente no que toca ao uso da imagem sem consentimento. No entanto, reconhece que a tecnologia veio para ficar e pode ser útil, por exemplo, na recriação de cenários de época sem a necessidade de produções logísticas pesadas. A vida de um ator internacional exige sacrifícios, e Joaquim fala com honestidade sobre a gestão da culpa por ter estado longe dos filhos durante as filmagens. Se o seu filho mais velho ainda o acompanhou em muitas viagens, a sua filha sentiu mais a ausência de um pai presente devido às constantes filmagens nos Estados Unidos. “Ela ressente-se um bocado… e eu compreendo”, admite. Aos 69 anos, a ideia de reforma já não é um tabu — Joaquim já recebe reforma dos EUA e fez os seus investimentos — mas a paixão continua viva. Atualmente, prefere papéis que não o obriguem a estar no set todos os dias, mas continua aberto a projetos que o entusiasmem.
Ao ser questionado sobre como gostaria de ser recordado daqui a 50 anos, Joaquim de Almeida responde com o seu humor característico: “Gostava que houvesse um outro ator que dissesse: ‘Olha, este finalmente fez mais que o Joaquim de Almeida'”.
Paulo Perdiz/MS







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