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Clã: Três décadas de pop-rock português

De regresso aos palcos com o álbum “Véspera”, a banda liderada por Manuela Azevedo mostra longevidade, a urgência de cantar o presente e a constante mutação de um som que se recusa a envelhecer.

Desde que os primeiros acordes de “LusoQualquerCoisa” ou “Problema de Expressão” ecoaram nas rádios nacionais nos anos 90, os Clã estabeleceram-se como uma entidade singular no panorama musical português. Não são apenas uma banda; são uma marca de rigor, inovação e uma espécie de “laboratório” onde a palavra dita em português ganha texturas diferentes. Com mais de trinta anos de carreira, o grupo continua a desafiar os limites do que se espera de uma banda de pop-rock, mantendo uma frescura que muitos recém-chegados invejam. Numa conversa íntima e reveladora, Manuela Azevedo, a voz carismática e inconfundível da banda, partilhou os segredos de uma união que sobreviveu à passagem do tempo, às mudanças na indústria e, mais recentemente, a uma pandemia que moldou o seu trabalho mais recente, “Véspera”. Manter uma banda unida por mais de trinta anos é um feito raro na música portuguesa. Quando questionada sobre o segredo dessa persistência, Manuela Azevedo é pragmática e afetuosa: “O prazer de tocar uns com os outros”. Para os Clã, a música nunca foi apenas um negócio, mas um espaço de descoberta contínua: “Tivemos sorte e algum sucesso porque fomos muito felizes em todo este processo”, afirma a vocalista. Durante 28 anos, o núcleo duro manteve-se inalterado — os mesmos seis elementos. Foi apenas em 2019 que a formação sofreu a sua primeira grande alteração, com a entrada de Pedro Oliveira e Pedro Santos (bateria e baixo), que trouxeram, segundo Manuela, “uma injeção de sangue novo e de boas ideias”. Mas o caminho nem sempre foi pavimentado a ouro; Manuela recorda que, no início da carreira, em 1992, o conselho que dariam a si próprios seria “paciência e persistência”. O álbum de estreia foi aclamado pela crítica, mas o sucesso comercial demorou a chegar. “Tivemos quase a desistir”, confessa. Valeu a teimosia e a crença no trabalho de Hélder Gonçalves, o mentor musical e compositor de quase todos os temas da banda. O último trabalho discográfico da banda, “Véspera” (2020), é um caso curioso de sincronicidade artística. Gravado pouco antes do mundo fechar devido à COVID-19, o álbum carrega uma atmosfera de urgência e iminência que se tornou profética. “Parece que o mundo estava estranho… olhávamos para o futuro com alguma ansiedade”, explica Manuela. Canções como “Sinais”, com letra de Samuel Úria, falam precisamente dessa distração quotidiana que nos impede de ver o “planeta a arder” e a violência a crescer ao nosso redor.

O título do álbum resume este estado de espírito: estar na “véspera” de algo transformador, seja uma revolução ou uma catástrofe. O lançamento coincidiu exatamente com o decreto de confinamento em Portugal. Em vez de guardarem o disco, os Clã decidiram lançá-lo, tornando-se a banda sonora de muitos portugueses isolados em casa. “Soube-nos muito bem… tivemos eco de muita gente que ouviu o disco e que nos disse que foi uma excelente companhia para aqueles tempos de confinamento”. Um dos pilares dos Clã é a sua relação profunda com a língua portuguesa e com os seus letristas. Hélder Gonçalves compôs a música, mas a banda sempre abriu as portas aos melhores poetas e escritores da sua geração. No currículo, contam-se colaborações com Carlos Tê, Sérgio Godinho, Arnaldo Antunes e Regina Guimarães. Em Véspera, a banda estreou uma colaboração com Capicua, que escreveu “Armário”, um retrato quase acidental do confinamento, escrito antes da pandemia ser uma realidade. Manuela destaca que este intercâmbio entre gerações e estilos é o que mantém a banda relevante. “Há cada vez menos preconceitos em olhar para o passado… e um gosto na descoberta daquilo que faz toda a música portuguesa”.

A vocalista reflete ainda sobre a dificuldade inerente de cantar em português europeu, mencionando o tema “Problema de Expressão” como um marco que define o ADN da banda. A música explora a natureza “fechada e menos melódica” do nosso sotaque, comparado com o brasileiro ou o angolano, e a dificuldade de dizer coisas bonitas e diretas como “amo-te” ou “quero-te muito” sem soar estranho. Apesar de nunca terem tocado no Canadá, Manuela expressou um desejo vibrante de levar a música dos Clã à comunidade portuguesa no estrangeiro. Para a banda, tocar para a diáspora é uma forma de reavivar a ligação à língua e à cultura contemporânea, fugindo aos clichés do fado ou da música popular mais tradicional. “Gostava que a música portuguesa… a sua música mais contemporânea e mais jovem, fosse uma forma de voltar a ligar as gerações mais novas da comunidade portuguesa à língua”. Para Manuela, os Clã não são apenas entretenimento; são um veículo de pensamento sobre a realidade portuguesa num mundo globalizado. Enquanto se preparam para o sucessor de Véspera, os Clã mantêm o radar afinado.

Seja num palco grande ao ar livre, com a energia do rock “eletrizante”, ou num auditório fechado, onde a “qualidade da escuta” permite pormenores mais delicados, a banda continua a provar que a música não tem prazo de validade quando é feita com honestidade intelectual e prazer físico. Como disse Manuela Azevedo no final da sua conversa: “A arte portuguesa deve ajudar-vos a olhar para o mundo de uma maneira mais atenta, mais informada, com mais imaginação e, espero eu, também com alguma esperança”.

Paulo Perdiz/MS

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