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Chico César – 30 anos de música, liberdade e o regresso às raízes

Credito: Ana Lefaux

Numa entrevista exclusiva, o cantor e compositor brasileiro falou sobre as três décadas do álbum que mudou a sua carreira, a relação com Portugal e o que esperar do seu próximo trabalho, “Fofo”.

Chico César não é apenas um dos maiores nomes da música brasileira contemporânea; ele é um filósofo atual. Com um sorriso constante e a serenidade de quem sabe o peso e a leveza da sua arte, o músico paraibano visitou Portugal para uma tour que mostra muito mais do que datas no calendário: celebra a sobrevivência e a renovação de um repertório que se tornou parte do ADN cultural do Brasil. O pretexto para a atual tour europeia, que percorreu cerca de dez cidades portuguesas antes de seguir para Zurique e Madrid, é a celebração dos 30 anos (agora 31, como ele mesmo corrige com precisão) do seu disco de estreia, “Aos Vivos”. Lançado em meados dos anos 90, o álbum foi um divisor de águas. “Foi um disco que impactou bastante a cena da música brasileira”, relembra Chico. Segundo o artista, o trabalho abriu portas para uma geração que inclui nomes como Lenine, Zeca Baleiro e Paulinho Moska, redefinindo o que se entendia por música popular brasileira naquele momento.

Curiosamente, o formato acústico e cru que consagrou o disco não foi uma escolha estética planeada, mas uma necessidade prática. “Foi falta de dinheiro”, confessa com risos. Sem recursos para passar semanas em estúdio de gravação, Chico optou pelo caminho mais rápido e barato: gravar ao vivo em apenas dois dias. O resultado foi uma obra que mostrou a essência da sua voz com a  guitarra acústica, criando uma intimidade com o público que dura até hoje. Apesar de ser muito conhecido pelas suas atuações a solo, Chico César revela uma perspectiva surpreendente sobre a liberdade artística. Para ele, estar sozinho no palco com a sua guitarra é o momento em que se sente mais “exposto”, e não necessariamente mais livre. “Eu me sinto mais livre quando estou tocando com os meus amigos, com a minha banda”, explica. Para o músico, a liberdade não é um exercício individualista ou de elevação do ego, mas algo que só se realiza plenamente na troca, na soma e no convívio com o outro — seja na música, no amor ou na vida. Essa ligação com o outro é o que mantém vivas canções como “Mama África”, “À Primeira Vista”, “Beradêro”, “Mulher e Eu”, “Templo”, “Dança” e “Nato”. Chico afirma que cada noite de concerto traz uma frescura nova, pois a reação de cada plateia é única, transformando músicas escritas há décadas em experiências presentes e surpreendentes. Questionado sobre a carga política das letras, Chico é categórico: “Há sempre”. Para ele, a política está na escolha de cada palavra. Ao cantar “Mulher e Eu”, por exemplo, ele entende que a abordagem das questões de género e o respeito à subjetividade feminina são atos políticos profundos. A sua origem no Nordeste brasileiro também é um pilar central da sua identidade. Citando mestres como Dorival Caymmi, João Gilberto e Luiz Gonzaga, além de contemporâneos como Caetano Veloso e Gilberto Gil, Chico defende que a música nordestina é a que dá a verdadeira “cara de brasilidade” ao país. Ele vê o Brasil como uma “eterna construção” que, ao mesmo tempo, já é ruína, e acredita que a sua mensagem continua atual para o mundo, especialmente em tempos de retrocessos sociais e culturais. Após concluir a tour europeia, Chico César já tem os olhos postos no futuro. Ele revelou que está a trabalhar no novo álbum, cujo nome será “Fofo”. O disco é um mergulho no seu passado. Cerca de dois terços do disco serão compostos por canções que ele escreveu entre os 17 e 20 anos de idade, enquanto ainda vivia na Paraíba, antes de se mudar para São Paulo. “São canções mais angustiadas, mais dissonantes, mais complexas”, descreve. Contrastando com a simplicidade e transparência que adquiriu com a maturidade, Chico quer agora resgatar esse material mais “hermético e contundente”, misturando-o a composições recentes feitas durante a pandemia. No final da conversa, Chico deixou uma mensagem poderosa para a comunidade lusófona no Canadá e em todo o mundo; relembrando sua própria vida de migração dentro do Brasil e as suas viagens pelo mundo: “Todo mundo é migrante. Todos os habitantes da Terra têm o direito de viver em qualquer lugar.” Seja em Portugal, no Canadá ou no Brasil, Chico César continua a ser uma voz que une fronteiras através da música, lembrando-nos de que, na “permuta” e no “convívio”, somos todos um pouco mais livres

Paulo Perdiz/MS

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