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Capicua

Resistência Poética e o "Gelado" contra o Fim do Mundo

Credito: DR.

Ana Matos Fernandes, conhecida pelo nome artístico Capicua, é uma das figuras mais ativas da música portuguesa atual. A rapper e socióloga partilhou uma reflexão profunda sobre o seu percurso, a sua visão política do mundo e os processos íntimos que dão vida às suas letras. Numa conversa que atravessou desde o impacto das alterações climáticas até à beleza das pequenas pausas quotidianas, Capicua revelou como a arte pode servir de âncora num tempo de incerteza global.

O ponto de partida da conversa foi o título sugestivo do seu espetáculo e do imaginário que rodeia os seus últimos trabalhos: “Um gelado antes do fim do mundo”. Este disco convida-nos a limpar as lentes que o tempo foi tornando foscas, para nos deixarmos impactar, para não cedermos ao adormecimento e ao vício da dopamina rápida, para aguçar o espírito crítico, para renovarmos os votos com as utopias e não sucumbirmos à angústia vigente e à ansiedade da informação incessante. Para a artista, esta expressão encapsula os desafios da atualidade, como a escalada de conflitos, a crise climática e a ascensão da extrema-direita. No entanto, longe de se render ao niilismo, Capicua propõe o “gelado” como uma metáfora de esperança e prazer. “Não é o desespero que nos mobiliza para resolver problemas ou lutar por um mundo melhor”, afirmou, sublinhando que é a vontade de preservar o que é belo — um mergulho no mar ou uma árvore centenária — que realmente nos move. Comer um gelado à beira do passeio torna-se, assim, um gesto de resistência e uma pausa necessária para apreciar a delicadeza da vida no meio do caos.

Com formação em Sociologia, Capicua admite que o seu olhar sobre a realidade é indissociável da sua formação académica. Descrevendo-se como uma “Mafaldinha” (em referência à personagem de Quino) desde a infância, a artista explicou que já carregava preocupações sociais muito antes de chegar à universidade. Essa bagagem reflete-se num disco que se divide em duas metades claras: uma vertente política e interventiva, focada na empatia e na crítica social, e uma vertente autobiográfica e emocional, que funciona como um retrato íntimo dos últimos anos, incluindo a sua experiência com a maternidade. Para Capicua, um disco é sempre o espelho de uma época, mostrando as notícias dos jornais como o que se passa dentro de quatro paredes. No campo musical, o seu trabalho recente marcou uma ruptura com processos mais clássicos do hip-hop. Sob a produção de Luís Montenegro, a artista explorou uma fusão mais livre entre a eletrónica e os instrumentos orgânicos. Cada faixa nasceu de um estímulo diferente, permitindo-lhe transitar com fluidez entre o rap, a palavra dita (spoken word) e a palavra cantada.

A poesia surge aqui como a espinha dorsal de todo o projeto, conferindo coerência a uma sonoridade que viaja entre tons sombrios e momentos mais solares e “cor-de-rosa”. Além da música, a escrita de crónicas para o Jornal de Notícias é uma parte essencial do seu ofício. Capicua revelou que existe um diálogo constante entre os seus textos jornalísticos e as suas letras, onde ideias exploradas numa crónica acabam frequentemente por encontrar o seu caminho até um beat. Este rigor literário foi coroado com o Prémio José Afonso pelo álbum Madrepérola. O galardão teve um significado especial, pois o disco foi lançado nas vésperas da pandemia, ficando num “limbo” sem o habitual contacto com o público na estrada. O prémio foi, nas suas palavras, uma “pancadinha nas costas” que validou a sua proposta artística num período de grande frustração global.

Olhando para o futuro, a artista continua empenhada no projeto Mão Verde, dedicado ao público infantil, cujo terceiro disco-livro deverá ver a luz do dia na primavera. Sobre a representatividade feminina no rap, Capicua mantém uma postura crítica, notando que, embora o espaço das mulheres esteja a crescer, estas continuam a ser uma minoria que exige um esforço contínuo por igualdade. Capicua reforçou a importância da língua e da cultura como fios invisíveis que nos unem através do oceano. “A música portuguesa está mais viva e interessante do que nunca”, concluiu, deixando um convite à descoberta e à celebração da identidade lusófona.

Paulo Perdiz/MS

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