A Voz de Manhouce e a Luta pelo Património Cultural
Tem 83 anos, mas mantém a vitalidade e a paixão de uma jovem, sempre movida pela vontade de preservar as tradições da sua terra natal, Manhouce. Isabel Silvestre, conhecida como “a professora da Benta”, é uma mulher que correu o mundo, levando consigo a força e autenticidade do canto tradicional português. Fez-se ouvir ao lado de nomes como Rão Kyao, Rui Reininho e Vitorino e com as Vozes de Manhouce, tornando-se um símbolo da cultura popular. Hoje, Isabel dedica-se a um novo objetivo: ver o canto a três vozes das mulheres da sua aldeia elevado a Património Cultural Imaterial.
A localidade de Pedralva no coração da bairrada, é uma terra envolvida em vinhas e a calma rural que sabe bem receber pessoas e histórias de longe. A Celebração da Cultura e Tradições na Casa-Museu do Grupo Folclórico da Pedralva recebeu o evento ‘Há Festa na Adega – Adiafa na Pedralva’ , um dia repleto de alegria e partilha de saberes! Foi o local onde falámos com Isabel Silvestre. Havia algo no ar que sugeria que a entrevista seria especial. Isabel, uma figura simples e ao mesmo tempo imponente, carregava uma espécie de serenidade que se destaca de tudo e todos. Mulher sorridente de olhos brilhantes,refletem uma vida cheia de experiências e uma sabedoria que transcende o tempo.
Quando começou a falar, a sua voz, tranquila e firme, era como se estivesse moldada pelas canções e histórias da terra de onde viera. Não era apenas uma artista ou uma cantora que estava ali, mas alguém que personificava toda uma cultura, uma terra, uma história. “Na minha terra até as pedras cantam”, disse Isabel,, referindo-se a Manhouce, sua aldeia natal. Para muitos, Manhouce seria apenas um pequeno ponto no mapa de Portugal. Mas, nas palavras de Isabel, essa pequena vila ganhou uma dimensão enorme. Tornou-se um lugar onde a música não é apenas algo que se ouve, mas algo que se vive. “As crianças já ouvem cantar na barriga da mãe”, disse Isabel com um sorriso que revela toda uma tradição. Era como se o canto fizesse parte do ar, das montanhas e até das rochas, uma herança que se passa de geração em geração, tal como o ar que se respira. Isabel falou sobre as mulheres de Manhouce com um carinho especial. Para ela, são essas mulheres que, durante séculos, carregaram nas costas não apenas o peso do trabalho rural, mas também o peso de manter vivas as tradições da terra. Ao cantar enquanto colhiam, cozinhavam, cuidavam das crianças ou simplesmente viviam, elas perpetuavam uma forma de vida que parecia inalterável, apesar do passar do tempo.
O canto, na visão de Isabel, era como uma oração, um ato de fé, uma forma de ligar-se a algo maior. “Tudo por Deus, e se Deus quiser”, comentou, sublinhando como essa espiritualidade permeia cada nota, cada melodia. Foi interessante ver como, mesmo estando longe da sua terra natal, Isabel sente e carrega sempre consigo as colinas de Manhouce. Recordamos a sua participação com o grupo GNR, na canção “Pronúncia do Norte”, que tornou-se um hino para muitos. Não era apenas uma música popular, mas uma canção que mostrou toda a alma de uma região. “A música popular está sempre presente”, refletiu Isabel. Senti na sua voz uma emoção particular ao relembrar como a canção tocava em especial os emigrantes. Para essas pessoas, distantes da pátria, o som familiar de “Pronúncia do Norte” era mais do que uma simples melodia — era um reencontro com o passado, com a terra de onde vieram, um momento em que podiam, mesmo que por alguns minutos, sentir-se novamente em casa.
O olhar de Isabel iluminou-se quando se falou dos emigrantes, ela compreendia a importância da música para aqueles que estavam longe. Muitos portugueses, ao longo das décadas, deixaram o seu país na procura de uma vida melhor, espalhando-se pelo mundo. Em terras estrangeiras, a música tornava-se um elo, uma ponte invisível que os levava às suas origens. Para Isabel, ver a emoção nos olhos daqueles que ouviam as suas canções longe de casa era uma experiência profundamente tocante e cheia de emoção. Era como se, através da música, eles pudessem reviver memórias, afetos e as suas histórias. Muito surpreendida, Isabel fala como as novas gerações estavam, aos poucos, a redescobrindo essas tradições. Embora o mundo moderno ofereça milhões de novas músicas, há jovens que, de alguma forma, sentem a necessidade de voltar às suas raízes, de entender de onde vieram. “Quando vão à procura de si próprios, acabam por encontrar as nossas raízes”, disse ela, num tom que misturava surpresa e esperança.
Essa descoberta é, para Isabel, uma prova de que a música tradicional, longe de ser uma relíquia do passado, continua viva, pulsante e nas pessoas. Durante a conversa, senti que Isabel não via a música apenas como um dom pessoal ou uma forma de expressão artística. Para ela, cantar era um ato comunitário, um modo de manter unidas as pessoas que, mesmo distantes, partilhavam a mesma herança. Nas suas palavras, a música é uma forma de resistência cultural, uma maneira de garantir que as histórias, os modos de vida e as tradições não sejam esquecidos.
No final, depois de falar sobre tantas memórias, Isabel resumiu tudo com uma frase simples e profunda: “Graças a Deus, ainda conseguimos ouvir o silêncio.” Uma frase carregada de significados. O silêncio de que ela falou não era a ausência de som, mas o espaço onde as histórias se misturam, onde as canções ganham vida. O silêncio das montanhas de Manhouce, o silêncio das manhãs frias onde o canto das mulheres ecoava nos vales. É esse silêncio cheio de vida que Isabel Silvestre carrega consigo, onde quer que vá. Na entrevista mesmo para mim que nunca estive em Manhouce, Isabel conseguiu transportar-me para a sua terra. A música, as histórias, as canções e o silêncio — tudo esteve ali.
Paulo Perdiz/MS








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